Outubro de 2006
Um estilo original, criativo e inconfundível
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Um estilo original, criativo e inconfundível

Plinio Corrêa de Oliveira como escritor e jornalista

Armando Alexandre dos Santos

Plinio Corrêa de Oliveira

Recordo certa conversa que tive com um eminente intelectual e político nordestino, homem de projeção e prestígio nacionais, durante uma longa e, aliás, agradabilíssima e saudosa viagem que fizemos juntos pelos sertões da Bahia, em busca das ruínas da velha Canudos. Durante mais de 10 horas viajamos lado e lado e, naturalmente, conversamos sem parar de omne re scibili et quibusdam aliis... (De todas as coisas que podem ser conhecidas, e mesmo de muitas outras...)

A simpatia, a inteligência, a educação e a loquacidade do meu interlocutor eram realmente encantadoras. A certa altura, de chofre, ele me disse:

— Sinceramente, não posso entender como você, um discípulo confesso de Plinio Corrêa de Oliveira, tenha a mente tão aberta e seja capaz de conversar sobre tantos assuntos...

Respondi imediatamente:

— É precisamente para essa abertura de horizontes que Dr. Plinio convidava seus discípulos.

A partir daí, nas estradas poeirentas do sertão baiano, a conversa girou em torno de Plinio Corrêa de Oliveira.

Embora de orientação algum tanto esquerdista, meu interlocutor demonstrava, a par da inteligência brilhante, grande honestidade intelectual. Ao cabo de 40 ou 50 minutos de conversação sobre o saudoso líder católico, disse-me com uma sinceridade e uma ênfase que me surpreenderam:

— Você tem toda a razão; nós, da intelligentzia brasileira, fomos profundamente injustos com Plinio Corrêa de Oliveira. Nunca tivemos a coragem de reconhecer de público o imenso valor intelectual e moral que esse homem teve.

De fato, talvez nenhum homem, na história já cinco vezes secular de nossa Pátria, terá sido tão combatido, tão incompreendido, tão boicotado, como Plinio Corrêa de Oliveira. E talvez também nenhum tenha sido tão sincera, mas silenciosamente, admirado.

Digo "sincera, mas silenciosamente", porque muitas vezes as manifestações dessa admiração eram discretas, quase envergonhadas, fazendo lembrar Nicodemos, que foi conversar com Jesus na calada da noite (cfr. S. João, 3, 1-2ss.), ou José de Arimatéia, “que era discípulo de Jesus, se bem que oculto, por medo dos judeus” (S. João, 19,38). E às vezes até partia de adversários ideológicos declarados.

Recordo ainda ter lido, nos últimos anos de sua vida, uma crônica publicada na imprensa diária, de um muito celebrado jornalista de esquerda que se referia a "um intelectual brasileiro" cujas "idéias odiosas" eram "insistentemente apregoadas", mas que, "é preciso reconhecer, escreve realmente bem". Esse jornalista não ousava citar nominalmente a Plinio Corrêa de Oliveira, mas o contexto em que escrevia não deixava a menor possibilidade de dúvidas acerca de que só podia estar se referindo a ele.

Esses dois fatos me vêm à mente quando, a pedido da Direção de Catolicismo, principio a redigir, para a edição de outubro deste ano, um artigo em homenagem à memória do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Foi-me pedido que focalizasse de modo especial seu estilo como escritor e jornalista católico e contra-revolucionário. A tarefa não é fácil, pois o estudo aprofundado de um estilo original, criativo e inconfundível como o dele exigiria um espaço muito mais extenso do que o disponível nas páginas da revista.

Ademais, para tratar de seu estilo, é indispensável falar antes de seu pensamento — pois foi em função deste que se formou aquele.

1. Homem de pensamento e de ação

Santo Tomás de Aquino

Como fundador e como chefe de uma escola de pensamento contra-revolucionário, Plinio Corrêa de Oliveira teve uma produção intelectual vasta, rica e muito variada. Mas sua escola de pensamento é sui generis: não apenas de pensamento, mas também de ação.

"Sou tomista convicto. O aspecto da Filosofia pelo qual mais me interesso é a filosofia da História. Em função desta encontro o ponto de junção entre os dois gêneros de atividade em que me venho dividindo ao longo de minha vida: o estudo e a ação" — escreveu na introdução ao seu Auto-retrato filosófico.

Essas palavras realçam os dois aspectos principais que devemos ter em vista na consideração de sua personalidade: o pensador e o homem de ação. De tal maneira esses dois aspectos nele se conjugavam, que é difícil analisá-los separadamente, pois era em ordem à ação que pensava, e era em função do pensamento que agia.

A curiosa interpenetração desses dois aspectos, o mais das vezes excludentes, é o que mais chama a atenção de quem estuda sua vida e sua obra.

2. Pólo de pensamento no panorama cultural brasileiro

Plinio Corrêa de Oliveira era entrevistado sobre as mais diversas questões

Pensando, escrevendo e ensinando, de um lado, agindo e lutando de outro, Plinio Corrêa de Oliveira tornou-se através das décadas, e sem embargo do boicote sistemático da intelligentzia e da quase totalidade dos meios de comunicação social, conhecidíssimo no Brasil inteiro. Nos últimos anos da vida, era comum ser entrevistado por jornais que desejavam conhecer sua opinião sobre assuntos dos mais diversos, muitos dos quais nem sequer tendo relação com sua atuação pública.

Em maio de 1994, por exemplo, um importante jornal pediu sua opinião sobre o trágico acidente que vitimou Airton Senna. O acontecimento nenhuma relação tinha com a atuação pública de Plinio Corrêa de Oliveira. Mas o jornal julgou que, entre os brasileiros que entrevistou na ocasião, era indispensável incluir Plinio Corrêa de Oliveira, que na realidade se tinha transformado num verdadeiro pólo de pensamento, numa personalidade cujas opiniões, no panorama cultural, ideológico e político do País, eram respeitadas e tomadas em consideração.

De fato, não existe brasileiro culto que não conheça e respeite a extraordinária personalidade de Plinio Corrêa de Oliveira. Mesmo aqueles que não concordam com suas idéias não podem deixar de reconhecer que sempre manteve uma trajetória retilínea. Na vida dele não se conhecem hesitações, reviravoltas, contorções. Ele foi sempre o mesmo, sempre o fiel lutador pela Igreja, pela Civilização Cristã, pela Pátria. Com uma inteligência que até os adversários mais ferrenhos reconheceram, e com uma capacidade de ação que invejaram, edificou ao longo da vida dois monumentos notáveis, aos quais correspondem as duas facetas de sua personalidade mencionadas no citado Auto-retrato filosófico.

O primeiro monumento: uma obra escrita volumosa, original e rica, composta de mais de 2.500 títulos publicados, entre livros, ensaios, artigos e estudos diversos, aos quais se devem somar dezenas de milhares de conferências e aulas gravadas, que ainda não vieram a lume. Isso corresponde à faceta de Plinio Corrêa de Oliveira como pensador, escritor, fundador e mestre de uma escola de pensamento.

Mas há outro monumento notável que ele também edificou: as TFPs e entidades congêneres que se espalharam, ao longo da sua vida, por nada menos que 27 países dos cinco continentes. Simultaneamente com esse crescimento de sua obra, manteve durante décadas uma luta tenaz, inteligente e bem sucedida contra o comunismo, o socialismo, o progressismo católico; e ainda contra as conseqüências desses erros em outras áreas da civilização e da cultura: por exemplo, a imoralidade, a introdução do divórcio, o enfraquecimento da propriedade privada, das boas tradições nacionais, etc.

Esses dois monumentos, ele os edificou numa época em que todos os fatores de desagregação o atrapalhavam, forçando-o a remar contra a maré. Foi um homem que combateu arduamente os erros do seu tempo. Foi, por isso mesmo, um homem de uma atualidade inimaginável.

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