Dezembro de 2008
Carta aberta ao Papa condena diálogo com Islã
Discernindo, comentando, agindo

Carta aberta ao Papa condena diálogo com Islã

O diálogo inter-religioso, levado a cabo por altos prelados, é posto em causa, especialmente no que concerne ao Islamismo, em carta aberta de um católico ao Papa Bento XVI. A mídia brasileira não noticiou o fato que, entretanto, tem ecoado na Europa e nos Estados Unidos.

Cid Alencastro

Carta de Magdi Allam ao Papa
O conceituado jornalista católico Magdi Cristiano Allam, convertido do islamismo, é vice-diretor do “Corriere della Sera”, um dos mais importantes jornais da Europa. Publicou uma “carta aberta ao Papa” a respeito do modo como vem se desenvolvendo o diálogo católico-islâmico, documento que tem repercutido em países europeus e também nos Estados Unidos.

No Brasil, ao que nos conste, tal carta não está sendo noticiada, em parte porque o diálogo com os muçulmanos não é um problema entre nós, uma vez que eles aqui representam minoria pouco significativa. Ao contrário da Europa, onde o tema é muito vivo, pois há milhões de muçulmanos que não se integram na vida social e constituem por isso uma espécie de tumefação social; e os poucos que se convertem ao Cristianismo sofrem todo tipo de ameaças.

Nossa revista tem sido sempre muito reservada (tanto do ponto de vista teológico como prático) em pronunciar-se sobre o diálogo de católicos com outras religiões, a fortiori com o Islã. Mas, posta a carta aberta de Magdi Cristiano Allam, Catolicismo subscreve as críticas aí feitas a tal diálogo e o pedido que o conceituado jornalista faz a Bento XVI.

A extensão da missiva obriga-nos a transcrever apenas trechos. Ela pode ser lida na íntegra, em italiano, em: http://www.magdiallam.it:80/node/7467. Passamos a palavra a Magdi Cristiano Allam. Só os intertítulos são da redação.

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Carta aberta ao Papa: “A Igreja pode legitimar o Islã como religião e considerar Maomé um profeta?”

Apelo ao Santo Padre a fim de que se esclareça o desvio relativista e islamicamente correto que levou altos prelados católicos a legitimar o Islã como religião e a transformar as igrejas e casas paroquiais em salas de oração e de reunião dos extremistas islâmicos.

A Sua Santidade o Papa Bento XVI

Dirijo-me diretamente a Vós, Vigário de Cristo e Cabeça da Igreja Católica, com a deferência de um sincero crente na fé em Jesus e como incansável protagonista, testemunha e obreiro da Civilização Cristã, para manifestar a minha máxima preocupação pelo grave desvio religioso e ético que se infiltrou e difundiu no seio da Igreja.

A ponto de, enquanto nos vértices da Igreja alguns altos prelados, inclusive entre os vossos próximos colaboradores, sustentam aberta e publicamente a legitimidade do Islã como religião e Maomé como profeta, na base da Igreja outros sacerdotes e párocos transformam a igreja e as casas paroquiais em salas para orações e de reunião dos integristas e extremistas islâmicos, que perseguem lúcida e infatigavelmente a estratégia de conquista do território e das mentes de um Ocidente cristão.

É vital para o bem da Igreja que o Papa se pronuncie

Pois bem, Santidade, como é possível não se dar conta de que a disponibilidade ou, pior ainda, o conluio com o Islã como religião –– o qual, a despeito das aparências, põe em perigo o amor cristão para com os muçulmanos enquanto pessoas –– culmina em renegar a fé em Deus que se fez Homem e no Cristianismo, que é o testemunho de Verdade, Vida, Amor, Liberdade e Paz?

Eis por que hoje é vital para o bem comum da Igreja católica, para o interesse geral da Cristandade e da própria civilização ocidental, que Vós vos pronuncieis de modo claro e vinculante para o conjunto dos fiéis sobre o problema de fundo que está na base deste deletério desvio religioso e ético que está desacreditando a Igreja, abalando as certezas nos valores e na identidade do Ocidente cristão, arrastando ao suicídio da nossa civilização: é concebível que a Igreja legitime substancialmente o Islã como religião, levando até o ponto de considerar Maomé como um profeta?

Dois exemplos muito significativos

Santidade, limitar-me-ei a indicar dois recentes episódios dos quais fui testemunha. Quarta-feira passada, 15 de outubro de 2008, o arcebispo de Brindisi, Dom Rocco Talucci, qualificou Maomé como um profeta e substancialmente legitimou o Islã como religião enquanto expressão da aspiração do homem a elevar-se a Deus. Não é absolutamente minha intenção levantar um caso pessoal em face do arcebispo Talucci. Pois que não é um caso isolado. Quisera Deus que assim o fosse! Infelizmente é uma atitude difundida no seio da Igreja católica hodierna.

O segundo episódio concerne ao cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Repetiu a tese por ele já sustentada no passado, segundo a qual as religiões seriam de si fatores de paz, mas que causariam medo devido a alguns crentes que traíram a sua fé, quando na realidade todas as crenças seriam portadoras de uma mensagem de paz e fraternidade.

A tese do cardeal Tauran é que as religiões seriam intrinsecamente boas, e que, pois, sê-lo-ia também o Islã. Disto se seguiria que, se hoje o extremismo e o terrorismo islâmico se tornaram a principal emergência para a segurança e a estabilidade internacional, isto se deveria imputar a uma minoria “ruim” que interpretaria de modo transviado o “verdadeiro Islã”, enquanto a maioria dos muçulmanos seria “boa” no sentido de respeitosa dos direitos fundamentais e dos valores não negociáveis que estão na base da comum civilização do homem.

Jesus Cristo nada tem de comum com Alá

A realidade objetiva, digo-o com serenidade e animado por uma intenção construtiva, é exatamente o contrário do que imagina o cardeal Tauran. A verdade é que o extremismo e o terrorismo islâmico correspondem genuinamente ao “verdadeiro Islã”, que é uma coisa só com o Corão, o qual, por sua vez, é considerado uma coisa só com Alá.

Na raiz do mal não existe, pois, uma minoria de homens “ruins”, responsáveis pela degradação geral, enquanto as religiões seriam todas igualmente “boas”. A verdade é que o Cristianismo e o Islã são totalmente diferentes: o Deus que se fez Homem encarnado em Jesus, que partilhou a vida, a verdade, o amor e a liberdade com outros homens até o sacrifício da própria vida, não tem nada de comum com Alá, que se fez texto impresso no Corão; que se impõe sobre os homens de modo arbitrário; que legitimou uma ideologia e uma praxe de ódio, violência e morte visadas por Maomé e seus sequazes para difundir o Islã.

A Igreja não pode legitimar um “Islã moderado”...

“A verdade é que o extremismo e o terrorismo islâmico correspondem genuinamente ao ‘verdadeiro Islã’, que é uma coisa só com o Corão, o qual, por sua vez, é considerado uma coisa só com Alá”.
A amarga verdade é que aquela parte da Igreja doente de relativismo e de islamicamente correto corre o risco de se tornar mais islâmica do que os próprios islâmicos.

Como pode a Igreja prestar-se ao jogo de quem instrumental e ideologicamente tira do contexto, tira de seu unum, seleciona arbitrariamente o conteúdo e a mensagem corânica, com o fim de ressaltar os versetos que, extrapolados dos que o precedem e dos que o seguem, permitiriam afirmar a existência de um “Islã moderado”? Como pode a Igreja legitimar substancialmente um pseudo “Islã moderado”, acabando por dar crédito a um personagem abjeto e criminal, que não hesitou em recorrer a todos os meios, inclusive o extermínio dos que não aderiam ao Islã, para submetê-los à sua mercê?

... não pode ser cúmplice na construção de um panteão mundial das religiões

Pergunto-me se a Igreja se dá conta de que, ao não se afirmar e não se levantar como testemunha da unicidade, do absoluto, da universalidade e da eternidade da Verdade em Cristo, pode acabar por tornar-se cúmplice na construção de um panteão mundial das religiões, em que todos considerem que cada uma delas seja depositária de uma parte da verdade.

Como espantar-se depois que o Cristianismo, colocado no mesmo plano de uma miríade de fés e ideologias que dão as respostas mais disparatadas às necessidades espirituais, cesse de atrair, persuadir e conquistar a mente e os corações dos próprios cristãos, que abandonam sempre mais as igrejas; que diminuam as vocações sacerdotais; e, mais em geral, que seja excluída a dimensão religiosa da própria vida?

O Cristianismo é a única religião verdadeira

Para mim o Cristianismo não é uma religião “melhor” do que o Islã, ou uma religião “completa” com uma mensagem “perfeita e acabada” em face de um Islã, considerado como uma religião “incompleta” com uma mensagem “inacabada”. Para mim o Cristianismo é a única religião verdadeira, porque é verdadeiro Jesus, o Deus que se fez Homem e testemunhou em meio a nós homens, através das obras boas, a verdade, o fascínio, o razoável e a bondade do Cristianismo. Para mim o Islã, que reconhece um Jesus apenas humano –– que condena pois o Cristianismo como heresia porque crê na divindade de Jesus, e como idolatria porque crê no dogma da Santíssima Trindade –– é uma falsa religião, inspirada não por Deus mas pelo demônio.

Santidade Bento XVI, a Igreja, o Cristianismo e a civilização ocidental hoje estão sucumbindo, pela penetração da chaga interna do nihilismo e do relativismo de quem perdeu a própria alma, sob o influxo da guerra de conquista de natureza agressiva do extremismo e do terrorismo islâmicos, acrescidos do transviamento de um mundo que se globalizou; inspirando-se na modernidade ocidental, mas apenas na sua dimensão materialista e consumista, enquanto não acolheu inteiramente a sua dimensão espiritual e de valores.

Elogio do Papado e pedido final

Em tal contexto tão crítico e com perspectivas tão densas de trevas, Vós hoje representais um farol de Verdade e de Liberdade para todos os cristãos e para todas as pessoas de boa vontade no Ocidente e no mundo. Vós sois uma bênção do Céu, que mantém em pé a esperança no soerguimento moral e civil da Cristandade e do Ocidente. Inspiramo-nos em Vós e confiamos na vossa bênção para atuar como construtores da Civilização cristã, a fim de promover um movimento de reforma ética que realize uma Itália, uma Europa, um Ocidente e um mundo de fé e razão. Que Deus vos assista na missão que vos conferiu; e que Deus nos acompanhe no comum caminho dedicado à afirmação da Verdade, na consecução do bem comum e na realização do interesse geral da humanidade.

Magdi Cristiano Allam

 

Quem é Magdi Cristiano Allam

Nascido no Cairo (Egito) em 1952, de pais muçulmanos, Magdi Allam estudou com os padres salesianos. Emigrou em 1972 para Roma, onde se licenciou em sociologia pela Universidade La Sapienza. Trabalhou nos jornais “Il Manifesto” e “La Repubblica”, sendo atualmente vice-diretor do Corriere della Sera. Foi considerado um dos muçulmanos mais influentes da Europa, recebeu entretanto várias ameaças de morte por suas posições contrárias ao terrorismo islâmico. É autor de uma dezena de livros. Estudou longamente o Cristianismo, convenceu-se de sua veracidade e foi agraciado com o dom da fé. Em 23 de março de 2008, durante a cerimônia da vigília pascal, recebeu na Basílica de São Pedro o batismo das mãos do Papa Bento XVI, e mudou seu nome para Magdi Cristiano Allam. Após sua conversão, continuou seu grande renome.