Maio de 2009
Venezuela afundando nas garras do socialismo
Internacional

Venezuela afundando nas garras do socialismo

Hugo Chávez está no poder há dez anos e procura estabelecer em seu país o chamado “socialismo do século XXI” — que não passa de versão requentada do comunismo, o qual vai se metamorfoseando como pode

Estevão Hernandez

 

Chávez segura foto de Ché numa manifestação em Caracas
Com uma acentuada nota de culto à personalidade, o presidente venezuelano tenta implantar aos poucos em seu país um regime semelhante ao cubano, mas batizado como “socialismo do século XXI”. O que dele se sabe até o momento é que é populista e acentuadamente estatizante. Apresenta uma visão personalista de Chávez, que procura permanecer indefinidamente no poder.

A Venezuela ainda detém a maior reserva de petróleo da América do Sul. Assim, dispondo de imensa riqueza, o governo favorece todos os partidos afins com sua ideologia de esquerda espalhados pela América Latina, numa espécie de “petro-política” ultra esquerdista, que visa arrastar nosso continente nas vias do “modelo” cubano.

Nos dez anos de governo, Chávez foi ocupando todos os poderes, transformando o Estado numa extensão de seu partido político. A separação de poderes vai desaparecendo ou simplesmente transformando-se em meio para fortalecer sua posição. Novas leis vão aos poucos instituindo a tutela do Estado sobre todas as atividades do país, desde a economia, a cultura, a família, minando gradativamente a propriedade privada e a livre iniciativa. Obviamente, esta maneira de agir vai despertando descontentamentos em amplos setores da Venezuela.

Revolução à venezuelana

Hugo Chávez persegue a oposição

Desde os primórdios do governo chavista, fala-se de um “modelo revolucionário bolivariano”, dentro de um processo revolucionário autêntico. Vamos aos fatos.

Em 1998, Chávez ganhou as eleições presidenciais com 56% dos votos válidos. No ano seguinte, convocou uma assembléia constituinte, cujo texto elaborado foi aprovado num referendo de 15 de dezembro daquele ano. Em 2000 ele submeteu seu cargo a novas eleições –– para ser legitimado, conforme previa a nova constituição — no dia 30 de julho.

A partir de 2001 começaram as marchas de protesto da população, devido à ameaça de intervenção do regime chavista na educação. O governo desejava acabar com a educação privada e colocar funcionários governamentais em todas as escolas particulares do país, iniciando um processo de estatização da educação.

Em 11 de abril de 2002, Chávez foi deposto por apenas dois dias. Em meio a protestos, setores militares recolocaram o presidente no poder. Foi um golpe muito estranho, que só prestigiou o presidente.

No dia 2 de dezembro de 2002, iniciou-se a greve do setor petrolífero, que se estendeu até março do ano seguinte. Em 2004, a oposição pleiteou um referendo revogatório do mandato de Chávez, tendo coletado quatro milhões de assinaturas de eleitores. O presidente venceu o referendo em 15 de agosto de 2004, mas a oposição denunciou a fraude ocorrida durante o referendo. A partir de então o presidente acenou para a necessidade de um novo modelo de sociedade, baseado num esquema econômico diferente do capitalismo.

Em janeiro de 2005, durante o Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre, pela primeira vez Chávez abandonou os eufemismos e falou abertamente em socialismo, especificando no mês seguinte que era necessário inventar o socialismo do século XXI. Ficava assim desmascarado o tal “bolivarianismo” do presidente, que não passava de um reles socialismo.

Em 2006, Chávez foi reeleito no pleito presidencial de 3 de dezembro. No mês seguinte, referiu-se aos “cinco motores constituintes para avançar rumo ao socialismo do século XXI”. O primeiro motor, a reforma constitucional, não teria ainda sido alcançado, pois, submetido a referendo popular em 2 de dezembro de 2007, pela primeira vez Chávez sofreu uma derrota eleitoral. Quanto aos demais motores: 2 - Recebe poderes absolutos durante 180 dias para governar por decreto; 3 - Estabelece a jornada “moral e luzes”, para abolir da educação os valores capitalistas; 4 - Institui a nova geometria do poder, modificando a estrutura geográfica e política do país; 5 - Provoca a explosão do poder comunal.

 Como efeito desta derrota em 2008, Chávez anunciou as “3Rs” –– revisão, retificação e re-impulso –– e começou a elaborar a nova reforma constitucional. Realizou-se então nova eleição de governadores e prefeitos.

Situação atual da Venezuela

Universitários protestam contra o socialismo chavista

Nas eleições municipais de 15 de novembro de 2008, quase completando dez anos no poder, Chávez estava sofrendo desgaste crescente em sua popularidade. Defrontava-se com três obstáculos: 1 - Saber exatamente qual o poder da oposição; 2 - Avaliar o alcance do chamado “chavismo sem Chávez” (dissidentes do chavismo); 3 – Acabar com a acusação de que houve fraude nas eleições. De fato, naquele dia ocorreram as eleições para governadores e prefeitos. Os resultados do pleito foram apresentados pelo governo como uma grande vitória, mas foram também festejados pela oposição. Pois, apesar de ter vencido apenas em cinco locais, estes representaram 40% da população, além da cidade de Caracas (a capital é a maior cidade do país), os quais representam 70% do PIB venezuelano.

Em vista desses resultados, Chávez, constatando que sua popularidade ainda estava relativamente alta, decidiu lançar neste ano a proposta de emenda constitucional para a reeleição indefinida. Colocou toda a máquina estatal a serviço de seu projeto, as empresas estatais e os recursos financeiros. Foi denunciado um gasto diário milionário em publicidade a favor do governo. Os funcionários públicos incluíram na rotina de trabalho a participação na campanha governista. A Assembléia Legislativa parou suas atividades por dois meses, a fim de se dedicar à mesma iniciativa. E no dia 15 de fevereiro último a proposta chavista foi aprovada, continuando assim Chávez como candidato à reeleição em 2012...

Tal resultado, apesar de favorável ao presidente venezuelano, revelou uma Venezuela dividida. A oposição tem crescido lenta mas continuamente, e tenta tornar-se a nova maioria. O chavismo, por seu lado, sofre uma curva de desgaste.

Uma nova força, os estudantes universitários, vai emergindo, tornando-se aos poucos a maior força da oposição. Cerca de trinta mil jovens universitários participaram ativamente da campanha pelo NÃO à emenda constitucional. E sem estar ligados a partidos políticos, manifestam-se coesamente contra o governo e sua ideologia socialista.

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No Brasil, o presidente Lula e o PT sempre defenderam Chávez e o têm ajudado em dificuldades internas e no plano internacional. Embora o presidente brasileiro procure fazer o papel de moderado em relação a Chávez, a política externa do Brasil sempre cerra fileiras com o governo chavista. Na aparência, um binômio radicalismo-moderação. Na realidade dos fatos, um forte auxílio para a política interna e externa do regime socialista de Chávez.