Dezembro de 2008
Na comemoração do centenário natalício do inspirador de Catolicismo
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Obediência ao Vigário de Cristo e resistência católica

Tiara usada pelo Bem-aventurado Pio IX
A exímia fidelidade de Plinio Corrêa de Oliveira ao Romano Pontífice nunca esmoreceu. Seu amor e sua obediência incondicional ao Papado intensificaram-se especialmente em circunstâncias difíceis, como a da política de distensão da diplomacia do Vaticano com os regimes comunistas, no Pontificado de S.S. Paulo VI, a qual causou muita perplexidade à maioria anticomunista dos católicos.

A détente do Vaticano criou um grave problema para os católicos: deviam estes cessar a luta contra o comunismo? Ou manifestarem-se em “estado de resistência” a essa orientação diplomática?

Assim, em um magistral documento escrito numa linguagem transbordante de veneração ao Papado, o fundador da TFP brasileira explicita sua perplexidade face à Ostpolitik vaticana. Ao mesmo tempo, ele externa sua irrestrita obediência à Santa Sé, nos termos preceituados pelo Direito Canônico. Primeiramente publicado na “Folha de S. Paulo” em 10 de abril de 1974, o documento-manifesto intitula-se A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas – Para a TFP: omitir-se ou resistir?(5)

A reverente “declaração de resistência” foi então assumida pela TFP brasileira, e depois pelas TFPs e entidades afins existentes então nas Américas e na Europa. Eis um trecho do histórico documento em que o autor responde à objeção que se poderia fazer aos católicos anticomunistas: por que não agem de acordo com a diplomacia de distensão do Vaticano com os governos comunistas?

“Tal pergunta traz como conseqüência, para todos os católicos anticomunistas, uma alternativa: cessar a luta, ou explicar a sua posição.

Cessar a luta não podemos. E é por imperativo da nossa consciência de católicos que não o podemos. Pois se é dever de qualquer católico promover o bem e combater o mal, a nossa consciência impõe-nos que difundamos a doutrina tradicional da Igreja e combatamos a doutrina comunista [...].

Sentir-nos-íamos mais agrilhoados na Igreja do que o era Soljenitsin na Rússia soviética, se não pudéssemos agir em consonância com os documentos dos grandes Pontífices que ilustraram a Cristandade com sua doutrina.

A Igreja não é, a Igreja nunca foi, a Igreja jamais será tal cárcere para as consciências. O vínculo da obediência ao sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo da nossa alma, ao qual tributamos o melhor do nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de Sua Santidade o Papa Paulo VI, manifestamos-lhe toda a nossa fidelidade.

Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é vossa, nossa vida é vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.

Sim, Santo Padre, São Pedro nos ensina que é necessário obedecer a Deus antes que aos homens (At. V, 29). Sois assistido pelo Espírito Santo e até confortado — nas condições definidas pelo Vaticano I — pelo privilégio da infalibilidade. O que não impede que, em certas matérias ou circunstâncias, a fraqueza a que estão sujeitos todos os homens possa influenciar e até determinar vossa atuação. Uma dessas é — talvez por excelência — a diplomacia. E aqui se situa a vossa política de distensão com os governos comunistas.

Aí o que fazer? As laudas da presente declaração seriam insuficientes para conter o elenco de todos os Padres da Igreja, Doutores, moralistas e canonistas — muitos deles elevados à honra dos altares — que afirmam a legitimidade da resistência. Uma resistência que não é separação, não é revolta, não é acrimônia, não é irreverência. Pelo contrário, é fidelidade, é união, é amor, é submissão.

Resistência é a palavra que escolhemos de propósito, pois ela é empregada nos Atos dos Apóstolos pelo próprio Espírito Santo, para caracterizar a atitude de São Paulo. Tendo o primeiro Papa, São Pedro, tomado medidas disciplinares referentes à permanência no culto católico de práticas remanescentes da antiga Sinagoga, São Paulo viu nisto um grave fator de confusão doutrinária e de prejuízo para os fiéis. Levantou-se então e ‘resistiu em face’ a São Pedro (Gal. II, 11). Este não viu, no lance fogoso e inesperado do Apóstolo das Gentes, um ato de rebeldia, mas de união e amor fraterno. E, sabendo bem no que era infalível e no que não era, cedeu ante os argumentos de São Paulo. Os Santos são modelos dos católicos. No sentido em que São Paulo resistiu, nosso estado é de resistência.

E nisto encontra paz nossa consciência.

Resistir significa que aconselharemos os católicos a que continuem a lutar contra a doutrina comunista com todos os recursos lícitos, em defesa da Pátria e da Civilização Cristã ameaçadas.

Resistir significa que jamais empregaremos os recursos indignos da contestação, e menos ainda tomaremos atitudes que em qualquer ponto discrepem da veneração e da obediência que se deve ao Sumo Pontífice, nos termos do Direito Canônico”.

Com redobrado amor e dedicação ao monarca da Santa Igreja

Decorridos poucos dias do lançamento do manifesto acima, em artigo publicado na “Folha de S. Paulo” de 21-4-74, o Prof. Plinio escreve:

“Nesse ato de resistência à política de Paulo VI não há outras componentes psicológicas senão o amor, a fidelidade e a dedicação. Dado que o Papa é o monarca da Santa Igreja, meu gesto importa em defender o reino em benefício do Rei, ainda quando, para tanto, deva incorrer no desagrado deste. Mais longe, segundo me parece, não é dado ao homem levar sua dedicação”.

Com filial e irrestrita submissão ao Papado, Plinio Corrêa de Oliveira conduziu toda sua vida dedicada à exaltação da Santa Igreja e em sua defesa contra os erros do progressismo que se infiltraram nos meios católicos, como aqueles veiculados pela Teologia da Libertação. Nessa situação de dolorosa crise, ele aconselha os leitores de Catolicismo em artigo para a edição de julho/92:

“Assim como um filho sente redobrar seu amor e sua veneração quando vê sua própria mãe atirada ao infortúnio e opressa pela derrota, assim é com redobrado amor, com veneração inexprimível que me refiro aqui à Santa Igreja de Deus, nossa Mãe. Precisamente neste momento histórico em que a Ela caberia refazer, à eterna luz do Evangelho, um novo mundo, vejo-A entregue a um doloroso e deprimente processo de ‘autodemolição’, e sinto dentro dela a ‘fumaça de Satanás’, que penetrou por infames fissuras (cfr. Paulo VI, Alocuções de 7-12-68 e 29-6-72).

Para onde voltar então as esperanças do leitor?

Para o próprio Deus, que jamais abandonará sua Igreja santa e imortal, e que por meio d’Ela fará nos dias longínquos ou próximos — cujo advento sua Misericórdia e sua Justiça marcaram, mas permanecem misteriosos para nós — o esplêndido renascimento da Civilização Cristã, o Reino de Cristo pelo Reino de Maria”.

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