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Vidas de Santos

São Felipe Neri: fundador, orador e baluarte da ortodoxia

Ascensão contínua rumo a graus de perfeição cada vez mais altos e abrasado amor a Deus caracterizaram a vida do “Apóstolo de Roma”

Luiz Carlos Azevedo

São Felipe Neri
Na festa de Pentecostes do ano de 1544, um varão florentino de vinte e nove anos suplicava ardentemente ao Divino Espírito Santo que lhe concedesse a plenitude de seus dons. Subitamente, sentiu ele seu coração de tal modo abrasado do amor divino, que, não mais podendo conter-se em pé, atirou-se por terra, entreabrindo as próprias vestes sobre o peito, a fim de refrescar tanto ardor.

A partir de então, o homem de Deus sempre experimentou contínua palpitação e estremecimento do coração, sobretudo quando se ocupava das coisas divinas. Na oração, suas consolações sobrenaturais eram tão grandes, que chegava a ponto de desfalecer, o que o levava a dizer: “Afastai – Vos, Senhor, afastai – Vos porque a fraqueza mortal não resiste a uma alegria tão intensa. Eis que morro, se não vierdes em meu socorro”.

Assim, ébrio do Espírito Santo, São Felipe Neri (1515 – 1595) dirigia-se às escolas, às tabernas, às praças públicas para conquistar almas para Deus. Sua festa comemora-se no dia 26 do corrente.

Vocação

A vocação divina tardou em manifestar-se claramente a São Felipe. Poder-se-ia crer, sendo ele chamado a ser o fundador de uma congregação religiosa –– a dos oratorianos –– que a Providência o conduziria pela mão até a realização dessa obra, e que a vontade divina lhe indicaria logo o caminho.

Entretanto, a realidade não foi essa. Os homens providenciais por vezes hesitam, tateiam, parecem até encetar um falso caminho; outras vezes tem-se a impressão que eles se desencorajam e se faz noite sobre suas resoluções e desejos mais santos: é a estrela guia dos Reis Magos –– em sua viagem a Belém –– que se eclipsa de tempos em tempos!

São Felipe teve um desejo ardente de ir às Índias, pois invejava o martírio, o destino daqueles que partiam para não mais voltar. E foi preciso que uma voz celestial o demovesse de tal intuito: “Felipe, é vontade de Deus que vivas nesta cidade [Roma], como se estivesses num deserto”.

Ele obedece, e a Cidade Eterna se transforma para ele num deserto. Nesse deserto repleto de pecadores, as multidões se acercam dele, sem perturbar-lhe a solidão. Ele fala, ensina, exorta e sobretudo reza.

Oratória

Um dos mais poderosos meios que utilizava para a conquista das almas eram as conferências públicas espirituais, às quais concorriam Cardeais, Bispos, sacerdotes e leigos.

São Felipe, ademais, reunia à sua volta turmas de rapazes desgrenhados e de modos pouco civilizados; fazia-os rezar e cantar, mais ainda, para afastá-los dos teatros e divertimentos perigosos, realizava os oratórios espirituais, isto é, representações teatrais de cenas bíblicas. Daí o nome de Oratório, dado à sua obra. E ainda hoje o termo conserva esse sentido, ou seja de um gênero musical dramático, que versa sobre assunto religioso, tirado quase sempre das Sagradas Escrituras, com solos, coro e orquestra.

O Papa Gregório XIII aprovou a instituição dos oratorianos, dando a São Felipe –– logo chamado de “o Apóstolo de Roma” –– a casa e a igreja de Santa Maria de Vallicella.

Perseguição

No final do pontificado de Paulo IV, por volta de 1558, São Felipe é perseguido. Acusam-no de fomentar uma seita, de criar conventículos que ele expunha à heresia.

Tacham-no de ambicioso, de fautor de novidades, e submetem-no a uma investigação de várias horas, no mês de agosto daquele ano. Tem de comparecer depois perante o tribunal da Inquisição, no qual havia sido aberto um inquérito sobre seus procedimentos.

Em 1570, o grande Papa São Pio V também recebe queixas relativas às conferencias de nosso santo. O Pontífice envia então separadamente, à revelia um do outro, dois argutos doutores, para bem examinar e ouvir tudo que desejassem do próprio São Felipe. Ambos retornam ao Santo Padre maravilhados com a ciência e sobretudo com a santidade do fundador dos oratorianos.

Contra o protestantismo

São Felipe deu um contributo notável à luta contra o protestantismo, completando de algum modo a obra do Concílio de Trento, o qual opusera à heresia de Lutero a doutrina da Igreja, fielmente deduzida das Sagradas Escrituras e da Tradição. Porém, os pseudo-reformadores protestantes haviam distorcido também a História da Igreja, a fim de caluniá-la.

À vista disso, Felipe ordenou a um de seus filhos espirituais, César de Baron –– futuro Cardeal, mais conhecido sob o nome de Baronius –– que escrevesse uma História da Igreja, desde Jesus Cristo até aqueles dias, resumindo as antigas histórias, os atos dos mártires, as vidas dos santos, os escritos dos Santos Padres, as ordenações dos Concílios, ano por ano, a fim de desfazer as falácias protestantes.

Em meio àquela faina, no ano de 1572, Baronius esteve à beira da morte. Felipe rezou por ele: “Senhor, dai Baronius, restituí-mo: eu o quero”. Como Nosso Senhor recusasse, voltou-se ele para Nossa Senhora, que lhe deu a saber que sua oração fora atendida. Com efeito, Baronius restabeleceu-se no dia seguinte.

O valente Baronius pôs mãos à obra, e de 1588 a 1607 (ano de sua morte) publicou os anais dos doze primeiros séculos da Igreja, em doze volumes, coadjuvado por dois irmãos oratorianos, Odorico Reinaldo e Jacó Laderchi.

Sua trilha foi continuada pelo dominicano polonês, Abraham Bzovius, pelo Bispo de Pamiers, Henrique de Sponde (1640) e pelos dois franciscanos franceses Antonio e Francisco Pagi. De modo que, de 1738 a 1756, o Arcebispo de Luca, Mansi, publicou em trinta e oito volumes in folio esses anais portentosos, iniciados por Baronius.

Amigo de Papas e Santos

São Felipe foi amigo de vários Papas: Clemente VIII, a quem curou milagrosamente de uma gota com um forte aperto de mão, Paulo IV, São Pio V e Gregório XIV. Manteve amizade também com vários outros santos: o Cardeal São Carlos Borromeu, que, ajoelhado diante dele, pediu-lhe várias vezes que o deixasse beijar suas mãos; Santo Inácio de Loyola, que gostava de estar junto dele, em silêncio, para admirá-lo; o Beato Alexandre Sauli, apóstolo da Córsega; São Camilo de Lélis, que sob sua orientação fundou a Congregação dos Clérigos Regulares para serviço dos enfermos.

Felipe Neri morreu em 26 de maio de 1595, foi beatificado por Paulo V em 1615 e canonizado por Gregório XV em 1622.

Depois de morto, os médicos puderam verificar que o seu coração era insolitamente volumoso, e que duas costelas se tinham curvado e fraturado para deixar livres as pulsações cardíacas, cheias de amor para com Deus e para com os homens.

 

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Obras consultadas:

1. José Leite, SJ., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, Portugal, 1987, vol. II.

2. Ernest Hello, Physionomies des Saints, Perrin et Cie., Libraires-Éditeurs, Paris, 1900.

3. Narcel Jouhanceau, Saint Philippe Neri, Plon, Paris, 1957.

4. Pe. Rohrbacher, Vida dos Santos, Editora das Américas, São Paulo, volume IX.

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