Rio Grande do Sul: conquista, tradição e religiosidade
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Brasil Real

Rio Grande do Sul: conquista, tradição e religiosidade

Carlos Sodré Lanna

Na época do descobrimento do Brasil, a região que hoje constitui o estado do Rio Grande do Sul era habitada pelos índios minuanos, charruas e caaguaras.

Somente a partir de 1610 os padres jesuítas espanhóis começaram a se estabelecer na área, organizando os aldeamentos de índios civilizados, as famosas missões ou reduções. Foram eles que introduziram no território as primeiras cabeças de gado, e o índio das missões foi o primeiro vaqueiro do Rio Grande do Sul.

Este trabalho civilizador e evangelizador dos jesuítas espanhóis se concretizou naquilo que ficou conhecido como Os sete Povos das Missões.

O gaúcho primitivo teve origem étnica na mestiçagem entre portugueses, espanhóis e índios. A partir de 1740 iniciou-se o povoamento sistemático com a vinda dos açorianos e moradores de Laguna, hoje Santa Catarina. Em 1824 chegaram os imigrantes alemães e em 1870 os italianos. Os portugueses povoaram mais o litoral.

O território gaúcho ficou como uma ponta de lança do Brasil para o sul, além do meridiano de Tordesilhas,(*) em vista das terras conquistadas por seus habitantes. Estes passaram então a defender nossa fronteira contra os espanhóis, acumulando ao longo de sua história uma tradição de lutas e de heroísmo.

Com o apoio dos portugueses, paulistas, açorianos, catarinenses e índios puseram fim às pretensões dos vizinhos argentinos e uruguaios, ocupando o território do atual Rio Grande do Sul.

Fazendeiros: defensores da fronteira do Sul

O gado e os cavalos vindos das Missões jesuítas viviam soltos, à lei da natureza, pelas coxilhas gaúchas.

O homem defendeu a terra e dedicou-se à pecuária, em torno da qual tudo girava. Não se concebe o gaúcho sem o cavalo, brasileiro típico da fronteira sul.

De início, a caça ao gado, os tropeiros, as invernadas. Mais tarde as estâncias, as fazendas, as charqueadas, os rodeios.

Diante do inimigo hispânico ao sul e a oeste, o gaúcho estava a serviço dos reis portugueses, defendia nosso País e suas estâncias ou querências. Os interesses dos fazendeiros harmonizavam-se com os do Estado nas linhas fronteiriças. As pressões dos vizinhos criaram no gaúcho o espírito de disciplina, o respeito à autoridade e fizeram dos corajosos peões verdadeiros soldados.

Os fazendeiros fundaram seu prestígio na ocupação das planícies e no valor militar demonstrado nas coxilhas. E as estâncias tiveram uma função civilizadora, na formação da alma gaúcha, com a criação de uma legenda guerreira e um profundo amor às tradições que persiste até nossos dias.

Novas imigrações: assimilação rápida

O Rio Grande do Sul é rico em belezas naturais, possuindo um litoral com lindas praias. Coberto por campos e florestas, os primeiros ocupam dois terços do território. No inverno a geada cobre todo o Estado e na região norte cai neve em vários municípios.

A imigração alemä e italiana deixou profundas marcas nos costumes, na arquitetura e na culinária gaúcha. Esses novos gaúchos adotaram sem demora o chimarrão, o churrasco e o cigarro de palha. Em troca legaram o macarrão, a polenta, o pão cuca, o arado, a semeadeira e a carreta para transporte de carga pesada.

As roupas típicas gauchas parecem trajes de festas. Usam sempre uma bombacha (calça larga). No inverno cobrem-se com o poncho, um pano de tecido grosso, enquanto no verão utilizam a pala, de tecido leve. Calçam botas de cano longo e usam esporas barulhentas que marcam seus passos. No pescoço colocam um lenço colorido e na cintura um cinto largo, ou guaiaca, onde é pendurada uma faca ou adaga. Na cabeça um chapéu mole, de abas largas, seguro por uma tira de couro.

Centros de Tradições Gaúchas e religiosidade

Por todo o Brasil, nos lugares onde há gaúchos, surgem os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), com seus galpões para reuniões, churrascadas, músicas e danças típicas, chimarrão, trajes e costumes do Rio Grande do Sul. Consta já haver mais de 800 dessas associações espalhadas nos diversos estados do país.

Esses centros demonstram como é grande o número dos que se orgulham de ter raízes gaúchas, portadores de um legado histórico marcado por lances de grandeza.

A Religião Católica deixou traços profundos na alma do povo gaúcho, como se pode notar em todas as regiões do Rio Grande do Sul.

Um exemplo típico é a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, realizada no dia 2 de fevereiro, todos os anos, em Porto Alegre. Milhares de fiéis em centenas de barcos participam da procissão fluvial no rio Guaíba, que banha a capital.

A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes é previamente retirada da igreja onde fica habitualmente e colocada em outra. A procissão se destina a reconduzi-la à sua igreja, onde ficará até o ano seguinte. Durante o percurso os gaúchos lançam presentes nas águas do rio, como flores, fitas e grinaldas, para Nossa Senhora dos Navegantes. No final da procissão, começa a festa, com numerosas barracas, comidas e bebidas típicas de uma comemoração gaúcha.

Bibliografia:

1 - Carlos Reverbel, O gaúcho, L&PM editores Ltda., Porto Alegre, 1986.

2 - Brasil/História, Costumes e Lendas, Editora Três, Ltda., São Paulo, 1983.

3 - Guilhermino César, O conde de Piratini e a estância da música, Porto Alegre, 1978.

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