Brasil Real

Missão providencial do Brasil no olhar dos Profetas

Rafael Menezes

Era tardinha quando cheguei a Congonhas do Campo, em Mi­nas, ansioso por ver os Passos da Paixão e os Profetas. Mas as sombras da noite já começavam a se misturar com a luz.

Da esplanada dos Profetas ainda se avistava o sol, qual imensa bola de fogo que parecia afundar-se no abismo da noite. Alguns focos de nuvens passeavam lentamente pelo céu, sob um fundo avermelhado, quase róseo. No local não restava mais uma "viv'alma". O ambiente dos Passos, tendo logo acima os Profetas altissonantes, como a exprobrar a humanidade, cujos pecados são a causa da Paixão e morte do Redentor, comunicava ao cenário uma solenidade de grandeza bíblica.

Mas como ver na escuridão? Não tardou a se aproximar um guarda do santuário, o qual, vendo que se tratava de alguém "de fora", ofereceu-­se para acender as luzes e servir-me de guia, explicando detalhe por detalhe aquelas impressionantes cenas.

Começou por abrir a ermida da Santa Ceia: Depois de ver de perto as imagens que dão a impressão de pessoas vivas, o versado guarda dis­se-me: "Para exercer esta função tive que fazer um curso na Secretaria da Cultura, onde me foi explicado o significado de cada uma dessas cenas, e mesmo dos personagens. Por exemplo, veja este Judas. Ele _ tem uma pequena marca no peito. E que há muitos anos atrás esteve aqui um missionário, e, na sexta-feira santa, durante o sermão sobre a Paixão, mandou que se pusesse o Judas ao seu lado. Todos ficaram implicados com aquilo: Por que não levar a imagem de Jesus flagelado, cochi­chava-se entre o povo".

"Mas o piedoso sacerdote sabia o que fazia. A cada atrocidade feita contra Cristo, que ele narrava, ia apontando o Judas como culpado. A indignação popular contra o malfeitor foi crescendo, até que um camponês, não se contendo mais, sacou uma pistola e descarregou-a no peito do traidor, bradando: 'Maldito'!"

Mais à frente estava a estátua de Santa Maria Madalena e o guarda voltou a solicitar minha atenção:  "Veja como seu rosto {em um lado plebeu e outro nobre! E que o Aleijadinho incumbira um seu discípulo de fazer esta escultura, mas este não estava informado sobre a origem nobre da Santa. E quando o mestre viu a escultura, tomou-lhe o cinzel e entalhou com suas próprias mãos, já carcomidas pela lepra, o outro lado. Consta que em sua mocidade levou vida dissoluta como a Madalena, e com este gesto quis oferecer a Deus uma reparação".

Junto a outro grupo escultural, alertou-me o guarda: "Procure descobrir a assinatura do Aleijadinho nas obras feitas diretamente por ele. Neste grupo há duas". Por mais que tenha aguçado a observação, não consegui encontrar a marca do genial escultor. Então o guarda apontou-me o detalhe: "Preste atenção nos pés das figuras. Aquelas que forem aleijadas são obras do Aleijadinho, as demais são dos seus discípulos".

Um respingo de arte gótica no Brasil

Imersos num silêncio majestoso e sobrenatural,l, os Profetas, talhados em pedra sabão, parecem meditar sobre o drama 'da Paixão que se desenrola abaixo, nas pequenas capelas dos Passos. Seus olhares parecem transpor séculos e milênios, na contemplação do remoto passado em que seus vigorosos lábios anunciaram aqueles acontecimentos que dividiram em duas partes a própria História. Ao mesmo tempo, parecem proclamar acontecimentos futuros ainda mais dramáticos.

O conhecido conservador do Museu do Louvre, de Paris, Germain Bazin, que veio ao Brasil especialmente para estudar essas obras, comenta em seu livro O Aleijadinho (Le Temps, Paris, 1965): "No momento em que o artista pega o cinzel para modelar uma estátua, sua vi­são das formas é a de um homem da Idade Média"!

Há quase dois séculos que o Aleijadinho foi devorado pela lepra, mas suas obras tomaram-no imortal. Elas são a expressão, genuinamente nacional, do precioso legado da tradição católica haurida pelos portugueses nos mananciais da Cristandade medieval, e transplantada para o Novo Mundo.

Essas e outras relíquias do nosso passado constituem, sem dúvida, uma alentadora primícia do que promete ser o grande e luminoso porvir desta parte do mundo, continuadora do pequeno Portugal, de alma tão grande, do qual nos honramos de provir. E para este futuro que rumamos, com passo resoluto e alma cheia de Fé!

 

 

-->