Outubro de 2006
Nossa Senhora de Bermont
Página Mariana

Nossa Senhora de Bermont

Uma devoção mariana especial de Santa Joana d’Arc. Muitas vezes, o que torna popular uma devoção é o elo entre um santo e a imagem da Virgem preferida por ele.

Valdis Grinsteins


Já ouvi adversários da fé católica queixarem-se de que somos “triunfalistas”. Parece quererem dizer com isso que só gostamos dos esplendores, daquilo que vai bem, daquilo que vence, etc. Por um lado, nada mais normal do que admirar a grandeza do triunfo, pois nosso Deus é o eterno triunfador, e prometeu à sua Igreja que as portas do inferno não prevaleceriam contra Ela. Por outro lado, se bem que a Igreja ensine a amar a cruz, há algo de profundamente destrutivo nessa mania moderna de desejar só o mínimo, o minúsculo, o sem-brilho. É uma atitude que nada tem a ver com o amor à cruz. A cruz é gloriosa, símbolo da dor que nos leva ao Céu. Mas gostar daquilo que é miserável, com a desculpa de ser humilde, é deprimente.

Essa má tendência do miserabilismo, tipo Cuba, se reflete também em certa aversão pelas representações de Nossa Senhora que melhor indicam seu triunfo. Por exemplo, há pessoas que não gostam do lado brilhante de imagens rodeadas de jóias doadas pelos seus devotos. Como Nossa Senhora de Copacabana, na Bolívia, que ostenta numerosas esmeraldas. Outros são mais ideológicos, e não gostam de Nossa Senhora de Fátima exatamente porque promete um triunfo brilhante sobre o mal. E há ainda aqueles que nos censuram por falarmos das imagens que realizam milagres, ou das aparições da Santíssima Virgem comprovadas historicamente. São deformações de espírito, fruto lamentável de doutrinas favoráveis ao miserabilismo, infiltradas nos meios católicos há muitos anos.

Isso dito, podemos esclarecer que na Igreja Católica a devoção não se expande apenas por meio de imagens utilizadas pela Providência Divina para realizar milagres, ou imagens representativas de aparições com grande atração popular, como as de Lourdes, Guadalupe, Fátima ou Aparecida. A Igreja favorece todas as devoções marianas que levam a uma piedade sã, que aumentam nosso desejo de perfeição individual ou coletiva. Há imagens que movem multidões, outras que tocam as almas de poucas pessoas. Por que isso? São os mistérios da graça, que só um dia a Divina Sabedoria revelará. Mas toda imagem que move à piedade, mesmo que seja em favor de uma só pessoa, é digna de nossa devoção.

Se bem que o habitual seja a Igreja favorecer especialmente as devoções que mais tocam seus filhos, nem por isso deixa de promover ou reconhecer as devoções mais modestas. Como é o caso de Nossa Senhora de Bermont, na França.

Uma pastorinha para salvar um grande país

Basílica de Domremy

A história de Santa Joana d’Arc é muito conhecida. No auge da decadência da França no século XV, Deus decidiu salvar essa nação filha primogênita da Igreja. E para que ficasse muito claro que era o poder de Deus que fazia isso, e não o poder dos homens, usou como instrumento uma moça, Joana d’Arc. Ela conseguiu o que parecia impossível: coroar o rei da França na catedral de Reims, e que os ingleses fossem expulsos do país. Convinha para os planos de Deus que fosse uma jovem, não um cavaleiro, e igualmente que ela fosse uma jovem simples.

Joana era pastora em uma cidadezinha simpática, mas minúscula — Domremy. A casa onde ela nasceu está ao lado da igreja, e a basílica de Domremy — construída em fins do século XIX no local onde apareciam a ela São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida — que dista dois quilômetros de sua casa, parece enorme em relação à pequena população local.

Joana era uma típica pastora da época, com muita piedade. Costumava ir a uma pequena capela no meio duma colina, construída no século XII, onde moravam uns eremitas que administravam pequena hospedagem para os viajantes. Joana d’Arc ia todos os sábados a pé da sua casa até a capela, a uns três quilômetros, para levar velas à imagem da Virgem. Esta imagem, conhecida como Notre Dame de Bermont, tem um metro de altura e é talhada em madeira. É uma boa imagem, mas simples, não uma obra de arte. Como nas imagens clássicas da piedade popular da época, Nossa Senhora usa coroa e cetro; num braço sustenta o Menino Jesus, o qual tem uma pomba nas mãos.

Capela do século XII, onde Santa Joana d'Arc venerou a imagem

Todas as testemunhas dos processos feitos para reabilitar Santa Joana d’Arc são unânimes em afirmar que ela tinha muita devoção a Nossa Senhora representada por essa imagem. Não consta que a imagem tenha sido ocasião de algum milagre, nem sequer que alguém tenha recebido alguma graça especial diante dela. Mas ficou o elo espiritual entre Santa Joana d’Arc e sua imagem preferida. Foi graças a esse elo que a imagem começou a interessar às pessoas.

No fim do século XIX houve na França um surto de patriotismo, e os católicos do país se interessaram especialmente pelas figuras históricas importantes que a nossa Religião tinha produzido, entre as quais Santa Joana d’Arc, que tem um papel de destaque até o dia de hoje. Nessa época iniciou-se a construção da basílica de Domremy, e começaram as pessoas a ir ver a imagem diante da qual Joana d’Arc tinha rezado. Com a decadência religiosa posterior, que se acentuou nos anos 60 do século XX, a capela voltou a ser pouco freqüentada, motivo pelo qual foi decidido trasladar a imagem das colinas onde estava para a basílica de Domremy (conhecida como basílica de Bois-Chenu), onde se encontra atualmente.

Na Igreja há lugar para diversas devoções

Visitando a basílica, observei de perto a imagem. Realmente não pode ser considerada uma obra de arte, mas é uma imagem autenticamente piedosa, bem feita. Uma imagem que nos leva a outra época histórica, na qual se encontrava em perigo uma nação especialmente querida pela Divina Providência. Se a França desaparecesse como nação, o prejuízo atingiria toda a Civilização Cristã. Deus teve misericórdia dela e outorgou a Joana d’Arc sua bela vocação.

Não pude deixar de pensar nas semelhanças com os dias de hoje. Quantas nações queridas por Deus estão em perigo! E que perigos! Devemos rezar especialmente por aqueles que têm a missão de conduzir essas nações rumo à realização da sua vocação histórica, para que sejam fiéis e carreguem com constância e ufania as cruzes inerentes à sua atuação. E também devemos pedir especialmente a Nossa Senhora que, assim como uma vez Ela outorgou tão bela vocação a quem rezava diante de sua imagem, hoje também tenha pena da Civilização Cristã ameaçada e outorgue novas vocações para defender tão preciosa herança.