Entrevista

Um desmentido de que "o comunismo morreu": a guerrilha marxista colombiana

Com a queda do Muro de Berlim, propagou-se por todo o mundo a falsa idéia de que "o comunismo morreu". Várias matérias e informações estampadas por nossa revista têm procurado desmentir tal afirmação, que parece ter sido lançada ... pelo próprio comunismo para acobertar-se e, ao mesmo tempo, veladamente favorecer-se em seus escusos desígnios.

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Quando se procura esclarecer inocentes-úteis e espíritos incorrigivelmente otimistas de que a "morte" do comunismo é uma baleIa, costuma-se lembrar um fato inquestionável: a existência atual de regimes ainda estritamente marxistas como o da China comunista, do Vietnã, da Coréia do Norte e de Cuba. Entretanto, alguns recalcitrantes desviam a conversa, procurando enfatizar que tal ",norte" teria ocorrido em todas as nações do Mundo Livre.

A entrevista que apresentamos hoje a nossos leitores é um desmentido frontal dessa falaciosa tese.

A Colômbia, nação sul-americana inteiramente integrado no Mundo Livre e na qual vigora o sistema capitalista, está seriamente ameaçada de desestabilização devido a um inexorável processo de sublevação marxista que, aliás, vem sendo cuidadosamente silenciado pela mídia no Exterior.

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Para quebrar esse mito da "morte" do comunismo numa nação capi­talista innã e vizinha do Brasil, esco­lhemos para entrevistar uma das pes­soas mais categorizadas para falar so­bre o tema: o vice-presidente da Sociedade Colombiana de Defesa da Tradição, Família e Pro­priedade - TFP, Sr. Eugenio Trujillo Villegas.

Há mais de dez anos, esse valoroso sócio da TFP colombiana vem dando assessoria ideológica a diversas instituições daquele país, voltadas à luta contra a subversão marxista.

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O Sr. Eugenio Trujillo tem proferido numerosas conferências para o Exército,a Polícia e o setor empresarial de quase todas as regiões da Colômbia, trabalho que o qualifica plenamente como um dos maiores conhecedores da atual situação política de sua pátria.




            Catolicismo –
A imprensa brasileira ultimamente quase não tem publi­cado nada sobre a guerrilha na Colômbia, tema que ocupou manchetes de primeira página em épocas ante­riores. Houve um certo enfraquecimento da atividade guerrilheira no país?

Eugenio Trujillo – Exatamente o contrário. A guer­rilha continua traumatizando vastas zonas do território colombiano. Suas fontes de ação aumentaram. Os ataques e emboscadas ao Exército e à Polícia são cada vez mais freqüentes. Segundo um informe recente, amplamente difundido na Colômbia, em 1994 os seqüestros quase se duplicaram com relação ao ano passado. E a maioria desses delitos são perpertrados pela guerrilha.

Em suma, a ação guerrilheira aumentou gravemente. Mas é preciso esclarecer que isto não significa em absoluto que a opinião pública a apóie, nem que a guerrilha goze da simpatia das populações nas regiões onde atua. A explicação desse fenômeno está na chamada "política de paz" dos últimos três governos, a qual impede o Exército de realizar verdadeiras e eficazes operações contra a subversão marxista, aos particulares de se organizarem para se defenderem, e pelo contrário, aos guerrilheiros os enche de benefícios, indultos e garantias de toda ordem.

 

Catolicismo tem estampado matérias sobre o assunto das guerrilhas colombianas, como por exemplo extratos e comentários de oportunos e corajosos manifestos da TFP daquele país contra o movimento guerrilheiro. Mais recentemente essa entidade tem publicado algum documento a respeito?

E. Trujillo –- De modo permanente, a TFP colombiana vem se pronun­ciando sobre toda essa problemática, quer através de manifestos publicados nos principais jornais do país, quer por meio de nossa revista que, difun­dida por meio de conhecidas campanhas de contato direto com o público, alcança ampla repercussão em todas as regiõ­es da Colômbia.

 

Catolicismo – Qual a posição atual da Hie­rarquia católica em relação à guerrilha? Continuam os contactos de eclesiásticos es­querdistas com os membros desta? Ou ocorreu algum re­cuo dos setores progressistas da Igreja quanto à aproxima­ção com os guerrilheiros?

E. Trujillo – Foi precisamente este o tema de nosso . último pronunciamento público sobre a questão. Alguns' Bispos colombianos converteram-se em próceres do diá­logo indefinido com a guerrilha, criando confusão e perplexidade em amplos setores da opinião católica do país.

A TFP foi sempre contrária a essa políti­ca de diálogo, a qual se baseia em pressu­postos equivocados. A guerrilha simples­mente não quer a paz. É o que ela mesma vem demonstrando de forma invariável. Pois enquanto fala de paci­ficação e de diálogo, assassina, seqüestra e destrói o país.

Alguns Bispos fazem o jogo da guerrilha ao pedirem o reatamento do diálogo com esta, de forma incon­dicional. Com o que a TFP está, evidentemente, em total desacordo.

Há alguns meses desatou-se na Colômbia uma polêmica que ilustra bem a realidade pre­sente. O Arcebispo de Buca­ramanga, D. Darío Castril­lón, acusou publicamente o comandante militar dessa ci­dade, General Harold Be­doya, de promover assassi­natos de pacíficos campone­ses de sua diocese.

Como é natural, tão gra­ve acusação causou grande escândalo em todo o país. O general se defendeu energicamente e exigiu do Arcebispo a apresentação de provas. O Prelado respondeu que as provas eram segredo de confissão, e que portanto não poderia revelá-Ias à opinião pública nem aos juízes.

Qual a razão de todo esse escândalo? Simplesmente o fato de o General Bedoya (um dos militares mais eficien­tes na luta contra a subversão marxista, nomeado por seus méritos, em novembro últi­mo, Comandante do Exérci­to) estar obtendo significati­vos êxitos na luta anti-guer­rilheira no Departamento de Santander (cuja capital é Bu­caramanga), no Noroeste do país.

Assestando dessa maneira seu ataque contra tão eficien­te adversário da guerrilha, D. Castrillón obtinha ipso facto para os inimigos da pá­tria, o inapreciável benefício de verem suspensas as opera­ções militares a eles tão nocivas.

 

Catolicismo – Qual tem sido, de modo geral, a reação da popula­ção colombiana no tocante à guerrilha? Esta tem conseguido ir anestesiando a opinião pública, ou a reação à guerrilha vem aumentando?

E. Trujillo – A resposta a essa pergunta depen­de da região do.país que analisemos. Nesse sentido, pode-se afirmar que as reações compreendem um verdadeiro leque de atitudes.

Há regiões enormemente reativas, onde a popu­lação de tal maneira se uniu ao Exército e à Polícia, criando uma rede de informação e defesa, que a guerrilha foi totalmente derrotada e obrigada a migrar para outras partes do território. Como existem regiões nas quais infelizmente o con­trário se deu: a guerrilha conseguiu a tal extremo intimidar e aterrorizar a população, que praticamente contro­la todas as atividades, erigindo-se numa espécie de Estado pararelo.

Esses são os dois extremos da reação. Às vezes há reações valoro­sas, às vezes capitulações vergonho­sas. O que indiscutivelmente é uma constante nesse conflito é que o Es­tado, a classe política e o clero, na sua imensa maio­ria, estimulam as capitulaçõ­es e desanimam os que que­rem evitá-Ias.

O Estado possui todos os elementos necessários para destruir a guerrilha e pacificar efetivamente o país, mas não quer fazê-lo. Quando os particulares ten­tam se defender da persegui­ção criminosa da guerrilha, o Estado não só não o permi­te, mas os persegue. Qual é o resultado? Muitas vezes as pessoas se desanimam, abandonam suas fazendas e vão viver em outra cidade, procurando no anoni­mato certa tranqüilidade.

 

            Catolicismo O Sr. poderia dar alguns exemplos de como é a ação da guerrilha nas regiões onde sua influência é maior?

E. Trujillo - Algo que ocorre com freqüência é a inter­cepção das principais rodovias do país. De forma surpreenden­te e em pleno dia, um grupo de 20 ou 30 guerrilheiros interrom­peo trânsito por períodos que variam de 30 minutos a quatro ou cinco horas. Durante esse tempo, os automóveis, ônibus e caminhões ficam detidos.

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regiões nas quais infelizmente o con­trário se deu: a guerrilha conseguiu a tal extremo intimidar e aterrorizar a população, que praticamente contro­la todas as atividades, erigindo-se numa espécie de Estado pararelo.

Esses são os dois extremos da reação. Às vezes há reações valoro­sas, às vezes capitulações vergonho­sas. O que indiscutivelmente é uma constante nesse conflito é que o Es­tado, a classe política e o clero, na sua imensa maio­ria, estimulam as capitulaçõ­es e desanimam os que que­rem evitá-Ias.

O Estado possui todos os elementos necessários para destruir a guerrilha e pacificar efetivamente o país, mas não quer fazê-lo. Quando os particulares ten­tam se defender da persegui­ção criminosa da guerrilha, o Estado não só não o permi­te, mas os persegue. Qual é o resultado? Muitas vezes as pessoas se desanimam, abandonam suas fazendas e vão viver em outra cidade, procurando no anoni­mato certa tranqüilidade.

Catolicismo - O Sr. poderia dar alguns exemplos de como é a ação da guerrilha nas regiões onde sua influência é maior?

E. Trujillo - Algo que ocorre com freqüência é a inter­cepção das principais rodovias do país. De forma surpreenden­te e em pleno dia, um grupo de 20 ou 30 guerrilheiros interrom­peo trânsito por períodos que variam de 30 minutos a quatro ou cinco horas. Durante esse tempo, os automóveis, ônibus e caminhões ficam detidos.

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À medida em que os veículos vão chegando, seus passageiros são revistados e obrigados a mostrar seus documentos de identidade. Se encontram algum membro da Polícia ou do Exér­cito, mesmo em traje civil, o fuzilam incontinenti. Roubam os viajantes que querem, violam as mulheres quando querem, tendo havido casos em que as obri­gam a permanecer com eles durante vários dias. E se por acaso passam pessoas conhecidas na região, como fazendeiros e empresários prósperos, estes são imediatamente seqüestrados e liberados somente após o pagamento de altas somas.

 

CatolicismoQual o desempenho de partidos po­líticos compostos por ex-guerrilhei­ros (serão de fato "ex" ?) nas últimas eleições presidenciais?

E. Trujillo - A política partidá­ria na Colômbia está no descrédito mais absoluto. Para se ter uma idéia de até onde chega, basta citar os re­sultados das eleições realizadas em outubro último, quando foram eleitos os governadores, prefeitos, deputados estaduais e vereadores de todo o país. Uma vez que o voto não é obrigatório, 80 % da população não votou. O que tem um grande significado. É um rechaço.

A guerrilha pacificada não teve praticamente ne­nhum apoio eleitoral. Toda ela está representada pelo M­19, cujos votos não alcélJ}ça­ram 5% dos escrutínios. E de se notar que o M -19, ao apre­sentar-se pela primeira vez às umas, há quatro anos, obteve cerca de 20% dos votos ...

Definitivamente, o poder da guerrilha está nas armas e não nos votos. Por isso, apesar de todas as suas falsas promessas de pacifi­cação, os seus instru­mentos de "proseli­tismo" - ou seja, suas armas - nunca são entregues. Além do mais, nunca se sabe com exatidão quantos são os guerri­lheiros que estão na ilegalidade e quantos são os que não estão.

Catolicismo – Quais as disposições do recém-eleito presidente Samper em relação à guerrilha: de endurecer ou de afrouxar a ação antiguerrilheira desenvolvida pelo ex-presidente Gavíria?

E. Trujillo ­ Permita-me fazer uma precisão a sua pergunta. O ex-presidente Gavíria nunca desenvolveu uma ação antiguerrilheira. Toda sua política foi de diálogo e de concessões à subversão.

E, segundo me parece, o atual presidente Samper continuará pelo mesmo caminho. Quando estava em campanha eleitoral, ele anunciou uma ação enérgica para derrotar a guerrilha. Mas se ele disse isso é porque estava à caça de votos e soube prometer o que era do agrado da opinião pública.

Uma vez no Poder, sua política nesse ponto é o contrário do prometido e do que a população esperava. Seus primeiros anúncios sobre a matéria consistem em retomar os diálogos incondicionais com a guerrilha, limitar as operações militares, dar mais garantias à subversão e nomear observadores internacionais que só vão escutar as exigências da guerrilha e nunca as de suas vítimas.

N o fundo, todas as diretrizes presidenciais conhecidas até aqui indicam que haverá mais concessões à subversão marxista, mais limitações à força pública no cumprimento de seu dever, menos garantias para todos aqueles que integram a Colômbia honesta e laboriosa que deseja verdadeiramente a paz. Ou seja, vamos pelo caminho inverso ao da pacificação.

 

Catolicismo – E qual é a posição das Forças Armadas colombianas no tocante à guerrilha: intensificar o combate que vinha sendo movido contra elas, ou atenuá-lo?

E. Trujillo – Por mandato constitucional, as Forças Armadas estão absolutamente sujeitas às determinações do Presidente da República. Elas não são deliberantes. Simplesmente fazem o que o Presidente manda, ainda que não estejam de acordo.

E, lamentavelmente, tanto o presidente Samper como seus antecessores procuraram atenuar a ação das Forças Armadas contra a guerrilha.

Catolicismo – Finalmente, uma palavra quanto ao empresariado. Qual a atitude dos fazendeiros em face do movimento guerrilheiro E qual a posição dos empresários urbanos? Tem aumentado o número de seqüestros e assassinatos de empresários por parte da guerrilha?

E. Trujillo – A ação da guerrilha se faz sentir muitíssimo mais no campo do que na cidade. Por essa razão, a Colômbia, nação de vocação eminentemente agropecuária, vê com desconcerto como a agricultura e a pecuária produzem bem menos do que o esperado.

Uma das razões que mais influem nisso é o aumento do seqüestro. A Colômbia possui o triste e macabro recorde de ser o país onde mais seqüestros se cometem no mundo: cerca de três mil, em 1994! Isto é uma demolição organizada do setor empresarial.

O dinheiro arrecadado em virtude de resgates ascende a somas fabulosas, que alimentam as arcas da guerrilha, e também, em menor escala, os bandos de delinqüentes que se organizam . com o mesmo fim.

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Com isso, o desemprego a pobreza, a migração do campo para a cidade são fenômenos que se. tornam incontroláveis. Nas cidades grandes e médias vão surgindo cinturões de miséria, compostos por camponeses removidos de seus lugares de origem pela violência e pela falta de oportunidades de trabalho. E onde está a raiz de tudo isto? N a falta de um combate efetivo à guerrilha, que conduza a uma pacificação autêntica do país.

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