Vidas de Santos

São Basílio e São Gregório Nazianzeno, modelos de inflexibilidade na Fé

Beleza, verdade e bondade na atuação e na obra literária de dois luminares da Igreja oriental, no século IV

Luís Carlos Azevedo

A História da Santa Igreja, no Oriente, nos apresenta, no decurso do século IV, as hostes de batalhadores em defesa da ortodoxia católica contra as heresias, bem como as primeiras falanges de anacoretas do deserto.

Assim, contemplamos um Santo Atanásio (+ 373), desterrado cinco vezes por confessar a verdadeira Fé; Santo Hilário de Poitiers (+ 366), insigne polemista e vítima da fúria dos hereges arianos; Santo Ambrósio de Milão (+ 379); o grande catequista São Cirilo de Jerusalém (+ 386); Santo Efrém, o sírio (+ 373), etc.

A esses grandes santos devemos acrescentar os heróis do deserto: São Paulo, o Eremita (+ 347), iniciador da vida de retiro e do ascetismo eremítico; Santo Antão, Abade (+ 356), pai dos monges e organizador da vida monástica propriamente dita ao lado de São Pacô­mio (+ 348).

Nesse firmamento brilham, como estrelas de primeira grandeza, os chamados "luminares da Capadócia" (Ásia Menor)[ver mapa]: São Basílio, o Grande (+ 379); seu irmão carnal, São Gregório de Nissa (+ 395) e São Gregório Nazianzeno (+ 389).

Tão íntima foi a colaboração entre São Basílio e São Gregório Nazianzeno que a Sagrada Liturgia celebra a festa de ambos na mesma data: 2 de janeiro.

Família de santos

"Honremos todos Basílio, o Grande, revelador das coisas celestes, íntimo do Senhor, a luz brilhante saída de Cesaréia e do país de Capadócia". Segundo o ritual bizantino, são essas as expressões entoadas pelo coro na Missa em louvor do Santo.

Basílio nasceu no ano 329. Foi o segundo de dez irmãos, vários dos quais elevados à honra dos altares: sua irmã mais velha, Santa Macrina (que leva o nome da avó paterna); São Gregório, Bispo de Nissa; e o caçula, São Pedro, Bispo de Sebaste. Seu pai foi São Basílio, o Velho, e sua mãe Santa Emélia. O pai desta foi martirizado durante as perseguições do Imperador Maximiniano Galério.

A avó pelo lado paterno do Santo era originária de Neocesaréia, no Reino do Ponto, e foi instruída na Fé católica pelo grande São Gregório, o Taumaturgo. Aos setenta anos de idade, ela se incumbiu da primeira educação de São Basílio. Seu pai, São Basílio, o Velho, residia habitualmente no Ponto e se destacava pela piedade e eloqüência, sendo professor de retórica e de filosofia. Instruiu ele o próprio filho nas Letras Sagradas e profanas até sua morte, que se deu à época do nascimento do caçula, São Pedro de Sebaste.

Em Constantinopla e Atenas

De Cesaréia da Capadócia, quando os melhores mestres da cidade já não tinham mais o que lhe ensinar, partiu São Basílio para Constantinopla, onde foi aluno de Libânio, que, então, gozava de alta reputação por toda parte. O mestre desde logo destacou o Santo entre seus ouvintes e não cessou de admirar suas esplêndidas disposições para as ciências, sua rara modéstia e extraordinária virtude. Repetidas vezes ele escreveu em suas cartas sentir-se como que fora de si e maravilhado ao ouvir São Basílio falar em público e não cessou de lhe dar mostras de elevada estima e de profunda veneração pelos seus méritos.

A reputação de São Basílio voou de Constantinopla para a capital das Ciências e das Letras, Atenas, onde seu nome estava praticamente na boca de todo mundo. Nessa cidade reencontrou ele seu grande amigo São Gregório Nazianzeno, o qual declarou, a respeito da permanência de ambos nessa cidade: "A única coisa que nos preocupava era nossa santificação, nosso único objetivo era sermos chamados e efetivamente nos proclamarmos católicos".

Com efeito, em Atenas, cidade prenhe de atrativos mundanos, São Basílio e São Gregório permaneciam sempre juntos, não freqüentando senão colegas tranqüilos e castos. Eles, a bem dizer, só conheciam duas ruas na cidade: a que conduzia à igreja, onde se encontravam os doutores que ensinavam a Fé, e a que conduzia à escola pública, onde estavam os mestres que ensinavam as ciências humanas.

Em Atenas, tiveram eles a desdita de conhecer Juliano, o futuro imperador apóstata: estatura medíocre, pescoço grosso, ombros largos, que ele mexia continuamente, como também sua cabeça. Seus pés não eram firmes e seus passos hesitantes, os olhos vivos e o olhar furioso, nariz desdenhoso e insolente, boca grande, lábios espessos, barba eriçada e pontuda. Sempre fazendo brincadeiras ridículas e rindo desmedidamente, esbanjando perguntas impertinentes e dando respostas embrulhadas às questões que lhe eram formuladas, não tinha nada de firme e de metódico. Vendo-o, São . Gregório Nazianzeno exclamava: "Que peste alimenta o Império Romano! Queira Deus que eu seja um falso profeta!"

Regressando da capital grega, São Basílio fundou uma escola de retórica em Cesaréia. Entretanto, vendo que os êxitos alcançados o expunham à tentação de vanglória, resolveu abandonar inteiramente o mundo. Foi ordenado sacerdote pelo Bispo Eusébio, daquela cidade, e após a morte deste, nomeado Bispo de Cesaréia em 370. À testa de sua Diocese pregava incansavelmente. Fundou um hospital, aonde ia pessoalmente consolar os doentes e ensiná-los a fazer bom uso de seus padecimentos.

Inflexibilidade no combate aos abusos e às heresias

Como metropolita da Capadócia, São Basílio combateu energicamente os abusos e sobretudo as heresias (arianismo, macedonianismo e apolinaris­mo)[ver quadro], sendo notáveis as suas obras de caráter dogmático contra todas elas.

Modesto, hábil prefeito do pa­lácio do Imperador ariano Valen­te, tentou repetidas vezes atemorizá-lo. Eis um diâlogo entre ambos, que a História registra:

"Modesto - O Imperador Valente vos faz muita honra. Uma vez que sua bondade não consegue nada de vós, temei ao menos sua justiça e 'sua indignação.

São Basílio - Que tenho eu a temer?

Modesto - Vós podeis temer a perda de vossos bens, vossa liberdade e vossa própria vida.

São Basílio - Essas ameaças não me dizem respeito, pois quem não possui nada não tem confisco a recear; não estando eu apegado a qualquer lugar que seja, não tenho que temer qualquer exílio; se me colocardes numa prisão eu estarei ali mais feliz do que os cortesãos juntos do Imperador. E quanto aos outros suplícios, onde serão eles aplicados? Não tenho um corpo capaz de suportá-los. O primeiro golpe será o único que vossa força poderá desferir contra mim. Quanto à morte, ela será para mim uma graça e uma felicidade e me colocará na posse da visão de meu Deus, único objeto de meus desejos e único objetivo de minhas ações.

Modesto - Nunca ninguém ousou falar-me de maneira tão atrevida.

São Basílio - Talvez porque nunca tivestes que tratar com um Bispo, pois ele teria tido a mesma linguagem se tivesse a mesma causa a defender.

Modesto - Tendes o resto da noite para refletir sobre o partido a seguir.

São Basílio - Serei amanhã O que sou hoje!"

Fundador dos basilianos

São Basílio foi ainda o fundador da instituição monacal dos basilianos, que conheceu desenvolvimento rápido e extraordinário, chegando mesmo a substituir os demais núcleos de vida cenobíti­ca. Os basilianos foram, no Oriente, o que pouco depois viriam a ser, no Ocidente, São Bento e a Ordem dos beneditinos.

Juntamente com São Gregório Nazianzeno compôs ele as duas Regras dos monges basilianos. A Regra maior conta 55 capítulos nos quais sei expõem os princípios fundamentais da vida monástica. A menor consta de 313 breves disposições ou sentenças práticas sobre a vida monacal. Ambas as Regras constituíram o Código monástico oriental por excelência. E, dois séculos depois, apoiados pelo Império Bizantino cada vez mais forte, os basilianos foram os monges por antonomásia do Oriente.

Basílio faleceu em janeiro do ano 379, aos 50 anos de idade. Foi um Príncipe da Igreja típico: inflexível na doutrina e na luta contra os abusos. Ao mesmo tempo, afável, desinteressado, captando as simpatias dos que trabalhavam com ele. Os gregos o chamavam de o latino, pelo seu espírito eminentemente prático, à maneira ocidental. Mereceu o título de o Grande pela amplitude de sua atividade e o raio de sua influência.

Perfil de São Gregório, o Teólogo

São Gregório Nazian­zeno (325-389), doutor da Igreja, como seu íntimo amigo São Basílio, foi Bispo Patriarca de Constantinopla. Um varão de sensibilidade delicada, mais voltado à contemplação do que à ação, orador VIgoroso e eficaz, polemista vivaz, raciocinador lúcido e combativo. Cognominado o Teólogo pela segurança de sua doutrina, elevação de seu pensamento e esplendor de sua exposição.

Sua mãe, Santa Nona, antes mesmo de ele nascer, consagrou-o a Deus nosso Senhor. Gregório veio à luz em Arianzo pequena aldeia do território de Nazianzo (Capadócia, Ásia Menor). Teve ele dois irmãos também santos: São Cesário e Santa Gorgonice. Seu pai era pagão. Entretanto, graças às orações e sacrifícios da esposa, ele converteu-se e em 325 foi batizado pelo Bispo de Cesaréia São Leôncio, de passagem pela cidade: tornando-se ele mesmo, quatro anos depois, aos 55 anos de idade Bispo de Nazianzo.

O pai chamou-o de Atenas a fim de ajudá-lo no governo da Diocese, ordenando-o, muito a contragosto, sacerdote. São Gregório ficou na cidade até a morte do pai, com mais de cem anos de idade, em 374. Retirou-se então para o convento de Santa Tecla, em Selêucia de Isáuria, dali saindo em 379 para dar combate à heresia.

Nesse mesmo ano, com efeito morria o Imperador ariano Valente e suce­dia-lhe o espanhol Teodósio I no governo do Império do Oriente. No dia 27 de fevereiro de 380 anunciou ele aos seus súditos que, doravante, dever-se-ia professar "a religião já ensinada pelo Apóstolo Pedro aos Romanos, e atualmente proclamada pelo Pontífice [São] Dâma­so". Em novembro do mesmo ano o novel Imperador expulsou os arianos' de Constantinopla e São Gregório era recebido em procissão solene, em Santa Sofía, como Patriarca em meio às aclamações populares.

Sua obra literária é bastante vasta, compreendendo 45 discursos, 245 cartas e grande quantidade de versos, que lhe valeram ser chamado de o poeta da Igreja oriental.

São notáveis os cinco discursos teológicos que pronunciou, provavelmente entre fevereiro e novembro de 380. O discurso em defesa da ortodoxia contra os erros arianos representa o que de melhor se produziu em matéria de eloqüência teológica, no século IV.

Suas cartas são importantes quer do ponto de vista literário, quer teológico, enquanto esclarecimento de conceitos dogmáticos no combate às heresias e ainda como contributo aos trabalhos dos Concílios de Éfeso e da Calcedônia.

FONTES DE REFERÊNCIA

1. Padre Bernardino Llorca, S.J., Historia de la Iglesia Católica, BAC, Madri, 1955, tomo 1 - Edad Antigua.,

2. Padre Rohrbacher, Histoire Universelle de L'Eglise Catholique, Gaumes Freres Li­braires, Paris, 1843, tomo VI.

3. Dom Bosco, Compêndio de História Eclesiástica, Livraria Salesiana Editora, São Paulo, 1946.

4. Vies des Saints pour tous les jours de l' année, Maison AIfred Mame et Fils Tours (França), 1914.



Para entender este artigo

L.C.A

Monges ou anacoretas e cenobitas - No século IV chamavam-se monges, anacoretas ou solitários os religiosos que viviam separados uns dos outros, e habitavam em celas ou cabanas e às vezes em cavernas, distantes umas das outras, reunindo-se somente em certas ocasiões para rezar juntos, assistir aos divinos ofícios, e receber instruções e avisos. Chamavam-se cenobitas os religiosos que viviam juntos, e dormiam debaixo do mesmo teto. Só com o correr dos tempos monge e cenobita tiveram o mesmo significado.

Arianismo - Heresia apregoada pelo ímpio Bispo de Alexandria, Ario, que teve o atrevimento de afirmar que o Filho de Deus não é consubstancial ao Pai, mas tão-só criatura sua. Bispos e doutores se levantaram contra ele com a voz e os escritos; encontrou contudo partidários enganados por sua hipocrisia, e conseguiu perturbar a Igreja em todas as partes. Foi condenado pelo Concílio de Nicéia (325).

Apolinarismo - Heresia sutil sustentada em Antioquia por Apolinário, o Jovem, Bispo de Laodicéia, segundo a qual o Verbo de Deus ocuparia em Cristo o lugar que ocupa em nós a alma e, portanto, o Verbo se teria unido a um corpo e não a uma alma humana. Foi condenado no Concílio de Constantinopla (381).

Macedonianismo - Heresia de Macedônio, que negava a divindade do Espírito Santo. Seus erros foram condenados no Concílio de Constantinopla (381), convocado pelo Papa São Dâmaso e apoiado pelo piedoso Imperador Teodósio I. Ali se acrescentaram as seguintes palavras ao chamado Símbolo de Nicéia: "Creio no Espírito Santo, Senhor e vivificador .... o qual juntamente com o Pai e com o Filho é adorado e glorificado

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