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Entrevista

 

Depois das eleições nos Estados Unidos, conservadores de olho no futuro

Catolicismo, através de seu correspondente em Washington, Mário Navarro da Costa, analisa o atual quadro político norte-americano, que sofreu drástica reviravolta com a surpreendente derrota do Partido Democrata, do Presidente Bill Clinton, nas últimas eleições legislativas.

Essa análise é feita mediante entrevista concedida pelo influente líder conservador norte-americano Sr.Morton C. Blackwell ao nosso correspondente, na sede central do Conselho para Política Nacional em Arlington, Virgínia.

Ele é o fundador do Leadership Institute (Instituto de Liderança), que desde 1979 treina jovens de ambos os sexos para cargos de responsabilidades na administração pública dos Estados Unidos. O Sr. Blackwell foi secretário de ligação entre a Casa Branca (presidência de Reagan) e grupos conservadores, religiosos e cívicos. É representante do estado de Virgínia no Comitê Nacional do Partido Republicano. Ocupa presentemente o cargo de diretor-executivo do Conselho para Política Nacional, influente fundação educacional composta de 500 líderes das mais importantes associações conservadoras norte-americanas.

Catolicismo - Gostaria de começar por pedir-lhe uma análise da vitória do Partido Republicano nas últimas eleições.

Morton Blaekwell: Nestas eleições o povo não estava apenas descontente. Ele estava organizado em grande npumero de grupos atuantes e pôde aprender com os meios de comunicação social que não fazem parte da mídia liberal [esquerdista] organizada.

Algumas pessoas atuaram primeiramente em organizações antiabortistas. Outras agiram contra o sindicalismo obrigatório. Outras ainda participaram através de grupos a favor da limitação dos impostos ou a favor do reforço de nossa defesa nacional. Por mais importantes que sejam os partidos políticos, há organizações muito mais importantes do que eles.

Seja por rádio, televisão, boletins, revistas, mala direta, grupos interessados em temas especificamente conservadores têm desenvolvido meios alternativos de comunicação. A imprensa liberal não pode mais filtrar as notícias para o público americano, como ela fazia no passado.

É possível agora ao público norte-americano saber o que está acontecendo através de fontes conservadoras. Essa infra-estrutura de comunicações independente aumentou o número de ativistas conservadores.

A vasta maioria do povo, em qualquer país, de um modo geral, não atua na política. É o número e a efetividade dos ativistas de cada lado que determinam, que vencem os prélios políticos.

Em essência, o que aconteceu é que os conservadores colocaram em ação uma grande parte de suas bases, sobreujando conseqüentemente os liberais. Isso mudou o resultado das eleições nos Estados Unidos.

 

Catolicismo - Uma palavra sobre o Contract With America (Pacto com a nação ).(*) Na sua opinião, quais são os itens mais importantes e que estratégia deveria ser empregada para conseguir sua aprovação?

Morton Blackwell - Pela segurança de nosso país em relação a perigos facilmente visíveis, acho que o item relativo aos mísseis de defesa estratégica é o mais importante do Pacto.

Porque, quebrando os hábitos de despesas descontroladas do Congresso, a capacidade do Presidente de vetar as despesas do Congresso pode, quando houver um presidente conservador, provar ser eficaz para equilibrar o orçamento.

Em política, o melhor é organizar-se a partir dos pontos fortes e depois dos fracos. Deve-se organizar primeiro o que há de melhor, depois o que vem em segundo lugar, depois o que vem em terceiro e assim por diante. Isso é o bom senso em matéria de eleições. No Legislativo, a liderança republicana devia começar com os aspectos do Pacto mais fáceis de passar. E criar a ocasião para obter a aprovação do resto.

Os republicanos deveriam não apenas honrar os compromissos feitos, mas também fazer o povo entender que os compromissos foram honrados. Os republicanos deveriam tornar claro como um cristal que esforços de boa fé estão sendo feitos para aprovar todos aqueles itens.

Em todas as exposições sobre o Pacto, os candidatos republicanos prometeram levar à votação todos os itens do Contrato. Não havia garantia explícita ou implícita de que todos os itens do Contrato iriam ser aprovados.

Nem todos os itens do Contrato com a América serão aprovados. Mas eles deviam ser apresentados, debatidos e votados, de maneira que ficassem claras as diferenças entre liberais e conservadores. Nas próximas eleições os eleitores poderão fazer seu próprio julgamento.

Em política, não é necessário vencer todas as batalhas. Em geral é possível vencer a longo prazo por meio de derrotas a curto prazo. Pode-se, portanto, em eleições futuras, cobrar os políticos que votaram mal.

 

Catolicismo - Não há menção à questão do aborto no Contrato com a América. O Sr. não acha que os conservadores sociais vão ficar frustrados se nada for feito a esse respeito?

Morton Blackwell - Absolutamente. É verdade que a questão do aborto não está no Contrato. Mas seria muito chocante se não se promovessem ações específicas a respeito este ano.

Há certas coisas que podem ser feitas contra o aborto e que são relativamente fáceis de fazer. Há uma maioria republicana atualmente no Congresso. Assim, é possível anular em boa medida o envolvimento do governo federal na promoção do aborto neste país e no Exterior. Isso poderia ser feito através de processo de apropriação de fundos (destinação de verbas).

O Presidente não pode gastar dinheiro em iniciativas para as quais o Congresso não aprovou verbas. Espero progressos definidos nesse sentido. O que pode ser feito deveria ser feito e, creio eu, provavelmente será feito.

Não acredito que hoje em dia haja maioria de dois terços dos votos em cada uma das casas do Congresso para que uma emenda constitucional reverta a decisão Roe x Wade [nome com que ficou conhecida a decisão da Suprema Corte], que derrubou todas as leis contra o aborto neste país. Mas isso não é razão para não votar tal emenda no atual Congresso.

 

Catolicismo - Uma palavrinha sobre a política exterior. Apesar da extinção da União Soviética e do império  comunista na Europa Oriental, ainda vivemos num mundo muito perigoso.

Morton Blackwell- A morte da União Soviética não significa a morte da ideologia esquerdista. Esta ainda está com a cabeça de fora e atuante.

Há muita gente interessada em fazer crer que no próximo século os EUA já não serão capazes de desempenhar o papel de combate às atividades internacionais da esquerda que teve no passado.

As esquerdas norte-americanas, entretanto, encontram-se em considerável desorganização. Elas não têm um porta-voz autorizado; estão descontentes com as dificuldades de seus líderes políticos. Agora elas estão focalizando assuntos globais. A esquerda neste país está pondo ênfase em entidades internacionais e tratados que poderiam minar a soberania nacional. Acho que a intenção da esquerda aqui é continuar sua política de longo prazo pela consolidação e centralização do poder, através de entidades internacionais como a ONU.

A esfera internacional, entretanto, é uma área onde os conservadores geralmente não fazem muita coisa. Eles tendem a limitar suas preocupações aos assuntos nacionais. Nunca houve cooperação internacional satisfatória entre os conservadores. É um erro terrível que precisa ser corrigido. Discuti isso há mais de uma década em São Paulo com o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira.

Uma das grandes alegrias que tive ao conhecer a TFP em outros países foi precisamente o espírito de cooperação. Tive o prazer de estar com gente da TFP nos Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha, África do Sul, Chile, Argentina e Brasil. Os membros da TFP são sempre uma força bela e entusiasmada a trabalhar pela melhoria dos países onde vivem.

 

Catolicismo - Um último ponto. O Sr.  esteve trabalhando durante anos como presidente do Instituto Liderança. Este tem-se destacado na formação de verdadeiras elites conservadoras. O Sr. poderia dizer uma palavra sobre isso?

Morton Blackwell- Infelizmente a palavra elite tem sido muito estigmatizada pela esquerda.

Quando me propus a tarefa de formar a juventude conservadora, não pensei que fosse criar elites. O termo liderança é precisamente o que me veio à mente e assim empreguei-o para nomear minha organização.

 É claro que o Sr. usa a palavra elite no seu verdadeiro significado, como Dr. Plinio a emprega em seu livro Nobreza e elites tradicionais análogas. Nesse sentido, ele fala de liderança.

Toda sociedade tem líderes. Eles podem ser bons ou maus líderes. Precisamos aumentar o número e a efetividade de pessoas votadas a fazer coisas boas. É para o que venho trabalhando, ao proporcionar programas de formação nas mais diferentes áreas da atividade pública.

A cada ano formamos no Instituto mais estudantes do que no ano anterior. No ano passado treinamos 1.609 pessoas em nossas escolas. Expandimos nossos serviços colocando mais de 600 em cargos públicos de responsabilidade.

Também expandimos nossas bases de sustentação. No fim do ano passado compramos um prédio de cinco andares para acomodar nossa equipe, escolas e estudantes.

Agora estou levantando fundos para reformá-lo.

Nossa receita foi de mais de 4 milhões de dólares no ano passado. Meu maravilhoso staff trabalha duro. Eu precisava de uma muito boa equipe porque vivi muitos anos na intersecção de supply and demand no jovem mercado de empregos conservador. Se não escolhesse bom pessoal, eu não passaria de um pobre observador do que vejo diante de mim todo dia.

 

Catolicismo - Muito obrigado.

Morton Blackwell - Foi um prazer.

 

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NOTA: Pacto com a Nação - Plataforma política conservadora do vitorioso Partido Republicano, que visa, entre outros pontos, a diminuição do papel do Estado na sociedade norte-americana, com redução de impostos e menos ingerência estatal no modo de vida do cidadão comum.

 

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