Fevereiro de 2018
Idade Média: caluniada por ser realização da Cristandade na História
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Idade Média: caluniada por ser realização da Cristandade na História

Recentes estudos históricos vêm desmentindo, de modo crescente, as detrações revolucionárias lançadas contra aqueles séculos de Fé

Plinio Corrêa de Oliveira

Idade Média! Assunto não raramente abordado com preconceitos e menosprezo, mas que não deixa de suscitar curiosidade, interesse e polêmica.

De fato, na Europa, e mais especialmente na França, a produção literária sobre esse período histórico não cessa. E tal produção tem se caracterizado por um aprofundamento científico-histórico, portanto mais objetivo, a respeito de uma época histórica que era freqüentemente ignorada ou depreciada.

Assim, no final do ano passado, uma comissão de 600 autores dirigidos por outra comissão de 30 peritos publicaram -- após seis anos de trabalhos -- um Dicionário Enciclopédico sobre a Idade Média, sob a direção de André Vauchez (Dictionnaire encyclopédique du Moyen ?ge, Cerf/Citta nuova/Clarke, dois tomos, 1696 páginas).

Outros exemplos poderiam ser mencionados que manifestam que "o século XX que finda nada perdeu deste gosto pelo patrimônio e os homens do ano mil", como afirma a conhecida revista parisiense "L'Express" (20-11-97).

Catolicismo já teve oportunidade de apresentar documentadamente, em diversas ocasiões, uma visão objetiva da civilização medieval, bem como, a refutação de balelas que circulam a respeito desse período (1), ao qual Leão XIII se referiu em termos especialmente elogiosos: "Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil." (Encíclica "Immortale Dei", de 1º-11-1885 - "Bonne Presse", Paris, vol. II, p. 39).

Na presente edição, temos a grata satisfação de poder oferecer a nossos leitores um texto precioso para a sua formação cultural histórica: os excertos mais importantes de conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (2), na qual o ilustre pensador católico expõe, em uma sintética e brilhante visão de conjunto, a beleza e a harmonia desse edifício medieval.

Nessa exposição fica patente - ao contrário de imputações falsas disseminadas contra tal era histórica - a harmonia social então reinante, graças à influência da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Nela se comprova igualmente o significativo grau de civilização alcançado pelos medievais, sobretudo se comparado com a situação aviltante em que viviam largas parcelas das populações da Antiguidade pagã, como no Império Romano ou no Egito antigo.

As sombras que se podem notar no panorama medieval - o qual abrange 1.000 anos de história, em que os resquícios de barbárie foram sendo extirpados pela Igreja Católica - não empanam as luzes extraordinárias do quadro geral.

* * *

Antes de tratar das três revoluções(*), considero indispensável a exposição do que foi a ordem católica medieval, objeto da sanha do processo revolucionário. Isto porque não há melhor meio de mostrar como a Revolução(**) foi odiosa, do que revelar o que havia de bom naquilo que ela destruiu.

* Pela expressão "três revoluções" o autor se refere às três grandes revoluções ocorridas após a Idade Média, ou seja: a Pseudo-Reforma protestante no século XVI, a Revolução Francesa no século XVIII e a revolução comunista no século XX. Este tema será objeto de outro artigo na próxima edição.
** O termo Revolução, com inicial maiúscula, designa o processo revolucionário anticatólico que se desenvolveu a partir do fim da Idade Média, descrito pelo autor em sua obra Revolução e Contra-Revolução.

Essa ordem católica concretizava-se numa hierarquia em que as várias classes sociais - entre as quais havia uma transição perfeita - resultavam da própria ordem natural das coisas.

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