Dezembro de 2008
Como vejo Plinio Corrêa de Oliveira
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
A Palavra do Sacerdote


Como vejo Plinio Corrêa de Oliveira

Leigo dotado de carisma profético para estabelecer os fundamentos de uma sociedade temporal inteiramente católica. Preito de homenagem que, a justo título, presto a esse insigne líder católico em seu centenário natalício.

Monsenhor José Luiz Villac

Há na sociedade humana duas esferas de realidades: a esfera espiritual, habitualmente entendida como aquela em que o homem se relaciona diretamente com o seu destino eterno; e a esfera temporal, que diz respeito aos assuntos desta Terra, na qual compete ao homem viver durante um certo tempo, antes de ser chamado a comparecer diante de Deus para receber o prêmio ou o castigo de suas obras.

A esfera espiritual e a esfera temporal correspondem, de algum modo, aos dois elementos de que o homem é composto: alma e corpo, espírito e matéria. E como a alma é unida ao corpo, deve haver uma união entre a esfera temporal e a esfera espiritual para não dilacerar o homem, que é um composto único.

Plena autonomia, perfeita harmonia

Tenha-se presente, porém, que a atividade espiritual do homem abrange também aspectos que se situam na esfera temporal: intelectuais, afetivos, culturais, artísticos, científicos etc. De modo que a expressão esfera espiritual, enquanto aplicada exclusivamente aos aspectos sobrenaturais da vida do homem, é uma simplificação de linguagem. É uma forma legítima de falar, desde que não se confundam os dois sentidos da palavra espiritual: a) o caráter meramente natural da alma humana, dotada de inteligência, vontade e sensibilidade; b) sua elevação ao estado sobrenatural pelo dom da fé, recebida pelo sacramento do Batismo.

Assim, enquanto reunidos para alcançar sua finalidade sobrenatural, os homens constituem a sociedade espiritual, isto é, a Igreja, governada por um poder eclesiástico (Igreja vem do latim Ecclesia); e, enquanto reunidos para tratar dos fins terrenos, os homens constituem a sociedade temporal, ou sociedade civil, governada por um poder civil, que hoje costuma se chamar Estado.

Ora, é evidente que os fins terrenos do homem, que são transitórios, não devem opor-se à sua finalidade sobrenatural, que é eterna. Pois isso significaria que a sociedade civil dirige o homem a um fim contrário ao que Deus o destina. E posto que o destino sobrenatural do ser humano é o que mais importa, as atividades terrenas devem ser conduzidas de forma tal que ajudem o homem a alcançá-lo. De onde se segue que o poder civil, ou Estado –– em vez de empreender um rumo paralelo e independente da Igreja, e muito menos discrepante — deve pôr-se a serviço desta, no que concerne a ajudar o homem a alcançar o seu fim sobrenatural.

Assim procedendo, a sociedade temporal se reveste de um caráter sacral, porque se associa ao que o homem tem de mais elevado, que é a busca da união com Deus nesta Terra, para unir-se a Ele por toda a eternidade no Céu.

Fica claro, portanto, que o Estado deve ter um caráter ministerial em relação à Igreja. E isto, longe de o diminuir, sacraliza-o e eleva-o.

Este caráter ministerial do Estado, em ordem à salvação eterna das almas, em nada lhe retira a plena autonomia no plano estritamente temporal, no qual não cabe à Igreja interferir, a não ser em matéria de pecado (ratione peccati), quer dizer, quando alguma determinação do Estado colide com a Lei natural, consubstanciada nos Dez Mandamentos da Lei de Deus, ou com a Lei eterna ou divina, que rege toda a natureza criada.

De tais princípios, genuinamente católicos, estavam imbuídos os homens nos felizes tempos em que, como dizia Leão XIII, “a filosofia do Evangelho governava os Estados” (encíclica Immortale Dei). “Nessa época — continua o Pontífice — a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer”.

Porém, tendo estas noções se esmaecido e, por fim, quase desaparecido da mente dos homens, a Providência, sempre benigna, nos enviou um homem como Plinio Corrêa de Oliveira para no-las recordar. Máxime nestes tempos de um secularismo agressivo e determinado a eliminar até os últimos vestígios de Civilização Cristã.

Centenário: homenagem necessária

Mons. José Luiz Villac e Plinio Corrêa de Oliveira
Pareceu-me, pois, que neste mês de dezembro de 2008, em que ocorre o centenário do nascimento desse grande leigo católico, tem todo o propósito deixar de lado a matéria habitual desta seção para homenageá-lo, recordando o que, a meu ver, sua pregação teve de mais característico e, em certo sentido, mais original.

Com efeito, sua atuação revela, segundo me parece, a missão profética de estabelecer os fundamentos de uma civilização inteiramente católica que, de acordo com as profecias de Fátima, erguer-se-á sobre os escombros da civilização laica, neopagã e atéia de nossos dias. Isto é, uma “civilização cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, antiigualitária e antiliberal”, como ele escreveu em sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução (Parte II, cap. II, 1).

Ele retraçou os lineamentos dessa civilização em outra obra, inacabada, à qual deu o título provisório de Notas sobre a conceituação de Cristandade — Caráter espiritual e sacral da sociedade temporal e sua ministerialidade, divulgada postumamente por Catolicismo em outubro de 1998, e que, segundo estou informado, constará de uma publicação que neste mesmo mês de dezembro será lançada em sua homenagem.

Esse caráter profético que atribuo à sua atuação corresponde a um conceito hoje corrente nos ambientes teológicos, e mesmo leigos, embora nem sempre aplicado de forma justa (basta pensar no seu uso para designar os profetas da Revolução!).

Porém, autores categorizados mostram a perfeita congruência desse conceito com o ensino tradicional da Igreja, como expõe com muita clareza o Cardeal Charles Journet:

O conhecimento profético não se extinguirá na Igreja. — A Igreja […] é também esclarecida sobre o estado do mundo e o movimento dos espíritos. Os mais lúcidos de seus filhos participarão desta sua miraculosa penetração. Eles saberão discernir, à luz divina, os sentimentos profundos de sua época, saberão diagnosticar os verdadeiros males e prescrever os verdadeiros remédios. […] Com um instinto sobrenatural e infalível, irão direto ao alvo. O recuo dos séculos manifestará a justeza de sua visão. Santo Atanásio ou São Cirilo, Santo Agostinho ou São Bento, Gregório VII, Francisco de Assis, Domingos, viam numa espécie de clarão profético a marcha dos tempos e a orientação que era preciso dar às almas. O autor da Cidade de Deus, o contemplativo que fundou, há 800 anos, a regra sempre viva dos cartuxos, Santo Tomás, que elucidou, três séculos antes da Reforma, as verdades que iam ser mais contestadas no limiar dos tempos novos, Joana d’Arc, Teresa de Ávila, eis os verdadeiros profetas da Igreja. Eram ao mesmo tempo santos, e é verdade que a profecia é distinta e mesmo separável da santidade. Mas, quando autêntica, se encaixa sempre no sulco da revelação apostólica […]. ‘Em nenhuma época — diz Santo Tomás — faltaram homens dotados do espírito de profecia, não certamente para trazer qualquer nova doutrina da Fé, ad novam doctrinam fidei depromendam, mas para dirigir os atos humanos, ad humanorum actuum directionem’ (II-IIae, q. 174, a. 6 ad 3)” (L’Église du Verbe Incarné, Desclée de Brouwer, Paris, 1962, 3ª ed., vol. I, pp. 173-175 — destaques em negrito nossos).

Não tenho receio de afirmar que “o recuo dos séculos” reconhecerá –– e tal reconhecimento já vai se difundindo –– que Plinio Corrêa de Oliveira foi um profeta do Reino de Maria, traçando os lineamentos de uma sociedade temporal plenamente conforme aos princípios da Santa Igreja, segundo Nossa Senhora anunciou em Fátima, 91 anos atrás.

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão