Dezembro de 2008
Obamania messiânica
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Internacional

Obamania messiânica

A esquerda e muitos órgãos da mídia se apressaram em interpretar a vitória de Barack Obama como mudança no panorama ideológico dos Estados Unidos. Os fatos desmentem.

José Carlos Sepúlveda da Fonseca

Obama recebeu 45% de cobertura positiva da mídia, enquanto John McCain, apenas 6%
Foi grande o interesse despertado pela recente eleição presidencial norte-americana. Os órgãos de comunicação social lhe deram enorme destaque, e em sua grande maioria revelaram estranha parcialidade.

Diogo Mainardi, na revista “Veja”, ressaltou o fato de, nas primeiras páginas dos jornais americanos, Barack Obama ter recebido 45% de cobertura positiva, enquanto John McCain, apenas 6% (cfr. O brasileiro Obama, 5-11-08).








Misterioso sopro de simpatia desprevenida

Logo após a vitória do senador democrata, um misterioso sopro de simpatia –– com grande força de contágio, desprevenido, carregado de esperanças vagas, mas eletrizantes — se espalhou pelo mundo.

Muitos que nem sequer conheciam Obama, ainda menos suas propostas de governo, o saudaram como uma promessa para os Estados Unidos e o mundo.

Falou-se de obamania universal. Obamania que bordejou o delírio, quando o presidente eleito foi qualificado de “messias”.

A irracionalidade desse fenômeno foi atestada num artigo — elogioso! — de João Mellão Neto: “Ninguém tem como dizer qual é o seu plano de governo. [...] Sua pregação, imprecisa e atraente, na sua boca, é irresistível. Seu apelo –– místico e messiânico na dose exata –– se multiplica ainda mais na medida em que se recusa a explicitá-lo. [...] No imaginário popular é um messias providencial que vai empreender as mudanças que se fazem necessárias” (O resgate moral da América, “O Estado de S. Paulo”, 7-11-08).

Mudanças de superfície

Uma análise extensa e aprofundada da eleição comportaria variadíssimos aspectos. Cingimo-nos, de momento, a um dos pontos nevrálgicos do quadro político que emergiu da recente disputa.

A esquerda — dos mais diversos matizes — saudou eufórica a vitória de Obama, apontando-a como inequívoca mudança do quadro ideológico dos Estados Unidos. Terá tal interpretação base na realidade, ou será ela simplista e apressada?

A guinada do eleitorado americano, que permitiu a vitória de Obama, se deu, segundo inúmeros analistas, com o desencadear da crise financeira. Só então as pesquisas passaram a dar vantagem segura ao candidato democrata. O abalo econômico e a incerteza profunda, aliados a um desgaste político natural e a uma propensão à mudança, causaram um deslocamento decisivo de parte do eleitorado de centro.

Os 66.882.230 votos de Barack Obama (53%) e os 58.343.671 votos de John McCain (46%) são sintomáticos de um eleitorado cindido em dois blocos de proporções semelhantes.

Mentalidade conservadora

Desde há bom tempo a sociedade norte-americana vem sendo qualificada de atrasada, e as posições político-ideológico-religiosas, de boa parte dela, consideradas retrógradas: posturas morais antiliberais, como a oposição ao casamento homossexual, ao aborto ou às pesquisas com células-tronco embrionárias; recusa das teorias evolucionistas de Darwin e reafirmação dos princípios criacionistas bíblicos; defesa de posições sócio-econômicas em prol da propriedade privada e recusa da carga tributária confiscatória; firme defesa da liberdade de porte de armas pelas pessoas de bem; apoio a posições firmes e até a reações bélicas, quando justificáveis, na política internacional; atitude refratária ante a chantagem dos alarmistas da mudança climática e do ecoterrorismo –– são algumas das facetas da mentalidade conservadora, abraçada inclusive por número bem ponderável de jovens, que causam profundo incômodo nos meios liberais dos mais diversos matizes.

Fácil é compreender que inúmeros órgãos de comunicação social, juntamente com arautos das hostes esquerdistas, se tenham apressado em transmitir a impressão de que a eleição de Obama constituiria uma recusa clara e maciça dessa mentalidade — maliciosamente apodada de “fundamentalista” — e uma guinada no rumo oposto.

Mas os fatos não confirmam essa análise.

A derrota do “casamento” homossexual

A recusa do “casamento” homossexual na Califórnia, Flórida e Arizona confirma que, “malgrado a vitória de Barack Obama e de suas posições reformistas, boa parte dos
Como é hábito nos Estados Unidos, as eleições são acompanhadas de inúmeros plebiscitos ou referendos.

Na recente eleição, ganharam destaque três consultas populares – nos estados da Califórnia, Flórida e Arizona — para aprovar ou recusar emenda constitucional que proibisse os mal denominados “casamentos” homossexuais.

Contra todas as previsões, a Califórnia, considerado o mais liberal dos 50 estados norte-americanos, rechaçou o “casamento” homossexual. Nos outros dois estados o resultado foi semelhante.

A recusa do “casamento” homossexual nos três estados, segundo a análise do destacado jornal italiano “La Repubblica”, confirma que, “malgrado a vitória de Barack Obama e de suas posições reformistas, boa parte dos Estados Unidos permanece ancorada nos valores conservadores” (6-11-08).

Os resultados da Califórnia falam por si: Obama venceu com 61% dos votos; entretanto, o “casamento” homossexual foi derrotado por 52% dos eleitores. Muitos dos eleitores de Obama, portanto, rechaçaram o “casamento” homossexual. Até nesse estado, o mais liberal, a vitória de Obama não teve o significado de uma maciça guinada à esquerda.

A constatação de tal realidade levou o jornal “O Globo” a comentar: “A frase mais famosa de Barack Obama após a sua vitória nas urnas –a mudança chegou’ – contrasta com o resultado de um referendo, praticamente paralelo à eleição que consagrou o democrata” (Vitória de democrata não afasta conservadores, 7-11-08).

Duas análises significativas

Obamania também na França...

Cabe ainda mencionar, de passagem, duas análises significativas a respeito do resultado eleitoral.

No conhecido “Wall Street Journal”, o ex-conselheiro de Bill Clinton, Lanny J. Davis, afirmou: “A vitória expressiva de Obama não pode ser pintada com nitidez como um outro ciclo, desta vez da direita para a esquerda”. Segundo ele, Obama se mostrou pouco liberal e assumiu posições até conservadoras: “Como qualificar essa mistura ideológica de Obama? Uma caracterização possível: uma nova maioria de centro”.

Com Obama, os Estados Unidos não viraram à esquerda –– foi o título da análise apresentada pelo diretor-adjunto do importante jornal francês “Le Figaro”, Pierre Rousselin. Destaca ele: “As sondagens efetuadas à saída das urnas mostram que os eleitores americanos se consideram 22% de esquerda, 44% moderados e 34% conservadores. Quatro anos antes [quando da reeleição de George Bush] o resultado de uma pesquisa dava um resultado muito similar: respectivamente 21%, 45% e 34%. A crer neste resultado, a paisagem ideológica dos Estados Unidos permanece a de um país muito majoritariamente de centro-direita. [...] Os resultados das diversas consultas referendárias que acompanharam as eleições mostram que a sociedade americana permanece muito conservadora”.

Dilemas do anti-americanismo

Poucos dias antes das eleições, o Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança publicou no jornal “Folha de S. Paulo” artigo em que analisava precisamente esse dilema. E se perguntava se a vitória de Obama teria a capacidade de alterar a realidade profunda da opinião pública norte-americana.(*)

___________

Nota:

(*) O artigo de Dom Bertrand, publicado na “Folha de S. Paulo” de 31-10-08, permanece de candente importância e atualidade, motivo pelo qual Catolicismo o colocou à disposição dos leitores no site www.catolicismo.com.br  (vide abaixo)

 

 

Dilemas do antiamericanismo

Bertrand de Orleans e Bragança (*)

De partida para os Estados Unidos, onde proferirei palestra no encontro nacional de “supporters” da TFP norte-americana, decidi debruçar-me sobre o fenômeno do antiamericanismo.

Na minha juventude, os Estados Unidos espargiam pelo mundo um intenso fascínio. A americanização estampava-se nos modos de ser, vestir e se comportar de muitos de meus contemporâneos.

A nação norte-americana era portadora de uma modernidade que arredava a tradição considerada “démodé”.

Uma atmosfera de otimismo e despreocupação inconseqüentes, de progresso risonho, envolvia seu povo e conquistava o mundo.

Hollywood tornara-se foco desse modo de ser felizardo, auto-suficiente, um tanto vulgar e igualitário e moralmente tolerante.

Vieram as batalhas culturais dos anos 60 e 70, que culminaram simbolicamente com a derrota no Vietnã.

Tal derrota, sofrida mais no campo interno do que na frente de batalha, fruto da propaganda e da mentalidade libertária e pacifista, causou um abalo na estrutura psicológica do norte-americano e assinalou uma inflexão decisiva na sua história.

Tais inflexões não se dão de chofre nem têm como determinante um único fato. Elas germinam, estendem suas raízes, desabrocham e se consolidam ao longo de anos, às vezes, décadas. Mas determinados acontecimentos têm o condão de cristalizá-las.

Derrotado, o americano médio se encontrou diante do infortúnio, o qual traz muitas vezes consigo a reflexão saneadora e salvífica.

Enquanto nas profundidades da mentalidade americana se operava uma rotação fundamental, permanecia, em larga escala, a propensão ao gozo da vida, à displicência, ao comodismo, que se traduzia, ante a ameaça da hecatombe nuclear que assombrava o clima propagandístico da Guerra Fria, no slogan capitulacionista: "Melhor vermelho do que morto".

O espírito derrotista levou norte-americanos a queimar sua própria bandeira, num sinal público de menosprezo e hostilidade em relação aos valores que constituem o fundamento da nação.

Mas a metamorfose que se gestava nas profundidades foi emergindo com força incoercível, consolidando, segundo me parece, uma das transformações psicopolítico-sociais de maior vulto na história contemporânea. Em amplos e importantes setores da nação norte-americana brotou um conservantismo político, um senso de coerência, honra e pugnacidade, a par de tendências profundas, saudosas da tradição, tonificantes dos valores familiares e ávidas dos princípios perenes da civilização cristã.

Tal transformação incidiu igualmente nas escolhas da linguagem, dos trajes, das maneiras, das residências, dos objetos de utilidade ou de decoração etc.

Curioso é notar que, paralelamente a tal mudança, o antigo fascínio pelos Estados Unidos foi sendo substituído por um sentimento de acrimônia e até mesmo de hostilidade. O antiamericanismo passou a ser militante em vastos círculos dirigentes e difuso em certas camadas do público.

Os Estados Unidos, considerados outrora fonte da modernidade, passaram a ser apontados como retrógrados e obliterados, e contra eles se alimentaram parcialidades, má-vontades e intransigências.

No presente momento, um fato desconcertante irrompe em cena. Esses focos de propaganda e militância antiamericana são agitados por um verdadeiro oba-oba pró-Barack Obama: o homem da "mudança", de uma "mudança" que ninguém se abalança a definir, nem ele próprio, mas que esses círculos parecem almejar para os Estados Unidos e o mundo.

Como esse antiamericanismo rançoso se transmuta e se torna pró-americano? Dou-me conta de que ele não constitui uma manifestação simplista de nacionalismo ou de antiimperialismo, mas traz involucrada profunda animadversão ideológica. Volta-se contra um certo tipo de EUA.

Revela um mal-estar ante o fato de parte muito considerável e dinâmica da sociedade americana (com forte pujança entre os jovens) ter aderido a tendências, ideais e princípios conservadores, no sentido mais amplo do termo.

A torcida pelo candidato democrata é, para mim, sintoma do desejo desenfreado de certas máquinas político-propagandísticas de inverter essa conjuntura.

A eventual vitória de Obama será o fruto de uma gigantesca operação de propaganda, à qual não faltaram ingredientes variados, até turbulência financeira. Mas terá ela a capacidade de alterar a realidade profunda da opinião pública norte-americana?

*       *       *

____________

(*) Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, é trineto  de Dom Pedro II.

(Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 31-10-2008).

 

 

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