Dezembro de 2008
O jogo mudou
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Nacional

O jogo mudou

Nas recentes eleições municipais, derrotas marcantes do PT desmentiram pesquisas sobre a popularidade presidencial e desfizeram o clima sócio-político de suposta hegemonia inconteste do lulo-petismo

Plinio Vidigal Xavier da Silveira

O jogo que era armado antes da eleição virou de ponta-cabeça e recomeça em outras bases”. Este comentário de Raymundo Costa, no jornal “Valor”, sintetiza bem o panorama político que se desenhou no País após o segundo turno das eleições municipais. “Nada se passou de acordo com as regras preestabelecidas, o inesperado continua a produzir surpresas todos os dias”, comentou a analista política Dora Kramer (“O Estado de S. Paulo”, 21-10-08).

As eleições deveriam revestir-se de um caráter plebiscitário, que consagrasse a tão proclamada popularidade do presidente Lula e de seu governo. Lula se consolidaria como o único político na cena nacional com peso para indicar um nome viável à sucessão presidencial. Partidos e figuras da oposição sairiam enfraquecidos e minguados da disputa, com dificuldade de ser alternativa ao lulo-petismo.

Entretanto, “os grandes perdedores das eleições municipais foram o presidente e o projeto político do PT”, como bem afirmou Marco Antonio Villa, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo” (28-10-08). “As pesquisas sobre popularidade registram um apoio político maior do que o existente na realidade”, acrescentou.

Um breve retrospecto ajudará a compreender o alcance dessa derrota.

Pesquisas alimentam “popularidade”

Pesquisas de opinião, cada vez mais desconcertantes, há meses alimentavam a idéia de uma popularidade avassaladora de Lula e de seu governo. Os índices de aprovação atingiam 80%. Proclamava-se que até antigos redutos (sociais e geográficos) de resistência e oposição ao presidente tinham cedido. Falou-se até de Lula como o líder político de maior prestígio no mundo.

Aceitos como incontestes e comentados à exaustão pela mídia, tais dados transmitiam a idéia de que seria inútil e sem futuro qualquer oposição ao presidente. A própria oposição confessava-se desorientada e parecia não encontrar seu discurso.

Petróleo: combustível da máquina de propaganda

Muitos falavam do momento “mágico” da economia, e os brasileiros eram bombardeados concomitantemente com notícias de achados fabulosos de petróleo.

Verdadeiras obras-primas de ficção e propaganda política foram montadas em cima dos resultados futuros da exploração do pré-sal. Lula, Com as mãos sujas de óleo, imitando Getúlio Vargas, parecia oferecer uma prosperidade sem limites ao País. O “companheiro” Chávez saudou o presidente como magnata do petróleo. Lula aparecia como um predestinado!

Hegemonia endossada pela mídia

A bem dizer, vivia-se um clima psico-político de hegemonia, endossado por grande parte da mídia, e que as urnas deveriam consagrar de modo devastador. Anunciava-se a “onda vermelha”, e o lulo-petismo se imporia “democraticamente” ao País.

Muitos asseveravam que, devido à fraqueza dos partidos e ao caráter personalista da política no Brasil, Lula facilmente transmitiria sua popularidade aos apadrinhados.

Candidata símbolo do lulo-petismo

A candidata Marta Suplicy
É fácil compreender que São Paulo, pelo seu peso político e pela propaganda em torno de Marta Suplicy, era peça-chave na estratégia governista. Por tal motivo, o presidente decidiu envolver-se na disputa.

De acordo com a lógica simplista do lulo-petismo, o prestígio presidencial elegeria Marta, que ficaria assim apta a ser designada por Lula candidata à presidência; e o imenso potencial de votos do presidente faria sua sucessora em 2010.

A disputa eleitoral em São Paulo tornou-se, pois, uma parábola para o Brasil. É esta parábola que passo a analisar.



Desarticulação ante o governismo triunfante

Marta Suplicy, desde o início da campanha eleitoral, liderava com vantagem folgada, de acordo com as pesquisas. Na oposição, duas candidaturas se digladiavam, sem rumo e com profundo descrédito, o que era de molde a gerar desconcerto e desânimo na faixa de público que não aderia ao lulo-petismo.

As intenções de voto de Marta cresciam, falava-se até em vitória já no primeiro turno, e o presidente convocava a militância para "liquidar a fatura" logo. Pairava a sensação da inoperância de todas as forças políticas perante o governismo triunfante.

Esta era a parábola que, em São Paulo, tanto a atitude do governo quanto a da oposição constituíam para o País.

Surpresa das urnas

Marta Suplicy manteve a dianteira, segundo as pesquisas... até na

boca-de-urna. Aí uma surpresa: Gilberto Kassab venceu o primeiro turno.

Não seriam igualmente falhas as pesquisas da popularidade do presidente? O fato é que as urnas desmentiram a tão proclamada popularidade presidencial, o fragoroso desmentido das pesquisas atingia também Lula. E não apenas em São Paulo!

Diante de resultados bem desfavoráveis em todo o País, tornara-se essencial virar o jogo em São Paulo no segundo turno, pois uma vitória de Marta ainda podia dar fôlego ao lulo-petismo.

Sai de cena o lema "paz e amor"

O presidente jogou todas as cartas. Designou seu secretário particular, Gilberto Carvalho, para coordenar a campanha de Marta Suplicy para o segundo turno. Dez ministros desembarcaram em São Paulo para subir no palanque com a candidata. Nos discursos transpareceu todo o rancor autoritário do lulo-petismo. Ataques à chamada “elite”, aos “tabus” conservadores, e até a acusação de que crer na vitória contra o PT era um “descompromisso com a democracia”!

A campanha da petista lançou insinuações a respeito da vida particular de Kassab. Diante da repercussão negativa da manobra, Marta encenou a farsa do "eu não sabia".

O lulo-petismo e seu braço sindical tentaram manipular uma manifestação de policiais civis em greve, instigando um confronto armado com a Polícia Militar, fato que assombrou o País.

Em desespero, o lulo-petismo articulou o apoio explícito de sua verdadeira força inspiradora: a esquerda católica. Em uma manobra coordenada pelo secretário particular do presidente — o ex-seminarista Gilberto Carvalho — e pelo bispo Dom Pedro Luiz Stringhini, mais de 100 padres assinaram um documento para ser lido nas paróquias da capital paulista, em apoio explícito a Marta Suplicy. A indignação nos meios católicos foi de tal monta, que o bispo-auxiliar de São Paulo teve de recuar e pedir desculpas públicas.

Envergando uma camisa vermelha, ao estilo “chavista” e com discurso agressivo e populista, o presidente Lula encerrou a campanha ao lado de Marta Suplicy.

Os resultados do segundo turno são conhecidos de todos. A exposição do lado agressivo e esquerdista da candidata petista fez aumentar o repúdio do eleitorado, tornando a derrota massacrante.

A disputa em São Paulo tornou-se verdadeiramente uma parábola, porém num sentido bem diverso do desejado: a derrota do lulo-petismo em grande parte do País.

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