Dezembro de 2008
A Bienal do vazio, ou o vazio da Bienal
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Bienal

A Bienal do vazio, ou o vazio da Bienal

A “arte contemporânea” em crise terminal:
não atrai, nem desperta paixões

R. Mansur Guérios

Artista: João Modé – Sem Título
Visitar a Bienal de São Paulo, em sua 28ª edição, não é distensivo. A “arte contemporânea”, vanguardeira do mundo das artes, está em crise. Constatação que, aliás, se pode fazer para a maioria das manifestações culturais.

Feita para ser “vanguarda”, abrigo de novas tendências, exemplo de ruptura com o passado, a obra que nela provocou mais manifestações, críticas e protestos foi um andar vazio, por carente de algo expressivo para ocupar tal espaço. Suscitou comentários virulentos na imprensa diária: “Se a intenção da curadoria da 28ª Bienal de São Paulo era dar visibilidade à crise do modelo das bienais, o resultado foi plenamente alcançado. O vazio do segundo andar, que representaria a tal crise, recebeu muito mais elogios de artistas e curadores do que a mostra de arte apresentada no terceiro andar, marcada pelo tom conceitual” (“Folha de S. Paulo”, 28-10-08).

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Indignados com tal desperdício de espaço, pichadores invadiram e executaram suas “artes” no monótono e vulgar espaço vazio do pavilhão de exposições. Compreensível, pois quase não há um metro quadrado na megalópolis paulistana sem suas marcas — as “griffes” das “tribos” de “artistas pichadores”.

“Fossem outros os tempos, [o andar vazio] teria suscitado acusações para todo lado, brigas de foice e a leitura de manifesto em praça pública. A arte contemporânea já não produz mais paixões descabeladas” (Barbara Gancia, “Folha de S. Paulo”, 31-10-08).

Monitores, telas, telinhas e telões em profusão, com projeções sobre seus autores, tudo foi feito para atrair admiradores. Mas filas e afluxo de interessados, só havia no “tobogã” deslizante do 3º andar até o térreo (foto ao lado).

A incapacidade de atrair, de arrastar, visando indicar rumos para o mundo, ainda que desvairados, nos parece o ponto central: como “desconstruir” um mundo que já se apresenta “desconstruído”, que aceita e admira, por exemplo, corpos tatuados, crivados de metais, como os de selvagens de tribos primitivas?

Há muitos descontentes com os rumos dessas manifestações artísticas. Não há infelizmente indignação, salvo honrosas exceções.

Em suma, a 28ª edição da Bienal corresponde bem ao sinistro e derradeiro degrau a que chegou a pseudo-arte, dita “contemporânea”, reflexo do vazio de alma de homens que rejeitaram o verdadeiro Deus e se chafurdaram no neopaganismo de nossos dias.

 

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