Outubro de 2006
Até onde a Igreja pode ir, nas concessões aos gostos dos jovens atuais, para conquistá-los e atraí-los à prática da Religião?
A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Uma sobrinha, freqüentadora assídua de baladas, sustentava hoje, no almoço de família, que a Igreja está perdendo os jovens porque não tem flexibilidade para se adaptar aos novos modos de pensar e de agir da juventude de nossos dias. E por isso elogiou os padres e bispos que aprovam o rock e introduzem ritmos modernos e até danças na celebração da Eucaristia. Até onde a Igreja pode ir, nas concessões aos gostos dos jovens atuais, para conquistá-los e atraí-los à prática da Religião?

Resposta — A afirmação de que “a Igreja está perdendo os jovens”, embora se ouça com relativa freqüência em certos meios e é comum na imprensa, é contestável sob diversos ângulos.

Quando numa família um filho se desencaminha, deve-se dizer que a mãe perdeu o filho? Ou, mais propriamente, deve-se dizer que o filho perdeu a mãe? Um exemplo esclarecerá o sentido da pergunta.

Quem perdeu quem? Um exemplo responde

Imaginemos uma rainha, soberana de um reino rico e poderoso, cujo herdeiro vai aos poucos tomando caminhos inconvenientes, chegando ao ponto de se tornar absolutamente indigno de ascender ao trono. Em conseqüência, a rainha o obriga a abdicar de seus direitos à sucessão, segundo as regras do reino (a História registra vários casos concretos de situações análogas, e assim o exemplo não é meramente hipotético). Cabe perguntar: Foi a rainha que perdeu o filho indigno, ou foi o filho que perdeu com justiça o direito de suceder à mãe?

Ora, a Igreja promete aos seus filhos fiéis uma herança eterna no Reino dos Céus. Se dele alguém se torna indigno, quem é que sai perdendo: a Igreja, que perdeu um filho, ou o filho que perdeu a herança eterna a que estava destinado?

A pergunta que pusemos de início é, portanto, cheia de sentido, não um mero jogo de palavras.

“Compromisso com a modernidade”

O rock apresenta tais inconvenientes, que deve ser recusado por um cristão verdadeiramente imbuído do espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo

É um fato que muitos jovens de nossos dias, de ambos os sexos, cedem às más inclinações que deixou em cada um o pecado original. Atraídos pelas solicitações cada vez mais ousadas e até mesmo inconcebíveis dos centros de entretenimento (cinema, teatro, shows, dancings, etc.) e dos manipulados meios de comunicação social (imprensa, rádio, TV, aos quais é preciso hoje acrescentar a devastadora Internet), entregam-se a uma vida sensual escandalosa, pelo que, em número majoritário, pouco estão ligando para os mandamentos e as normas morais da Igreja.

Alguns, entretanto, conservam um certo sentido religioso da vida, e gostariam que fosse possível estabelecer um utópico compromisso entre a prática de algumas devoções, aprendidas na infância, com a vida desbragadamente sensual que levam. Nesses casos, pode surgir o desejo de que a Igreja relaxe certas normas morais “muito rígidas” [sic!] e aceite o pretendido “compromisso com a modernidade”. Esse clamor foi capitaneado "sacrilegamente" até por certos setores eclesiásticos e leigos ditos “progressistas”, que se fizeram porta-vozes desse compromisso imoral dentro da Igreja.

Os 10 Mandamentos da Lei de Deus

A Igreja entretanto não pode abdicar da pregação e da cobrança dos 10 Mandamentos da Lei de Deus, pelo que qualquer “compromisso com a modernidade”, que implique na inobservância ou simples atenuação desses Mandamentos, é absolutamente imoral.

Com efeito, a Igreja recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo um conjunto de princípios religiosos e morais aos quais deve ser fiel, sob pena de deixar de ser ela mesma. Precisamente para que isso não acontecesse, ela é assistida continuamente pelo Divino Espírito Santo, que a ilumina para discernir “os sinais dos tempos” — como hoje se costuma dizer — aproveitando o que é bom (isto é, segundo Deus) em cada época da História, e rejeitando categoricamente o que é mau.

Há então elementos bons no mundo moderno, que a Igreja poderia incorporar nas suas práticas? Sem dúvida! Nem tudo que o mundo moderno produziu, e continua a produzir, é contra a Lei natural e a Lei de Deus. Seria grosseiramente simplificante dizer: “É moderno; logo, é ruim”. Mais matizado seria dizer: “É moderno; logo, tome cuidado, porque pode estar impregnado de materialismo e de secularismo [ateísmo]”. Com as devidas — e, quase diríamos, infinitas — cautelas é possível, pois, assumir certos progressos culturais, científicos e tecnológicos atuais e incorporá-los a uma civilização e a uma cultura verdadeiramente católicas. Por exemplo, a cosmologia moderna teve tais avanços que, por assim dizer, vai tocando com as mãos o ato criador de Deus (palavras de um cientista). Queremos nos referir especialmente à tese do Intelligent Design, que somente a incredulidade coriácea de uma parte significativa de cientistas agnósticos continua a recusar. O Intelligent Design é a teoria segundo a qual a fenomenal complexidade e harmonia do Universo postula uma inteligência criadora infinitamente perfeita. Este tema já tem sido objeto de importantes artigos publicados em Catolicismo, o que nos dispensa de tratá-lo aqui.

Mas o ponto em que a teoria do “compromisso com a modernidade” pega mais na carne viva da realidade, para um número muito grande de nossos contemporâneos, é o campo moral. Por isso tratamos dele de início.

O cerne da pergunta fica assim respondido. Porém, ela abarca alguns temas específicos muito sensíveis, que não queríamos deixar sem resposta. Um deles é a questão do rock perante a moral católica.

Rock, música sensual e diabólica

Para os efeitos deste comentário, não entraremos aqui nas distinções que os especialistas fazem entre os diversos estilos e modalidades de rock. A nosso ver, mesmo o chamado rock leve (soft) — em oposição às diversas modalidades de rock pesado (heavy metal) — apresenta tais inconvenientes, que deve ser recusado por um cristão verdadeiramente imbuído do espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Qualquer católico que tenha conservado um mínimo de sua inocência batismal não pode deixar de se sentir profundamente agredido em sua integridade moral pelo ritmo manifestamente erótico do rock, em qualquer de seus graus ou modalidades. É desagradável dizê-lo, mas não podemos deixar de fazer notar que o simples ritmo dessas músicas — desconsideradas as palavras, freqüentemente libidinosas e, mais grave ainda, não raras vezes de cunho explicitamente satanista — procura insinuar e mesmo imitar a prática do ato sexual. O que fica mais claro ainda devido aos passos de dança correspondentes ao ritmo.

Não vemos, portanto, como a Igreja poderia fazer concessões nesse terreno para “atrair” os jovens. Seria, isso sim, trair os princípios mais fundamentais da moral católica e conduzir os jovens à perdição.

É preciso também observar que existe, de modo crescente, um certo número de jovens que desejam as missas tradicionais, com canto gregoriano e recolhimento. Mas desses a propaganda não fala!

Danças modernas nas cerimônias litúrgicas

Paróquia do Monte Carmelo em Nova Manila, Quezon City, Filipinas

Que dizer, por fim, da introdução de danças e ritmos modernos paralelamente à realização das cerimônias litúrgicas?

Alguns sacerdotes que lançam mão desses “atrativos” tomam o cuidado de admiti-los apenas antes ou depois do ato litúrgico. É bem a prova de que reconhecem como esses ritmos e danças são incompatíveis com a sacralidade do santo Sacrifício da Missa, renovação ipsis litteris, embora incruenta, do que se passou no Calvário.

Esse reconhecimento implícito nos dispensa de maiores comentários. Para bom entendedor, meia palavra basta...