Julho de 2006
O convento-fortaleza de Tomar e a Cavalaria de Cristo
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Esplendores da Cristandade

O convento-fortaleza de Tomar
e a Cavalaria de Cristo

W. Gabriel da Silva

A Cavalaria, que um autor francês chamou de “a mais bela aventura da História”, é fruto do amor de Deus numa época em que sociedades inteiras moviam-se em conformidade com os 10 Mandamentos e as leis da Igreja. São Miguel Arcanjo, príncipe da milícia celeste, é o patrono da Cavalaria. Enquanto instituição, ela nasceu das relações feudais, pelas quais os homens se apoiavam mutuamente para defender-se ante as freqüentes invasões bárbaras. Essa confiança mútua baseava-se na noção de honra lastrada na caridade cristã.

Dentre as mais célebres ordens de cavalaria destaca-se a dos Templários, criada em 1119 na Cidade Santa por cavaleiros francos. Seu nome liga-se ao Templo de Salomão. Sua divisa era: “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam” (Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso Nome dai glória). Faziam o voto de não recuar nas batalhas. Por isso eram terríveis e temíveis, impondo profundo respeito aos inimigos.

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Convento-fortaleza de Tomar, no Ribatejo

Com exceção das duas primeiras cruzadas, as sucessivas foram muitas vezes marcadas por desastres, devido às misérias humanas: cobiça, intriga, vanglória, etc. Com o fim do Reino franco de Jerusalém, as ordens de cavalaria refluíram para a Europa. A dos Templários foi das mais prósperas, chegando a possuir, só na França, cerca de 9.000 commanderies (espécies de fazendas fortificadas). Seu patrimônio, adquirido mediante doações, era imenso. Mas seu ideal infelizmente já entrara em decadência.

No começo do século XIV, era rei de França Filipe IV, o Belo — homem de espírito revolucionário, oposto ao de seu avô São Luís IX. Em disputa com o Papa Bonifácio VIII, mandou esbofeteá-lo em Anagni, o que provocou a morte do Pontífice por desgosto, pouco depois, em 1303. Em 1305, subia ao trono de São Pedro o francês Bertrand de Got, com o nome de Clemente V. Sensível às instâncias do rei francês, o novo Papa mandou fechar, em 1312, a Ordem do Templo, baseado em acusações graves e obscuras, que até hoje a História não desvendou cabalmente. E a coroa francesa apossou-se dos bens da Ordem.


Ora, os templários estavam também em Portugal desde os tempos de D. Afonso Henriques, e ali nenhuma suspeita pôde ser contra eles levantada. Nem por isso estavam isentos de sofrer a mesma punição. Foi hábil a decisão do Rei D. Dinis de Portugal, de executar a ordem pontifícia de fechar a Ordem, mas não para apossar-se de seu patrimônio, e sim para doá-lo à Ordem Militar da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou simplesmente Ordem de Cristo, que criou em 1318. O Papa João XXII nomeou D. Gil Martins seu primeiro grão-mestre, que antes o fora dos cavaleiros de Aviz. Quis El-Rei que a nova Ordem tivesse seu quartel-general em Castro Marim, para defender o Algarve das incursões dos mouros dos reinos do Marrocos e de Granada. Em 1356, transferiu-se para Tomar, no Ribatejo. Ali existiam, desde 1160, o castelo e o convento dos templários, doados à Ordem de Cristo.

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Naus da esquadra de Pedro Álvares Cabral que descobriu o Brasil

Sete mestres cavaleiros teve a Ordem de Cristo até ser nomeado seu Regedor o Infante D. Henrique, Conde de Viseu, chamado o Navegador (1394-1460). Daí em diante ficou ela vinculada à Casa Real. Herdou esse governo D. Manuel, o Venturoso, conservando-o durante todo o seu reinado. Dispondo a Ordem de grandes recursos, empregou-os D. Henrique em seus projetos de navegação, com vistas à expansão da fé cristã e à conversão dos povos pagãos.

Foi assim que as naus comandadas por Pedro Álvares Cabral vieram ter ao Brasil, tendo estampadas em suas velas a Cruz de Cristo, símbolo da Ordem que patrocinava as navegações, e à qual o descobridor da Terra de Santa Cruz também pertencia como cavaleiro.

As ordens de cavalaria representaram uma das mais altas expressões do espírito cristão, que é o espírito de luta. A vida do católico neste mundo é um combate, pois ele pertence à Igreja Militante. O Lutador por excelência foi Nosso Senhor Jesus Cristo, que levou o seu combate até à agonia e morte na Cruz. Agonia, em grego, quer dizer precisamente luta.

Nessa perspectiva, o convento-fortaleza de Tomar pode ser considerado um dos lugares mais sagrados de Portugal.

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