Maio de 2009
Os novos Incitatus
Degradação

Os novos Incitatus

Gregorio Vivanco Lopes


Incitatus era o nome do cavalo preferido do imperador romano Calígula, feroz perseguidor dos cristãos. Narra o escritor Suetonio, na sua biografia de Calígula, que Incitatus tinha cerca de dezoito criados pessoais, era enfeitado com um colar de pedras preciosas e dormia no meio de mantas de púrpura (destinadas somente aos trajes imperiais). Foi-lhe também dedicada uma estátua de mármore, em tamanho natural, com um pedestal em marfim. Calígula nomeou Incitatus senador e considerou a hipótese de fazer dele um cônsul.

Incitatus constitui o êxtase de muitos defensores dos chamados “direitos dos animais”. Nesta decadência da civilização em que nos encontramos, chegaremos a ter novos Incitatus, com nova perseguição aos cristãos?

Tais reminiscências históricas e tais reflexões me vieram à mente lendo a notícia de que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nomeou um radical defensor dos chamados “direitos dos animais”, Cass Sunstein, para chefiar o Gabinete de Informação e Assuntos Regulatórios, serviço federal que supervisiona todas as regulamentações governamentais.

Para o leitor avaliar o homem, eis uma “pérola” extraída de um livro de Sunstein, de 2004: “Aos animais deve ser permitido usar terno, tendo seres humanos como seus representantes, quando se tratar de evitar violações da lei atual. […] Quaisquer animais que têm o direito de usar terno serão representados por advogado”. Em 2007, num discurso na Universidade de Harvard, o mesmo senhor defendeu: "Temos de proibir a caça". E apelou para a "eliminação de práticas atuais, como... comer carne" (http://www.canadafreepress.com/index.php/article/8230).

Acrescente-se a isso que, na Espanha, a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados “aprovou uma proposta de lei que leva o governo a aderir, no prazo máximo de quatro meses, ao Projeto Grande Símio, uma iniciativa internacional de ONGs ecológicas, que reconhece a orangotangos, chimpanzés, bonobos e gorilas parte dos direitos básicos dos seres humanos, como os direitos à vida, à liberdade e a não ser torturados” (“El Pais”, 25-6-2008).

Assim, cada vez mais vão sendo reconhecidos “direitos humanos” aos animais. Ao mesmo tempo, cada vez menos vai-se reconhecendo que o homem tem alma.

Ninguém defende, é claro, que os animais devam ser arbitrariamente torturados, mutilados, etc. Mas isso não decorre de um direito que eles tenham, e sim de que foram criados por Deus para serem utilizados pelos homens retamente, não de modo irracional. O fato de os animais não terem alma espiritual coloca-os numa posição de necessária submissão ao homem.

Nesta época de confusão, é sempre bom esclarecer o óbvio. E falando em clareza, nada melhor do que Santo Tomás de Aquino. Eis o que diz o Doutor Angélico:

“Na hierarquia dos seres, os menos perfeitos existem para os mais perfeitos [...]. Assim, os seres que têm apenas vida, como os vegetais, são, no conjunto, destinados a servir aos animais, e os animais existem para o homem. Por conseguinte, se o homem se serve dos vegetais para uso dos animais, e dos animais para o seu próprio uso, não é ilícito, como já o demonstrou Aristóteles [...].

 “Se a ordenação divina conserva a vida dos animais e das plantas, não é por ela mesma, mas para o homem. Assim Santo Agostinho pôde escrever: ‘Por justíssima disposição do Criador, a vida e a morte desses seres estão a nosso serviço’”(Suma Teológica IIª-IIæ, q. 64, a.1, c. e ad 1).

E se quiserem a palavra diretamente divina, aqui está ela:

“Então Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra" (Gn 1,26).