Outubro de 2006
Imigração, Islã e choque de civilizações
Internacional

Imigração, Islã e choque de civilizações

-Organizadas por redes clandestinas, ondas sucessivas de imigrantes ilegais chegam à Europa todos os dias. Teme-se o acirramento do conflito Islã versus Cristandade.

W. Gabriel da Silva

A imigração de pessoas, grupos ou famílias de um país a outro sempre foi vista como fato normal. Guerras, catástrofes naturais, situações de penúria podem castigar prolongadamente determinada região, provocando o êxodo de seus habitantes para terras estrangeiras. Em tais circunstâncias, é dever de caridade cristã dar conforto e auxílio a tais pessoas, a fim de que possam reconstruir a vida. As Américas e a Austrália foram e continuam sendo continentes de imigração, pela amplitude de seu território e de seus recursos.

Situação diversa, porém, é a da Europa, que atingiu um grau de civilização e desenvolvimento superior. A necessidade de imigração no velho continente explica-se não por necessidade de ocupar e desenvolver o território, mas pelo déficit populacional devido ao baixíssimo índice de natalidade, conseqüência da limitação da natalidade e da aberrante prática do aborto.

Choque de civilizações

É conhecida a tese de Samuel Huntington sobre o choque das civilizações. Segundo ele, a queda do Muro de Berlim anunciaria a passagem de um mundo caracterizado por clivagens ideológicas — comunismo versus capitalismo — a um mundo de clivagens culturais. Nessa perspectiva deveria ser visto, segundo ele, o despertar do Islã radical no mundo muçulmano, como também o fenômeno chamado da globalização ou mundialização.

Sem entrar no mérito da teoria de Huntington –– contestável em vários de seus aspectos –– é fora de dúvida que no contexto atual o Islã se apresenta como uma força ameaçadora em oposição ao cristianismo, que moldou a civilização ocidental. E a imigração em massa de muçulmanos para a Europa leva água para esse moinho, especialmente no contexto psico-político atual.

Depois do atentado de 11 de setembro de 2001 contra as torres gêmeas do WTC em Nova York, acentuou-se a olhos vistos a presença na Europa de imigrantes oriundos de países muçulmanos. As mesquitas multiplicam-se por todo o continente europeu, financiadas por correntes islamitas da Arábia Saudita, Argélia e Marrocos, e em alguns lugares os muçulmanos assumem atitudes francamente provocadoras e desafiantes. A polêmica suscitada na França a propósito do laicismo acentuou ainda mais o uso de véus e trajes muçulmanos na Europa.

Ameaças contra o Papa

Para se compreender a animosidade do Islã radical e o perigo que representa para a Europa, basta lembrar a violência com que o mundo muçulmano reagiu às caricaturas dinamarquesas a respeito de Maomé e, mais recentemente, os insultos lançados ao Papa e à Religião católica por personalidades muçulmanas, devido a uma citação histórica feita por Bento XVI em sua conferência na Universidade de Ratisbona, no decurso de sua visita à Baviera.

O Pontífice reproduziu uma citação de 1391, do Imperador bizantino Manuel II Paleólogo, na qual este afirma: “Mostrai-me o que Maomé trouxe de novo. Não encontrareis senão coisas más e desumanas, como o direito de defender pela espada a fé que ele pregava”.

O Islã, ao que se saiba, não respondeu àquele imperador por tais palavras pronunciadas há mais de seis séculos. Agora, porém, reage contra o Papa e a Igreja Católica com uma violência que bem comprova o espírito com que são feitas outras acusações lançadas por muçulmanos radicais.

“Juramos destruir sua Cruz no coração de Roma, [...] e que o Vaticano será atacado e vai chorar por seu Papa”, apregoa o grupo armado iraquiano Jaiech al Mujahedin, em comunicado divulgado na internet, o qual critica duramente os “cristãos sionizados e os cruzados cheios de ódio” (cfr. agência France Presse, in “Folha Online” de 16-9-06). “Só descansaremos quando vossos tronos e vossas cruzes estiverem destruídos, em vosso próprio território”, vocifera ainda o grupo, conhecido por suas operações contra as tropas americanas e governamentais no Iraque.

Bomba política

Mesmo do ponto de vista laico dos governos europeus, a imigração em massa apresenta dificuldades. A totalidade dos países europeus mais desenvolvidos não dispõe de mão-de-obra suficiente para fazer face à demanda da economia. A causa, já dissemos, é o envelhecimento da população, devido à política suicida e imoral de limitação da natalidade, inclusive pelo aborto. Por isso, reconhecem que a imigração é uma necessidade, com efeitos positivos na economia. Mas os problemas que ela cria constituem uma “dinamite política”, como disse o primeiro-ministro britânico Tony Blair. E se a explosão dessa “dinamite” ocorrer no contexto extremamente delicado de uma guerra árabe-israelense envolvendo o Irã, a Síria e outros países muçulmanos? A Europa teria o inimigo já dentro da própria casa...

Em discurso no Instituto Demos, o secretário inglês do Interior John Reid falou no mesmo sentido: “A imigração é o principal desafio ao qual os governos europeus devem fazer face”. E um ex-ministro trabalhista, Frank Field, derrubou o pau da barraca ao afirmar que a onda de imigração ficou incontrolável, tornando o mercado de trabalho inacessível aos britânicos. Pragmáticos como são os ingleses, eles querem contabilizar as vantagens e as desvantagens, em termos de qualificação dos imigrantes e de seu peso nos gastos com hospitais e escolas. Ainda segundo John Reid, é preciso acabar com a noção “politicamente correta” de chamar de “racista” quem critica a imigração. E propõe um melhor controle das fronteiras para barrar a imigração clandestina.

A posição do governo inglês encontra similares na maioria dos países europeus, embora, de um modo geral, os políticos de esquerda no poder sejam muito mais liberais nessa matéria.

Invasões pelo Mediterrâneo

Imigrantes clandestinos no Mediterrâneo

Na realidade, esplendidamente isolado em sua ilha, com forças de segurança eficientes e um controle férreo dos aeroportos londrinos, o Reino Unido não é o caso mais problemático em matéria de imigração ilegal.

A Itália enfrentou períodos críticos após as guerras do Kosovo e da Bósnia. Nessa ocasião, levas de imigrantes albaneses e de outros países dos Bálcãs chegavam às costas adriáticas da Itália. Atualmente as invasões vêm do sul: imigrantes clandestinos oriundos do Maghreb, da África subsahariana ou do Oriente Médio tentam desembarcar nas ilhas européias do Mediterrâneo, como Malta, Lampedusa ou Sicília.

Do mesmo modo, africanos desembarcam aos milhares nas Ilhas Canárias, situadas no Oceano Atlântico e pertencentes à Espanha, na esperança de serem dali transferidos ao continente, que vêem como um Eldorado. Até 4 de setembro tinham chegado àquelas ilhas 21.501, dos quais 4.751 só em agosto, e 2.662 no primeiro fim-de-semana de setembro. Essas ondas começaram após o Partido Socialista Espanhol (PSOE) anistiar 700.000 imigrantes ilegais. O progressismo católico, entretanto, dá cobertura à vaga invasora e ignora o direito superior das sociedades católicas a manterem sua fidelidade à Igreja e sua própria identidade.

Africanos em Paris

Imigrantes africanos na França

Recentemente o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos da França tornou público um estudo sobre a imigração de 1999 a 2005. Mostra um forte aumento de imigrantes vindos da África subsahariana, da ordem de 45%. Eles se concentram sobretudo na região metropolitana parisiense e seu entorno, que constituem a Île de France, berço histórico do país. O número de turcos, que já há tempos constituem a primeira “colônia” na Alemanha, também aumentou espetacularmente na França (cf. “Le Figaro”, 24-8-06). O número de imigrantes legais na França é da ordem de 8,1% da população. Somando-se os ilegais, essa percentagem pode chegar aos 10%.

Como se estabelece o fluxo imigratório? Para as imigrações históricas, de modo natural: o marido vem só, depois traz a mulher e os filhos, um irmão, um amigo, e assim por diante.

Em 1996, 300 imigrantes ilegais (sans-papiers, no jargão francês) ocuparam a igreja de São Bernardo, em Paris. Só saíram após truculenta intervenção da polícia. Eram em sua maioria africanos, e seu líder o jovem Ababacar Diop, senegalês. Em 1999, Ababacar montou um cybercafé com dois amigos e batizou-o de Vis@vis (Face@face). Seis meses depois, o poderoso grupo Vivendi Universal lançou um portal eletrônico: Vizzavi (mesma pronúncia). E a coexistência das duas marcas rendeu a Ababacar Diop a fabulosa quantia de 24 bilhões de francos (cerca de 10 bilhões de reais!). Diop, que se definiu como “um comunista bilionário”, fundou uma imobiliária, investindo em apartamentos em Paris e no Senegal. Depois vendeu sua participação no cybercafé e mudou-se para o Senegal, onde é próspero empresário.

Não é curioso que um autodenominado comunista tenha ganho de um gigante capitalista tão fabulosa "loteria", sem comprar bilhete? Não é de suspeitar que as organizações de imigrantes ilegais tenham por trás apoios bem mais consistentes do que os pequenos grupos de bairro?

Por outro lado, que miragens não terá criado na cabeça de outros jovens africanos o sucesso espetacular de Ababacar Diop?

Bandeira da esquerda

Tais interrogações não são arbitrárias, pois a mencionada ocupação da igreja de São Bernardo teve o apoio de toda uma troupe de estrelas de show-bizz, intelectuais e artistas, entre os quais Emmanuelle Béart, Léon Schwartzenberg e Ariane Mnouchkine, com ampla cobertura da mídia.

Em conseqüência de todo esse movimento, o governo socialista de Lionel Jospin fez, na ocasião, a primeira regularização em massa de imigrantes: 80.000 entre 1997 e 1998. Número espantoso, se se considera o rigor com que as autoridades francesas tratam habitualmente os imigrantes isolados, que não contam com o patrocínio das organizações (ONGs) de esquerda.

 
Alain Krivine, da Liga Comunista Revolucionária

Na recente conferência de imprensa que lembrou os 10 anos da ocupação da igreja de São Bernardo, quem apresentou os antigos invasores foi Alain Krivine, da Liga Comunista Revolucionária, ao lado de delegados do Partido Comunista Francês e da Luta Operária (cf. “Le Figaro”, 24-8-06).

Em nome da igualdade para todos, os partidos de esquerda são favoráveis à abertura das comportas da imigração. Esta é, portanto, uma bandeira da esquerda, ainda que grande número dos eleitores não acompanhe os políticos nesse tema. Com papel de destaque, ao lado desses partidos, encontram-se freqüentemente os setores mais radicais da esquerda dita católica, comprometidos com ONGs e movimentos de apoio aos imigrantes ilegais.

Desse ponto de vista, a Europa encontra-se mais ou menos como uma fortaleza sitiada. Se continuar a avalanche das imigrações provenientes de países pagãos, sua paisagem religiosa, cultural e até física será forçosamente alterada. Mesmo abstraindo de possíveis agressões violentas, tal eventualidade poderia ocasionar, mais cedo ou mais tarde, o fim definitivo da Europa cristã. A menos que fatores sobrenaturais intervenham.