Maio de 2009
Devoção à Santíssima Virgem Maria
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A compaixão da Santíssima Virgem

 
A Coroação

Algum tempo após o nascimento de seu Filho, Maria foi com São José a Jerusalém a fim de apresentar o Menino recém-nascido a Deus. Simeão tomou o Menino Deus nos braços e, num êxtase de reconhecimento, cantou seu “Nunc dimittis”.

Depois, inundado de luz profética, percebeu para o futuro horas sinistras. Balançando tristemente a cabeça, disse: “Pobre mulher, um gládio de dor transpassará vossa alma” (Lc 2, 35).

Eis que é chegada a hora trágica em que se realiza a terceira profecia do velho Simeão. A Cruz apresenta-se num céu carregado de nuvens, sentindo-se o peso das ameaças do Eterno. Um silêncio assustador paira sobre a cidade deicida. Jesus expira.

Junto ao madeiro onde foi pregada a grande Vítima, Maria está de pé, imóvel, muda, os olhos fixos sobre o Deus que morre, com a alma mergulhada numa dor sem fim.

Que inteligência criada poderia sondar inteiramente esse sofrimento?

“Ferida de dinheiro não é mortal”

A provação atinge-nos de mil modos. Ela pode nos ferir em nossos bens materiais. É penoso, concordo, mas não somos tocados em nossa pessoa: “ferida de dinheiro não é mortal”.

A provação pode nos ferir em nossos corpos. O mal torna-se mais grave. A carne freme, a sensibilidade se revolta. Mas a inteligência pode guardar a serenidade: “uma grande alma continua senhora do corpo que anima”.

A prova pode nos ferir no espírito. A dúvida, o desânimo, a inveja, o desespero enchem de penumbra uma existência e podem torná-la insuportável, conduzindo as almas fracas ao langor, à idéia fixa, à loucura. Mas essas não são ainda as grandes dores.

A provação pode nos ferir em nossas fibras mais profundas. As grandes dores brotam do coração e provêm de um amor dilacerado. Então somos atingidos no mais íntimo. Se alguma reação forte não vier nos salvar, esse amor que nos tinha conduzido ao paraíso dos sonhos nos precipita na tumba. O amor quebrado nos mata.

Maria não sofreu senão por amor

Seu martírio excede em horror ao martírio do sangue. Ela vê o divino Corpo sofrer, acompanha passo a passo o lúgubre cortejo que sobe o Calvário, assiste à horrível cena da crucifixão, ouve os pesados martelos introduzirem os pregos nos pés e nas mãos adoráveis do Filho, percebe sua carne caindo em pedaços e seu sangue precioso correndo abundantemente. Quando o infame madeiro é erguido entre o céu e a terra, Ela acompanha na Sagrada Face os progressos da agonia.

Maria vê Jesus sofrer na sua honra. Ele é conduzido à morte entre dois ladrões. A criadagem do Sumo Sacerdote escarnece de sua benevolência, de sua santidade, de sua divindade. Os soldados zombam: “Desce daí, que creremos em ti”.

Ela O vê sofrer na alma, cujas alegrias beatíficas Ela conhecia. Imensa aflição A invade quando O ouve soltar o gemido queixoso: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonastes?” (Mt 27, 46).

O drama do Calvário

A Escritura narra que no momento em que a infeliz Agar, sem recursos no deserto, viu seu filho desmaiar, levou-o para junto de um matagal. Depois fugiu como uma louca, e no seu desespero gritava: “Não verei com meus olhos meu filho morrer”.

Maria não abandona por um só minuto seu Filho agonizante, não perde de vista um só de seus sofrimentos. Quando Jesus morre, Ela está lá.

O amor produz um fenômeno que os filósofos da Idade Média chamavam de êxtase. Ele toma, por assim dizer, o coração da pessoa que ama e o coloca no lugar do coração da pessoa amada. É bem o que se dava com Maria.

Todas as dores do Filho repercutiam n’Ela, e quando a lança do soldado abriu o Coração do Salvador, transpassou com o mesmo golpe a alma da Virgem Mãe. A palavra do velho Simeão acabava de se cumprir.

 “Ó vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor semelhante à minha dor” (Lamentações de Jeremias 1, 12).

Por que o sofrimento?

Quando a provação nos atinge, gememos. A revolta sobe aos nossos lábios, somos tentados a acusar Deus de injustiça, e nos perguntamos com amargura: “Por que esse sofrimento?”.

Deus nos envia o sofrimento para nos purificar e salvar. Na sua bondade misericordiosa, permite que utilizemos esse precioso dom não só para o nosso bem pessoal, mas também em favor daqueles que nos são caros.

Pobres almas que sofreis, não interrompais vossas lágrimas, mas lembrai-vos de que elas têm um valor muito grande e podem transformar-se em orvalho de bênção.

Não tendes faltas a expiar? Não tendes almas amadas cuja sorte eterna vos inquieta? Não tendes mortos que talvez sofram no Purgatório? Aceitai vossos sofrimentos com resignação, com reconhecimento, com amor. Apresentai vossas lágrimas ao Coração agonizante de Jesus. Ele vos associará de longe, mas eficazmente, à sua obra de salvação.

Morte e Assunção de Maria

O ensinamento tradicional da Igreja não nos deixa nenhuma dúvida sobre esse ponto. Nossa Senhora morreu verdadeiramente.

Convinha, aliás, que assim fosse. O Salvador nos mostrou o caminho que devemos percorrer a exemplo d’Ele.

Maria, a mais gloriosa das meras criaturas, não era maior que Jesus: cumpria, pois, que também Ela desse o último suspiro e entregasse como Ele sua alma ao Pai.

Deus queria ainda, por nosso amor, que Ela atenuasse para nós com seu exemplo as angústias desse terrível trânsito.

A morte da Imaculada foi tão real quanto consoladora e serena. Assemelhou-se ao sono tranqüilo de uma criança que adormece no berço.

E não poderia ter sido de outro modo. Nenhum medo seria capaz de perturbar sua consciência radiosa. Sua alma, imaculada desde o primeiro instante, nunca fora tisnada pela mais ligeira imperfeição. Nenhuma separação terrena poderia partir seu coração. Jesus, seu único amor, A esperava para além do túmulo. Juntar-se a Ele seria sua alegria suprema.

Como enfrentar as provações

Se maior fosse a nossa fé, encontraríamos nos dogmas de nossa Religião preciosas consolações.

Pecamos freqüentemente, é verdade. Mas não foi pelos pecadores que Nosso Senhor veio ao mundo? Não acolheu com imensa piedade e com ternura infinita as almas culpadas? Não perdoou as lágrimas de Madalena? Não protegeu e converteu a infeliz que os judeus haviam surpreendido no próprio ato de sua falta?

Mais ainda, Ele vai ao encalço da ovelha tresmalhada, não encontrando repouso senão depois de tê-la reconduzido sobre os ombros ao rebanho, com a cabeça dolorida apoiada calorosamente sobre seu Coração adorável.

A morte nos separa, mas só por um instante. Ela jamais rompe os laços estabelecidos sob o olhar de Deus. Não rezais diariamente estas palavras –– Creio na comunhão dos santos, na ressurreição da carne, na vida eterna –– que levaram Santa Teresa a transportes de reconhecimento?

Possuindo certezas tão absolutas, como pode um cristão temer a morte? Se essas verdades não vos impregnam de paz, suplicai à Santíssima Virgem que vos ilumine. Ela vos fará compreender um pouco melhor a misericórdia de seu Filho e as esperanças da eternidade.


 

O autor


Oriundo de nobre família do sul da França, o Padre Thomas de Saint-Laurent nasceu em Lyon no dia 7 de maio de 1879, e faleceu em Uzès no dia 11 de novembro de 1949. Ordenado sacerdote em 1909, foi designado no ano seguinte Pároco de Santa Perpétua em Nîmes.

Exerceu prodigiosa atividade apostólica, distinguindo-se muito cedo como insigne pregador e escritor.

Destacou-se como capelão da Juventude Católica (1912) e missionário apostólico (1919). Em 1920 foi nomeado cônego honorário da Catedral de Nîmes e, cinco anos depois, capelão do Carmelo de Uzès, onde faleceu após duas décadas de funções.

Como escritor, publicou diversos livros na Editora Aubanel Frères, de Avignon, destacando-se entre outros: coleção Almas de Santos (Santa Teresinha do Menino Jesus, São Francisco de Assis, São João da Cruz, São Vicente de Paulo); Com Jesus sofredor; A Virgem Maria; Nossas amizades após a morte; A arte de falar em público para uso de todos; A timidez; O domínio de si mesmo e O Livro da Confiança. Este último, com várias edições em diversas línguas, é sem dúvida o mais famoso de todos.

No prefácio que escreveu para a edição australiana de O Livro da Confiança, assim se referiu o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ao autor: “O Padre Saint-Laurent recebeu da Providência o dom de falar diretamente às almas, fazendo sentir no seu mais íntimo o valor da confiança; e apaziguando, de um modo que por vezes se diria miraculoso, as tormentas que sacodem, por vezes, até as almas mais fiéis”.

As mesmas palavras do ilustre pensador católico brasileiro podem com toda propriedade aplicar-se ao presente livro A Virgem Maria. Simples e despretensioso, mas repassado de unção, ele persuade profundamente o leitor, descortina novos horizontes para a sua vida espiritual, e lhe ensina a confiar ilimitadamente na bondade da Santíssima Virgem, nossa Mãe incomparável.

 

 

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