Junho de 2007
Lembranças de Frei Galvão
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Entrevista

Lembranças de Frei Galvão

Sobre o primeiro santo brasileiro, comentários do Dr. Tom Maia e de sua esposa, Profa. Thereza Regina de Camargo Maia, diretores do Museu Frei Galvão, em Guaratinguetá (SP)

Dr. Tom Maia: “O pai de Frei Galvão, moço português muito abonado, tinha negócios de madeira no norte da África, se enriqueceu ainda bem jovem e veio para o Brasil”

O casal Tom e Thereza Regina Maia, bem conhecido pelos excelentes livros históricos e artísticos que vêm publicando sobre a arquitetura tradicional brasileira, gentilmente recebeu três colaboradores de Catolicismo Srs. Nelson Ramos Barretto, Luis Guillermo Arroyave e Frederico de Abranches Viotti — para nos conceder esta entrevista, na própria residência dos pais de Santo Antonio de Sant´Anna Galvão, hoje Museu Frei Galvão. É a casa mais antiga de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, e encontra-se restaurada e conservada pelo casal de proprietários, ambos descendentes colaterais de Frei Galvão. O Dr. Tom Maia e Da. Thereza Regina foram muito criticados quando começaram o processo de restauração daquela velha casa, situada em local de grande valor imobiliário. Todos sugeriam que ela fosse demolida para dar lugar a um conjunto de lojas. Mas o casal não se deixou abalar e levou a restauração até o fim, apesar de inúmeras dificuldades. Hoje todos fazem justiça aos beneméritos restauradores, pois graças a eles foi preservado o local de nascimento do primeiro santo brasileiro, agora lugar de peregrinação, onde inúmeros fiéis recebem graças muito especiais por meio do mais ilustre filho de Guaratinguetá, o novo santo recentemente elevado à honra dos altares.

* * *

Catolicismo — Qual o parentesco do Sr. e de Da. Thereza com Frei Galvão?

Dr. Tom Maia José Carlos de França Ferreira Maia é meu nome completo, mas desde menino uso apenas Tom Maia. Sou parente de Frei Galvão em sétima geração, enquanto Thereza é minha “tia”, por ser descendente colateral dele de sexta geração.

Catolicismo — E a senhora, Da. Thereza?

Da. Thereza Regina — Meu nome completo é Thereza Regina de Barros Camargo Maia, sendo Barros do mesmo ramo de Isabel Leite de Barros, mãe de Frei Galvão. E também sou parente dele pelo lado de suas duas irmãs: Ana Joaquina e Ana Francisca.

Catolicismo — Qual o motivo pelo qual Antonio Galvão de França, pai de Frei Galvão, veio morar em Guaratinguetá?

Casa em que nasceu o Santo em Guaratinguetá

Dr. Tom Maia Ele era um moço português muito abonado, nascido em Faro, capital do Algarve. Tinha negócios de madeira no norte da África, se enriqueceu ainda bem jovem e veio para o Brasil. Casou-se em Pindamonhangaba com uma moça filha de um fazendeiro bastante rico, e lá tiveram a primeira filha, Da. Isabel Leite de Barros.

Thereza é parente colateral dessa Isabel de Barros. Descendemos dela e também de irmãos de Frei Galvão. O casal muito abastado, chegando a Guaratinguetá, construiu essa edificação em seis lances, seis blocos de construção que iam daqui até o ribeirão, que recebeu o nome de Ribeirão dos Galvão, com a Ponte dos Galvão que existe até hoje.

Da. Thereza Regina — Havia junto a essa construção um comércio de beira de estrada, pois aqui era um caminho para os tropeiros irem para São Paulo, Rio e Minas.

Catolicismo — Conhece-se o motivo que levou o pai de Frei Galvão a vir morar nesta então Vila de Guaratinguetá?

Dr. Tom Maia Não, não se sabe. Aqui era uma vila bem menor que Taubaté, que era a grande vila do vale.

Da. Thereza Regina — Consta que ele tinha um irmão sacerdote, que dois anos antes desembarcara em Parati e veio para Cunha, que ficava no caminho de Guaratinguetá.

Dr. Tom Maia No trajeto de Parati para Pinda, o pai de Frei Galvão teria passado por Guaratinguetá. Conheceu a terra, gostou naturalmente dos ares e construiu aqui a casa, muito grande para uma vila modesta de apenas mil habitantes. Logo que aqui chegou, foi nomeado capitão-mor e se constituiu praticamente em um banco. Quando morreu, o banco era credor de uma dívida ativa muito grande, todos deviam a ele. Além de comerciante, era um capitalista rico que emprestava muito dinheiro. Mas era eminentemente religioso, tinha o hábito de todas as noites reunir às sete horas a família, os escravos e os amigos, para rezar o terço antes de dormir. Exigia a presença de todos. Quando veio para Guaratinguetá, já era irmão da Ordem Terceira de São Francisco em Taubaté, que era o maior centro do vale, com 1.750 habitantes, maior inclusive que São Paulo, que contava apenas 1.518 habitantes.

Catolicismo Capitão-mor era uma espécie de juiz, prefeito, uma espécie de senhor feudal?

Dr. Tom Maia Era tudo: prefeito, vereador, presidente da câmara, dono da terra e o homem que todos tinham de respeitar — era como que o senhor feudal daquele tempo. Era um homem bom, religioso e poderosamente rico. Os filhos foram criados num ambiente muito religioso, na matriz de Santo Antônio, em Guaratinguetá, onde Frei Galvão fez sua primeira comunhão.

Seguindo o exemplo de um irmão, o menino de 13 anos foi estudar na Bahia com os jesuítas no mosteiro de Belém, grande educandário daquele tempo. Ele tinha o mesmo nome do pai, Antonio Galvão de França. Pediu para ser jesuíta, e o pai o mandou para o recôncavo baiano. Do mosteiro de Belém resta hoje a igreja de Belém, na cidade de Cachoeira.

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