Junho de 2001
Estaríamos sós no Universo Sideral
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Ciência

Estaríamos sós no Universo Sideral

Novos rumos na Ciência indicam: haveria vida inteligente apenas na Terra

Rosário A. F. Mansur Guérios

Desde o momento em que o primeiro homem contemplou as estrelas, até hoje, a profusão delas tem sugerido muitas cogitações. Dentre estas, em muitos espíritos aflorou a seguinte indagação: nós, seres racionais, estaremos sós no Universo Sideral?

Por um lado, parece difícil imaginarmo-nos sós, quando sabemos que as numerosíssimas estrelas visíveis a olho nu são apenas parcela ínfima das incontáveis galáxias com bilhões de estrelas. Por outro lado, de quando em quando são difundidas novas descobertas que sugerem hipóteses sobre a existência de outros sistemas solares com planetas, se não com vida igual, ao menos semelhante à da Terra. Não seria uma pretensão descabida nos imaginarmos os únicos habitantes vivos dotados de inteligência e vontade, no Universo Sideral?

Para ilustrar uma tendência generalizada em certos meios científicos atuais, tomemos a seguinte notícia: Planetas como a Terra podem ser comuns na galáxia (“O Estado de S. Paulo”, 21-2-01). Nela se afirma:

1. Astrônomos da Universidade de Toronto, em reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em São Francisco, anunciaram que “mais da metade das 100 bilhões de estrelas da Via Láctea podem ser orbitadas por planetas de tamanho similar ao da Terra”.

2. Isso “favorece a tese de que pode haver vida abundante em outros sistemas planetários”. Porque, tendo os cientistas canadenses estudado a luz emitida por estrelas semelhantes ao Sol, “concluíram que pelo menos metade delas — e possivelmente até 90% — em toda a galáxia queimam grandes quantidades de ferro, um indício da presença de planetas rochosos como a Terra”. Acrescenta o coordenador do estudo, Norman Murray: “É mais uma indicação de que a vida pode ser comum na nossa galáxia” (os destaques nesta e nas demais citações são nossos).

3. Um dado concreto que pareceria confirmar essa tese: “A equipe analisou a luz de 640 estrelas e encontrou evidências de queima de ferro em 466 delas. Os resultados foram então extrapolados para abranger toda a galáxia”.

Como se sabe que para haver vida é necessário água, a notícia prossegue: “Um outro grupo de cientistas anunciou ter encontrado moléculas de carbono e grandes quantidades de vapor d’água — dois dos principais ingredientes para a vida — próximo de regiões de formação de estrelas. ‘Isso fortalece bastante a possibilidade de existir vida além do nosso sistema’, disse o pesquisador Martin Kessler, da Agência Espacial Européia”.

Vida banal em toda nossa galáxia?

Quer dizer, da Califórnia à Europa a comunidade científica pareceria afirmar que a vida poderia ser algo recorrente em toda a nossa galáxia e, portanto, banal. Equivocar-se-iam, pois, os que pensam que nosso mundo tenha algo de especial e único. Nós, na realidade, seríamos como ervas que brotam em qualquer lugar, sujeitos à extinção ou a “nascer” por impacto de asteróides ou cometas, como certos cientistas acreditam ser o modo como se originou a vida em nosso planeta.

A notícia não nega uma divindade criadora nem uma Providência divina. Ela ignora inteiramente a questão. E se a realidade for como a descrita, a grandeza do drama que se desenrola sobre a Terra, de uma humanidade criada para glorificar a Deus, decaída pelo pecado de nossos primeiros pais e redimida por Nosso Senhor Jesus Cristo, pareceria enormemente reduzida. Essa impressão se forma, ainda que difusamente, em quem lê notícias similares à citada.

Desfazer impressões difusas é extremamente árduo. Contribuem para isso múltiplos fatores, um dos quais convém analisar: o triunfo da ciência sobre a “ignorância”. Essa impostação poderia ser reduzida a uma regra de três: assim como, no passado, as teorias de Copérnico e Galileu “venceram” a ignorância e desfizeram o mito de que a Terra era o centro do Universo, também agora, quem não concorda com a visualização sugerida pelas descobertas científicas atuais arrisca-se a ter, no futuro, de reconhecer seu erro e pedir perdão...

Consideremos, porém, a citada notícia: existe alguma prova apresentada em favor da tese de que há vida abundante no Universo? Nenhuma. Na realidade, os cientistas em questão baseiam-se em indícios e extrapolações para chegar à conclusão (apressada) de que existiriam “bilhões de sistemas solares com potencial para abrigar a vida”, ainda que “apenas 1% das estrelas da Via Láctea tiver planetas rochosos à sua volta” (OESP, ib.). Que credibilidade dar a isso? É o que veremos a seguir.

Obras científicas contra-corrente: silêncio da mídia

Há algo de novo nos próprios meios científicos — dentre os mais qualificados — e que abala as “certezas” midiáticas. Como era previsível, esses novos estudos e publicações têm pouca ou nenhuma repercussão junto à mídia brasileira. Esta, de modo especial, só tem “olhos” para aquilo que ela quer ver. E vendo, silencia fatos que lhe são desfavoráveis, apresentando apenas o que lhe convém. Não fosse assim, já teríamos repercussões a propósito do que ocorre nos meios científicos e editoriais dos Estados Unidos e da Europa — conforme noticiamos em artigo anterior sobre evolucionismo e criacionismo (cfr. Catolicismo, nº 596, agosto de 2000) —, onde um número crescente de cientistas vem publicando estudos, livros e artigos contestando dogmas evolucionistas.

Recentemente veio a lume um livro que trata exatamente desse tema: Rare Earth: Why Complex Life Is Uncommon in the Universe (Sós no Universo: Por que a vida complexa é incomum no Universo), 333 pp., publicado pela editora Copernicus, em 2000. Os autores são dois cientistas norte-americanos, Peter D. Ward e Donald Brownlee, ambos professores da Universidade do Estado de Washington, em Seattle. O paleontólogo Ward é professor de Ciências Geológicas e especialista em extinções maciças. Brownlee é professor de Astronomia, e lidera a missão Stardust (Poeira de Estrelas) da NASA, e é especializado no estudo das origens de sistemas solares, de cometas e meteoritos. É membro da Academia Nacional de Ciências.

O enfoque adotado pelos professores Ward e Brownlee é muito original. Convencidos de que a vida no Universo é menos disseminada do que se supõe, resolveram explicar o porquê. Com franqueza admitem: “Não podemos provar” que a vida animal seja rara no Universo. Prova é algo raro em ciência. Nossos argumentos são post hoc, no seguinte sentido: examinamos a história terrestre e procuramos chegar a generalizações a partir daquilo que vimos aqui” (op. cit. p. IX).

Contraponto à mediocrização da Terra (e do homem)

E prosseguem: “Nós manifestamos uma posição muito pouco adotada, mas cada vez mais aceita por muitos astrobiólogos. Formulamos uma hipótese zero face às ruidosas afirmações, quer por parte de muitos cientistas como pela mídia, de que a vida — .... quer de alta ou baixa inteligência — está por aí, ou mesmo que animais simples como vermes sejam freqüentes por toda parte. Talvez, apesar das incontáveis estrelas, nós sejamos os únicos animais ou, pelo menos, estamos entre os poucos escolhidos. Aquilo que tem sido qualificado de Princípio de Mediocridade — a idéia de que a Terra é apenas uma entre miríades de mundos semelhantes que contêm vida — merece um contraponto. Daí a razão do nosso livro” (pp. IX-X).

A notícia que citamos acima apresenta como novidade as estimativas de que bilhões de estrelas em nossa galáxia teriam planetas. Entretanto, conforme registram os autores de Sós no Universo, dois astrônomos, Frank Drake e Carl Sagan, nos anos 70, já levantavam essa mesma hipótese, e iam além: a vida inteligente deveria ser comum e difundida por toda a galáxia. “Carl Sagan estimou, em 1974, que um milhão de civilizações poderiam existir apenas em nossa Via Láctea. Dado que nossa galáxia é uma em centenas de bilhões de galáxias no Universo, o número de vida inteligente de espécies diversas seria enorme” (p. XIV).

“Isso é crível?” — perguntam os autores de Sós no Universo. A equação de Drake, prosseguem, supõe que uma vez que a vida exista num planeta, ela evolui cada vez mais rumo a maior complexidade, culminando, em muitos planetas, no desenvolvimento da cultura” (p. XIV). Mais uma vez, mera suposição!

Características indispensáveis para a vida: especialíssimas no Universo

Os professores Ward e Brownlee ao longo do livro enumeram características próprias ao nosso sistema solar e planetário, bem como da própria Terra, favoráveis ao surgimento e manutenção da vida, e que dificilmente se repetiriam no Universo. Dentre essas características, destacam: “Nosso planeta tem um tamanho adequado, uma composição química e uma distância do Sol conveniente para permitir o surgimento da vida” (p. XXII), bem como a quantidade de água em estado líquido. Apenas um detalhe: se a Terra estivesse 5% mais próxima do Sol, “continuamente teria o ‘efeito estufa’” e o homem não poderia sobreviver; e se estivesse 15% mais distante, “continuamente teria glaciação” e, igualmente, o homem não suportaria. “Ambos os fatores são considerados irreversíveis” (pp. 18-19). A órbita da terra está, portanto, no ponto exato para a vida humana.

Júpiter, como pára-raios, protege a Terra dos impactos siderais

“Outro fator que claramente está envolvido no surgimento e na manutenção de formas de vida superiores na Terra é a raridade relativa de impactos de asteróides e cometas. .... O que controla este baixo índice de impactos? A quantidade de material deixado num sistema planetário após sua formação pode influenciar nesse índice: quanto mais cometas e asteróides há entre as órbitas dos planetas, maior é o número de impactos e há mais chance de extinções maciças devido a eles. Mas não só isto. Os tipos de planetas num sistema podem também afetar o número de impactos, e assim desempenhar um papel inapreciável na evolução e manutenção dos animais. No caso da Terra, há sinais de que o gigante planeta Júpiter atua como um ‘pára-raios de cometas e asteróides’. .... Assim ele reduziu a freqüência de extinções maciças, e talvez seja esta uma razão especial de por que foi possível surgir e manter-se em nosso planeta formas superiores de vida. Qual a freqüência de planetas do tamanho de Júpiter?” (p. XXII).

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