XV Exposição Solene das Relíquias de São Francisco Xavier
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Comemoração

XV Exposição Solene das Relíquias de São Francisco Xavier

De 20 de novembro a 7 de janeiro ultimo, realizpu-se em Goa, na India, a exposição dos restos mortais do grande apostolo jesuita do século XVI, Padrieiro universal das Missoes, objeto de impresionante devoção popular naquele país asiático

Plínio Maria Solimeo
Enviado especial


O nome Goa, para nós ocidentais, ressoa como o de uma legendária terra onde um punhado de heróicos portugueses construiu um império. E realmente Goa, conquistada de um modo quase milagroso em 1510 pelo "Albuquerque terrível" (*), tomou-se em pouco tempo a capital do Império Português das Índias, a Rainha do Oriente, a Goa Dourada, a Roma do Leste. Em breve, onde estivera a principal mesquita dos mouros, surgiria a imponente catedral ­orgulho dos goeses - inúmeras outras igrejas e conventos, o Hospital Real, a Santa Casa de Misericórdia, o leprosário de São Lázaro, e o Colégio de São Paulo, primeira instituição universitária do leste asiático.

Quem viu Goa, escusa-se de ver Lisboa tomou-se um provérbio corrente.

Em Velha Goa - como é denominado hoje o que restou da antiga cidade -, entretanto, alguns edifícios testemunham sua glória passada. Um deles é a Sé Patriarcal. Outro a Basílica do Bom Jesus, casa professa da Companhia de Jesus, que guarda em seu seio o tesouro mais inestimável para todo católico goês:os restos mortais de São Francisco Xavier.

A cada dez anos, entretanto, Velha Goa revive, rejuvenesce, e vê-se novamente cercada de alguns momentos de glória. Trata-se da exposição solene das relíquias do Apóstolo das Índias e do Japão.

No século XVIII, infelizmente, Goa já apresentava todos os sintomas de decomposição. Vieram ordens do Reino para que se construísse outra capital e se abandonasse a condenada cidade. Em 1759, o governador mudou sua residência para Pangim, sendo seu exemplo seguido pelas pessoas de posição.

Entusiástica veneração popular

O amor e devotamento dos goeses ao seu Goencho Saib, Senhor de Goa, é indescritÍvel. Vários artigos na imprensa o descreveram durante a mais recente exposição, que teve lugar de 20 de novembro a 7 de janeiro últimos.

"Como explicá-lo?" - pergunta em editorial a revista oficial da Arquidiocese, se o Santo passou poucos meses na então imponente capital do Império luso do Oriente? E, esses mesmos, foram dedicados mais a reformar os portugueses. Ainda mais: os goeses não podem sequer gabar-se de terem sido alguma vez objetos da especial afeição do Santo. "Pelo contrário, suas cartas contêm muitas observações críticas aos indianos, que tiveram pouca resposta ao Evangelho, enquanto que todo seu louvor e admiração são reservados aos japoneses, que conquistaram seu coração".

Então, "como aconteceu que um santo que, durante sua vida, não pareceu preocupar-se com os goeses, fosse subitamente promovido, após sua morte, quase que por popular consenso, a Senhor de Goa?"

A resposta está em que" a singular relação entre os goeses e seu santo foi estabelecida não tanto com o Xavier vivo, mas por meio de seu corpo incorrupto. O privilégio de terem sido escolhidos como guardiães do precioso corpo ... parece ser a principal base desse duradouro e inquebrantável devotamento dos goeses ao seu Saib" (1).

" Cada goês sente-se privilegiado e honrado em se considerar o custódio desse único tesouro". "Eles o prezam mais do que suas propriedades pessoais, e cederiam antes algum bem familiar de valor sentimental a considerar a hipótese de serem privados dessa santa relíquia" (2).

Já o fato de as autoridades eclesiásticas terem previsto a Exposição para durar até 7 de janeiro, foi em grande parte para permitir que o maior número de goeses, trabalhando no Exterior, sobretudo no Golfo Pérsico, tivesse oportunidade de vir prestar homenagem a seu Patrono.

Os goeses nunca são tão eloqüentes como quando tratam desse tema. Esse mesmo entusiasmo podia ser sentido nas ruas de Panjim e adjacências, nos dias de abertura da Exposição.

De todos os lados, pessoas vestindo seus melhores trajes - em automóveis, as mais abastadas; de motocicleta ou lambreta, as de classe média; e a pé as mais pobres - dirigiam-se à Goa. E todos, por seu porte e característico sorriso goês, mostravam-se ufanos, como que "sócios" das grandes cerimônias da Exposição. Não faz São Francisco Xavier parte da família?

No dia 3 de dezembro, veneração de 100 mil peregrinos

Neste ano eram esperados cerca de 1 milhão e 500 mil peregrinos e turistas contra um total de 1 milhão de visitantes em 1983. Para suprir acomodação do excedente, o Governo requisitou escolas e outros estabelecimentos de porte.

No dia 20 de novembro, véspera da abertura da Exposição, a uma de prata, contendo os restos mortais de São Francisco Xavier, foi descida do mausoléu da Basílica do Bom Jesus e levada para a sacristia.

No enorme terreno lateral da Brasílica, foi montada gigantesca tenda-capela com 10 mil cadeiras, para as cerimônias da Exposição.

A abertura solene realizou-se na manhã seguinte com uma Missa Pontifical oficiada pelo Cardeal Arcebispo de Bombaim, Dom Simon Pimenta, concelebrada por Dom Gonçalves, Arcebispo de Goa, Dom Felipe Nery Ferrão, por Dom Ignatius Lobo, Arcebispo de Belgaum, e o Vigário da Basílica.

Estavam presentes à solenidade o Governador do Estado, Goapala Ramunujam, hindu, o Primeiro Ministro Estadual, Wilfredo de Souza, católico, 140 sacerdotes e centenas de freiras de diferentes regiões do país, e uma multidão de mais de 10 mil fiéis.

Após a Santa Missa iniciou-se a procissão trasladando a uma, contendo os restos mortais do Apóstolo, da Brasílica para a Sé Catedral, a cerca de duzentos metros de distância. O percurso escolhido foi o de um quilômetro, percorrido em meia hora.

O espírito de fé e piedade - como foi ressaltado pela imprensa - podia ser sentido ao ver a multidão esperando pacientemente sob um sol abrasador, o privilégio de passar diante dos restos mortais de 442 anos do Goencho Saib (Senhor de Goa), como afetuosamente os goeses chamam a São Francisco Xavier. Nesse dia 6.689 pessoas oscularam a urna.

O ponto alto dos 48 dias de Exposição foi a festa do Santo, de 3 de dezembro. Nesse dia, por ser feriado estadual, mais de 100 mil peregrinos estiveram na Velha Goa para venerar seu precioso tesouro.

Durante o tempo da Exposição, as ruas de Panjim - cidade bem maior do que Goa, situada a 16 quilômetros desta - regorgitaram de peregrinos de todas as regiões da Índia.

A maior parte era de outros Estados, principalmente de Kerala, o de maior concentração de católicos no país, Tamil Nadu e Kamataka. Boa parte, não podendo arcar com as despesas de alojamento, numa solução muito familiar, acampavam nos enormes claustros do convento anexo à Basílica. Ou mesmo, ao ar livre, aproveitando-se do clima ameno e seco, sobre esteiras de palha. No caminho para Goa, era freqüente encontrar peregrinos preparando, em enormes panelas, arroz com curries. Alguns, de localidades limítrofes, faziam percurso de várias dezenas de quilômetros a pé, rezando o Rosário e entoando cânticos. Chamava a atenção, no dia 3 de dezembro, a presença de 50 peregrinos, de traços étnicos mongolóides. Eram católicos recém-convertidos, procedentes do distante Estado de Arunachal Pradesh, em seus trajes típicos. Esse Estado fica situado no extremo Oeste da Índia, na fronteira com a China e Myanmar (antiga Birmânia).

Entre as numerosas comitivas de peregrinos estrangeiros, destacava-se a dos católicos do Japão, da cidade de Kangoshima, que, segundo informaram, planejam celebrar em 1999, os 450 anos do desembarque de São Francisco Xavier naquele país.

O encerramento da XV Solene Exposição das relíquias de São Francisco Xavier começou com pequena cerimônia presidida pelo Cardeal Patriarca, na Sé Catedral. Em seguida, iniciou-se a procissão conduzindo a urna de volta para a Basílica do Bom Jesus.

De "Corpo Incorrupto" a "Sagradas Relíquias"

Em maio de 1554, quase dois anos após a morte de São Francisco Xavier, o Pe. Melchior Nunes Barreto, Superior Provincial dos Jesuítas do Oriente, escreveu carta a Santo Inácio a respeito da conservação do corpo do Apóstolo até aquela data.

Nela, narra pormenorizadamente como o cadáver foi enterrada sob camadas de cal viva pelos portugueses na praia de Sansião; como, três meses depois, no momento de partirem para Málaca, exumaram-no e "encontraram-no intato, como se estivesse vivo" . Para o comprovarem, fizeram um corte no braço do cadáver: a carne estava fresca e desprendia agradável odor.

Em Málaca, foi o corpo recebido com grande solenidade e depois enterrado na porta da sacristia da igreja de Nossa Senhora do Monte.

No mesmo ano, atendendo aos desejos que o Santo ainda em vida manifestara, seus restos mortais foram conduzidos a Goa.

Ocorreu em seguida, por imposição popular, a primeira exposição solene do precioso corpo: as cinco ou seis mil pessoas que lotavam a igreja dos Jesuítas, "estavam determinadas a não sair enquanto o corpo não lhes fosse mostrado" . Isso feito, a reação foi tal que, "se não estivéssemos lá, cada pessoa do povo teria saído, levando um pedaço da carne do corpo para guardar como relíquia, tão grande era a devoção" (3).

Depois de três dias de exposição, o corpo foi novamente enterrado na igreja de São Paulo (4).

Em 1560, quando essa igreja foi demolida, o precioso tesouro permaneceu certo tempo no quarto do Reitor, e depois no do Mestre de noviços, até ser finalmente levado para a Casa Professa da Basílica do Bom Jesus, onde se encontra até hoje.

Começam as mutilações

Em 1614, para atender ao desejo do Pe. Acquaviva, Superior Geral dos Jesuítas, foi-lhe enviado como relíquia o antebraço direito do corpo incorrupto. Cinco anos mais tarde, a parte remanescente do braço foi decepada, dividida em três partes e enviada aos Colégios jesuítas de Málaca, Cochim e Macau. .

No ano seguinte, a pedido do novo Superior Geral dos Jesuítas, Pe. Vetleschi, os órgãos internos do Santo foram removidos e distribuídos por diversas partes do mundo, inclusive no Japão.

Em 1744, transcorridos 192 anos do falecimento do Apóstolo do Oriente, fez-se novo exame médico de seus restos mortais. "Constatamos com nossos próprios olhos a continuação do milagre" , diz em carta o Pe. Provincial.

O corpo incorrupto de São Francisco Xavier foi novamente examinado em 1859 (a cabeça, ressecada e escurecida, estava ainda coberta de pele e raros fios de cabelos); em 1878 (apesar de ressecado e escurecido, foi julgado em boas condições); em 1910 (os médicos afirmaram que o corpo estava num estado que permitia expô-lo à veneração pública); em 1923 (corpo ressecado, ossos aparentes em algumas partes, as formas faciais estão preservadas); em 1932 (percebe­-se ainda as formas da face, todo o corpo está ressecado, mas nada indica putrefação).

"Sagradas Relíquias": o que restou

Em 23 de junho de 1951 foi feito o último exame médico, tendo-se examinado o rosto, as mãos, como também as partes cobertas pelos paramentos. Os contornos faciais estavam ainda preservados, com rara barba, os tendões e veias da mão esquerda perceptíveis, os do pé esquerdo ainda rijos, mas a pele ressecada.

No pé direito faltavam quatro artelhos; dois, do esquerdo tinham unhas e os outros três tinham se reduzido a pedaços.

Quando os paramentos foram removidos, viu-se que a cabeça estava separada do corpo.

Foram encontrados vários ossos soltos no centro da urna, o que indica que provavelmente esta teve uma queda em algum momento. Segundo constataram os médicos, as partes do corpo que permaneceram incorruptas foram sobretudo aquelas não cobertas, se bem que apresentem também sinais de lenta decomposição.

No início de 1955, o médico italiano Brandizi Ettore esteve em Goa, para recolocar os ossos no lugar, mas não tocou na face, na mão e nos pés.

O então Administrador Apostólico, Dom Raul Gonçalves, em declarações à imprensa, afirmou que "já não se pode falar presentemente de um corpo incorrupto, mas somente de sagradas relíquias de São Francisco Xavier". (5).

Hoje os traços faciais do Santo desapareceram quase completamente. A mão esquerda está mumificada, e os pés que andaram milhares de quilômetros, movidos pela sede de almas do Apóstolo, estão ressecados, mas visíveis. Falou-se em sepultar as santas relíquias.

Entretanto, "o Patriarca, dando as boas vindas aos convidados, que vieram para a abertura da Exposição, reafirmou que o corpo permaneceria, e que não se punha o problema de ser enterrado ou não, mas sim exposto à veneração pública" (5).

Esta XV Exposição solene pode ter sido a última. Na recepção que ofereceu ao Cardeal Dom Simon Pimenta, o Arcebispo Patriarca das Índias afirmou que de fato o Episcopado está considerando seriamente a possibilidade de dar à exposição um caráter permanente, de modo a permitir aos peregrinos a possibilidade de venerarem as sagradas relíquias em qualquer ocasião.

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NOTA:

(*) Referência a Afonso de Albuquerque (1453-1515), um dos mais heróicos conquistadores portugueses, que recebeu do Rei de Portugal o título de Governador da Índia.

BIBLIOGRAFIA

(1) "Renovação", Panjim, Goa, n° 22, 16-30/11/94, pp. 419-20.

(2) Anne Menezes, St. Francis Xavier, Frontline Jesuit Missionary and Pa­tron o/ Goa, in "Souvenir o/ the XV Solemn Exposi­tion o/ the relics o/ St. Francis Xavier". Edition of the Committee, Old Goa, 1994, p. 23.

(3) V. Perniola, S.1., The Catholic Church in Sri Lanka - The Portuguese Periad, I Vol, 1505-1565, Tisara Prakasakayo Ltda., Dehiwala, Sri Lanka, 1989,pp.339-41.

(4) Os dados fornecidos a seguir foram coletados em: Newman Fernandes, The Body o/ St. Francis Xavier, in "Renovação", Panjim, Goa, n° 22, 16/30­11-04, pp. 422 e ss.

(5) "Herald" , 23-11-94, Ia p., The Last Exposition.

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