Junho de 2007
1968-2007: o pêndulo da História inverte-se na França
Internacional

1968-2007: o pêndulo da História inverte-se na França

O presidente eleito da França, Nicolas Sarkozy, prometeu “liquidar” com a herança de Maio de 68 (revolução da Sorbonne) para atender aos desejos profundos do eleitorado conservador

Luis Dufaur

No Quai des Grands Augustins, do Quartier Latin em Paris, vi o policial parar o motociclista infrator. Este reagiu com a insolência cínica dos revolucionários da Sorbonne. O agente da ordem não retrocedeu. Em ponto microscópico, a ocorrência era uma reedição de Maio de 68.

De fato, Maio de 68 agita-se nas profundezas do nosso dia-a-dia. Basta raspar um pouco as aparências, que ele se ostenta. No início da onda mundial abortista, antinatalista ou do mal denominado “casamento” homossexual, encontramos Maio de 68, bramindo em prol da liberdade total e da libertinagem sexual. Na engenharia genética, que escarnece de toda Lei divina ou natural, deparamo-nos com o espírito amoral da revolução da Sorbonne. Na eutanásia –– para fugir da realidade, porque já não há mais prazer –– encontramos Maio de 68. As pessoas furam suas carnes com piercings, deformam sua pele com tatuagens ou cortam os cabelos malucamente? É a realização do “é proibido proibir”, de Maio de 68. Em toda a desordem que nos circunda não há apenas desarranjos, frutos do pecado original. Está presente também uma metafísica anárquica e libertária, que revoa pelo mundo como uma gargalhada satânica oriunda da revolução da Sorbonne em 1968.

A partir de então as modas entraram em delírio; o bandido, em larga medida, foi glorificado; a autoridade, denegrida no lar, na escola, na fábrica, nos palácios de governo e nas sedes episcopais; a droga virou um como que “sacramento” para aqueles que seguiam o lema “a imaginação tomou o poder”, que os revoltosos proclamavam em 1968; o sentido das leis foi invertido, as fronteiras abolidas, a propriedade considerada roubo; a honradez tornou-se vergonha; o bandido, herói; o pai, um repressor; e o policial, um criminoso. Maio de 68 entronizou a lubricidade e a contestação como ideais. O mundo então “progrediu”, tendendo a rolar para o caos; agigantou-se, inflamado pela anarquia; e “modernizou-se”, afundando no pântano libertário.

Em suma, a Revolução Cultural, que hoje erode os vestígios da civilização, teve data de nascimento: Maio de 68. E uma maternidade: a Sorbonne, a célebre Universidade de Paris. A partir daquele marco histórico, pareceu que nada deteria sua alucinada marcha.

O preço da revolução sorboniana preparou a náusea atual

Revolução da Sorbonne

Mas a anarquia igualitária e sensual de 68 cobrou um horrendo preço. O mundo tornou-se inseguro: na rua, o crime; no lar, a progressiva desestruturação da família; na escola, a droga; na empresa, a revolta e a desorganização; na política, o vale-tudo; na economia, a instabilidade; no plano religioso, a confusão doutrinária, moral, litúrgica e estrutural.

O que o ídolo de Maio de 68 prometeu num primeiro momento foi aparentemente delicioso, mas depois revelou-se repulsivo. E por causa desse alto preço ele perdeu atrativos em muitos espíritos, que entretanto o cultuavam.

Há muito tempo esse ídolo dava sinais de carunchamento. Mas, por ocasião do segundo turno da eleição presidencial francesa, ele rachou estrepitosamente. E logo de vez na própria França. Em Paris, a cidade que o viu nascer!

Recapitulemos.

Sarkozy falou o que seu público queria ouvir

Nicolas Sarkozy, novo presidente francês

Todo político visa, com gestos e palavras, conquistar o maior número de votos. Máxime quando está na reta decisiva da eleição. Para isso ele recorre a “marqueteiros”, que põem em seus discursos o que os eleitores mais desejam ouvir.

O candidato gaullista Nicolas Sarkozy – independentemente de quais sejam seus verdadeiros objetivos – seguiu essa norma. E elegeu-se presidente da França em 6 de maio último.

O que disse ele de mais importante no ápice da campanha, no último grande comício prévio ao pleito decisivo? Que ele queria “virar a página de Maio de 68”, “liquidar” de uma vez por todas o ídolo! E a multidão que o ouvia, lotando o Palais Omnisports de Paris-Bercy, vibrou de entusiasmo. Autoridade! –– prometeu ele, e o estádio veio abaixo. Moral! –– e estouraram os aplausos. Propriedade! –– e ninguém segurou mais os presentes.

Eis alguns excertos desse discurso do recém-eleito presidente francês.

Juízo capitular a respeito de Maio de 68

Cohn-Bendit, um dos líderes de Maio de 68

“Depois de Maio de 68 não se podia mais falar de moral. [...] Maio de 68 nos tinha imposto o relativismo intelectual e moral. Os herdeiros de Maio de 68 tinham imposto a idéia de que tudo era igual, de que não havia diferença alguma entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, entre o belo e o feio.

“Eles tentaram nos fazer acreditar que o aluno era igual ao mestre, que não era preciso dar nota, para não traumatizar os maus alunos, que não era necessária a classificação. Procuraram nos fazer acreditar que a vítima valia menos que o delinqüente. Procuraram nos fazer acreditar que não podia existir nenhuma hierarquia de valores.

"Eles tinham proclamado que tudo estava permitido, que tinha acabado a autoridade, a boa educação, o respeito; que já não havia mais nada de grande, de sagrado, de admirável; que não havia mais regra, que não havia mais norma e nenhuma proibição.

“Lembrai-vos do slogan de Maio de 68 sobre os muros da Sorbonne: “Viver sem constrangimento e gozar sem freio”. [...]

“Vede como os herdeiros de Maio de 68 abaixaram o nível moral da política. [...] Olhai como a herança de Maio de 68 debilitou a autoridade do Estado! Vede como os herdeiros daqueles que em Maio de 68 gritavam "CRS à SS" [polícia de choque contra a SS nazista] adotam sistematicamente o partido dos bandidos, dos vândalos e dos contraventores contra a polícia.

“Vede como eles reagiram após os incidentes da Gare du Nord. Em lugar de condenar os vândalos e de dar seu apoio às forças da ordem, eles não acharam nada melhor para dizer do que esta frase que merece ficar nos anais da República: ‘É inquietante constatar que se aprofunda o fosso entre a polícia e a juventude’.

“Como se os vândalos da Gare du Nord representassem toda a juventude francesa. Como se fosse a polícia a que estivesse errada, e não os vândalos.

“Como se os vagabundos tivessem quebrado tudo e saqueado as lojas para exprimir sua revolta contra uma injustiça. Como se a juventude escusasse tudo.

“Como se a sociedade fosse sempre culpada, e o delinqüente sempre inocente.

“Ouvi os herdeiros de Maio de 68 que cultivam o remorso, que fazem a apologia do comunitarismo, que denigrem a identidade nacional, que ateiam o ódio contra a família, a sociedade, o Estado, a nação e a República”.

“Nesta eleição, trata-se de saber se a herança de Maio de 68 deve ser perpetuada ou se deve ser liquidada de uma vez por todas.

Ségolène Royal defendeu Maio de 68 ante 60.000 pessoas no estádio Sebastien Charléty, em Paris

“Eu quero virar a página de Maio de 68. Mas não basta dar a impressão de fazer isso. Nós não podemos nos contentar com ostentar grandes princípios, mas evitando de inscrevê-los na realidade.

“Eu proponho aos franceses romper realmente com o espírito, com o comportamento, com as idéias de Maio de 68. Proponho aos franceses romper realmente com o cinismo de Maio de 68. Proponho aos franceses de reatar a política com a moral, a autoridade, o trabalho, a nação. [...]

“A ideologia de Maio de 68 estará morta no dia em que a sociedade ousar chamar cada um para o cumprimento do seu dever. Nesse dia ter-se-á completado a grande reforma intelectual e moral de que a França tem mais uma vez necessidade”.(1)

Na posição oposta, a candidata socialista Ségolène Royal defendeu Maio de 68 ante 60.000 pessoas no estádio Sebastien Charléty, em Paris, cenário de uma das cenas mais marcantes da revolta de 1968. A defesa de Ségolène ficou tão aquém do ataque, que confirmou o definhamento do ídolo soixante-huitard.(2)

Opera-se uma inversão no pêndulo da História

Desânimo nas hostes socialistas depois de declarado o triunfo de Sarkozy

O presidente Sarkozy tirará de suas palavras as conseqüências lógicas? O que fará? Como o fará? Fa-lo-á? Ou ficará na mera promessa? Ainda é cedo para dar uma resposta.

Porém, um fato é certo: os milhões de franceses que votaram nele engrossam um movimento de abandono dos princípios, estilos culturais e aplicações práticas de Maio de 68. Não se trata de um movimento minoritário. Ele venceu numa eleição que teve um recorde de participação popular.

O pêndulo da História, que até o presente oscilava rumo à anarquia, no resultado da eleição francesa mostrou que seu curso se invertera. A transcendência do fato é incomensurável, e nós assistimos ao seu nascimento.

Não se pode dizer, porém, que toda a França participa dessa inversão. Basta ver os 47% dos votos obtidos pela candidata das esquerdas.

Acresce também que as violentas arruaças, iniciadas no dia da eleição por anarquistas inconformados com a vitória de Sarkozy, pressagiam polêmicas acesas, polarização e enfrentamentos.

Na Antigüidade pagã, o fato de o ídolo rachar era interpretado como anúncio nefasto. O ídolo igualitário e anárquico de Maio de 68 rachou na França.

Terá empreendido a Filha Primogênita da Igreja o caminho de Damasco, que São Pio X previu profeticamente que um dia haveria de acontecer?

A França tem ainda muito terreno a percorrer, para se poder falar de conversão. Mas a grande lição de Maio de 2007 é que setores decisivos dela dão mostras de estar enveredando pela senda do “filho pródigo”, em direção à casa paterna.

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Notas:

1. Cfr. http://www.sarkozy.fr/press/index.php?mode=cview&press_id=161&cat_id=3⟨=fr.

2. Cfr. http://segoleneroyal.over-blog.com/categorie-768121.html.