Agosto de 2006
Mem de Sá Governador Geral do Brasil
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Grandes Personagens

Mem de Sá
Governador Geral do Brasil

O terceiro Governador Geral desempenhou papel proeminente na História do Brasil. A esse valoroso português deve-se a expulsão dos hereges que invadiram o Rio de Janeiro.

José Maria dos Santos

Mem de Sá – Óleo de Manuel Victor Fo.

O Doutor Mem de Sá, fidalgo da Casa e Conselho del-Rei, irmão do renovador da poesia portuguesa, Francisco de Sá de Miranda. De Mem de Sá diz o Beato Anchieta na obra que sobre ele escreveu: “Arraigado no seio traz um amor de Deus, santo, filial, verdadeiro, e a fé de Cristo jamais desmentida. No peito incendiado pelo sopro divino, ferve-lhe o zelo de arrancar as almas brasílicas às cadeias do inferno”.(1)

O segundo Governador-Geral do Brasil, D. Duarte da Costa, não fora feliz em sua administração. Por isso, “a situação crítica em que estava o Brasil pedia governador ativo, entendido, e sobretudo honesto. Todos estes dotes reunia o desembargador Mem de Sá, [....] e no cargo de chefe da administração-geral do Brasil sustentou os créditos de que já gozava como ‘homem de grande coração, zelo e prudência, acompanhado de paz e de guerra’”.(2)

Mem de Sá formou-se em Direito em 1533, mesmo ano em que se casou com Dona Guiomar de Faria. “Fez rápida carreira — de juiz probo e enérgico, qualidade que mais lhe realçou a administração colonial — a ponto de subir ainda moço ao desembargo da Casa da Suplicação”.(3)

Nomeado Governador-Geral do Brasil em 23 de julho de 1556, por três anos, com os mesmos vencimentos e poderes que o seu predecessor, partiu de Lisboa em 30 de abril de 1557 e só chegou à Bahia em 28 de dezembro do mesmo ano. Durante sua viagem, falecera em Portugal o rei D. João III e subira ao trono o menino-rei D. Sebastião, que contava apenas três anos e meio de idade. Portanto, iniciara-se uma nova Regência.

Começa o governo com os “Exercícios Espirituais”

Apenas chegou a Salvador, Mem de Sá fez os “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio, dirigidos pelo Padre Manoel de Nóbrega, e “começou a mostrar sua prudência, zelo e virtude. Cortou as longas demandas que havia, concertando as partes; e as que de novo nasciam, atalhou da mesma maneira; ficando as audiências vazias e os procuradores e escrivães sem ganho, que era uma grande imundície que comia esta terra, fazia gastar mal o tempo e engendrava ódios e paixões. Tirou quando pôde o jogo, que era outra traça, fazendo a todos entender em seus trabalhos com fruto”, escreve o Pe. Manoel da Nóbrega.(4)

Eis como o Beato Anchieta descreve Mem de Sá em seu poema: “Ornam-lhe o rosto barbas brancas e majestosas: alegres as feições, sombreadas de senil gravidade, vivos os olhos, másculo o arcabouço do corpo, frescas ainda, como de moço, as forças de adulto. Muito mais excelente é a alma: pois lha poliu vasta ciência, com a experiência longa do mundo e a arte da palavra bela”.(5)

O novo Governador prosseguiu as obras da catedral, concluiu a construção de um engenho do Estado, já começado, levantado para receber as canas dos lavradores que não tivessem engenho próprio, cobrando-lhes uma parte do produto. Mas sobretudo dedicou-se com empenho ao cuidado do gentio. Reuniu os índios de cada quatro ou cinco tabas em uma missão dirigida por um meirinho deles, sob a supervisão de um padre da Companhia de Jesus. Aos silvícolas era ensinada uma disciplina de vida e trabalho. O centro dessas aldeias era a igreja. Era o início das missões jesuíticas, das quais depois tanto se falou.

Energicamente agia na repressão aos abusos

Aparição de São Sebastião – Mural de Carlos Oswaldo, Palácio de São Joaquim - RJ

A todos os índios vizinhos da Bahia proibiu, sob graves penas, a prática da antropofagia.

Um índio principal, Cururupeba, da ilha que lhe tomou o nome, desrespeitou essa lei. O Governador mandou Vasco Rodrigues de Caldas buscá-lo, com 15 ou 20 homens. E prendeu-o por quase um ano, findo o qual o cacique se mostrou dócil e submisso.

Outra tribo, a dos Paraguaçus, fazia sempre emboscadas para as canoas dos portugueses e espalhava o terror pela região. O mesmo Caldas foi mandado contra eles. Sem a perda de um homem, venceu-os e subjugou-os.

Por esse tempo revoltaram-se os índios do Espírito Santo, e para reduzi-los Mem de Sá enviou uma tropa comandada por seu filho Fernão de Sá. Quando os portugueses se aproximavam, os índios fugiram, porém voltaram-se inesperadamente contra os que os perseguiam, trucidando muitos deles. Fernão de Sá, que ficou para trás fazendo-lhes face na praia, foi morto a flechadas. Quando os remanescentes do desastre voltaram, o Governador não os quis receber, porque haviam abandonado seu filho na praia. Mas depois quis ele mesmo comandar a repressão aos insubordinados. “Em menos de dois meses que lá esteve [Ilhéus], deixou os índios sujeitos e tributários, [...] obrigados a refazerem os engenhos e não comerem carne humana”, relata Nóbrega.(6)

Os hereges franceses no Rio de Janeiro

No Espírito Santo, Mem de Sá pôde informar-se melhor, por um francês trânsfuga, Jean de Coynta, do que se passava com os franceses no Rio de Janeiro. Escreveu então o Governador à corte: “Todo o seu fundamento é fazerem-se fortes; têm muita gente e bem armada; as suas roças não são senão de pimenta. Prazerá a Nosso Senhor que se lhes desfarão todos estes pensamentos”.(7)

Em novembro de 1559, chegou do Reino a armada destinada à expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Reunindo todos os homens válidos disponíveis em Salvador mais os índios catequizados, e pedindo reforço à capitania de São Vicente, Mem de Sá partiu para o sul com duas naus e oito embarcações menores, entre as quais a nau Conceição, comandada por seu jovem sobrinho Estácio.

Chegando à ilha de Villegaignon, onde estavam os franceses, os lusos atacaram com forte artilharia por dois dias e duas noites, fugindo os franceses sem água nem pólvora, em 15 de março de 1560. Eram eles 74 mais alguns escravos. Mas os índios que estavam a seu favor eram mais de mil, “tudo gente escolhida, e tão bons espingardeiros como os franceses”, informa Nóbrega.

Forma-se a segunda expedição contra os franceses

Morte de Estácio de Sá – Óleo de Antônio Parreiras, Palácio Guanabara - RJ

A solução para o Rio de Janeiro seria povoá-lo. Estácio de Sá foi advogar essa causa em Lisboa e voltou com uma frota para a expulsão dos franceses — que tinham agora invadido a terra firme — e a ocupação definitiva da região.

Entre os índios que, de Salvador, acompanharam a frota, destacava-se como o principal deles Araribóia, da tribo dos termiminós do Espírito Santo, batizado com o prenome de Martim Afonso.

Desta vez o Governador Geral não foi. Convenceram-no a deixar a empresa nas hábeis mãos de Estácio.

“Os jesuítas [e ninguém mais do que Nóbrega] colaboravam com intensidade na guerra. Não apenas contra o estrangeiro; sobretudo contra o herege. Melhor do que os demais, sabiam a importância daquilo: antes de ser uma luta de bandeiras, era um choque de mentalidades”.

Para evitar que os índios tamoios entre São Vicente e a Ilha Grande se unissem aos do Rio de Janeiro no auxílio aos franceses, Nóbrega foi a Iperoig, acompanhado do então noviço José de Anchieta. O jovem jesuíta ficou como refém por três meses entre os selvagens, escrevendo na areia em latim seu famoso poema à Virgem, de mais de 6 mil versos, que reteve na memória.

Fundação de São Sebastião e morte de Estácio de Sá

A Fundação do Rio de Janeiro – Óleo de Firmino Monteiro

Determinou Estácio de Sá que, em vez de atacarem novamente os franceses diretamente, se fortificassem antes em terra firme. O desembarque se deu na enseada ao pé do morro Cara de Cão. Cortando árvores, carregando pedras, todos se puseram ao trabalho para fazer uma fortificação. Estácio despediu os navios, para tirar aos companheiros a tentação de abandonar a luta.

Apesar das constantes escaramuças com os índios inimigos, para dar foros de cidade ao novo povoamento — a que deu nome de São Sebastião, em homenagem ao jovem rei de Portugal — Estácio de Sá nomeou um juiz ordinário da cidade e um alcaide-mor, e proibiu o jogo.

Nesse meio tempo, sabendo Mem de Sá o apuro que os portugueses passavam na nova colônia, embarcou para o Rio de Janeiro, com reforço vindo de Portugal, levando consigo o Pe. José de Anchieta, recém-ordenado.

No dia de São Sebastião, 20 de janeiro de 1567, os portugueses atacaram as trincheiras de Biroaçumirim. Apesar da vitória, o bravo Estácio de Sá recebeu uma flechada envenenada no rosto, falecendo piedosamente no dia 20 de fevereiro seguinte.

Em várias batalhas Mem de Sá expulsou os franceses para a região de Cabo Frio, fez uma severa campanha de repressão aos tamoios e mudou a nova cidade para o morro de São Januário. Erigiu duas igrejas da Companhia de Jesus e a matriz de São Sebastião. Para capitão-mor da cidade, designou seu outro sobrinho, Salvador Correia de Sá.

A Martim Afonso Araribóia, que muito havia auxiliado com seus índios em toda a campanha do Rio de Janeiro, o Governador doou uma sesmaria para que ele habitasse na nova cidade com toda parentela e índios.

Os gloriosos quarenta mártires do Brasil

Enfim, a rainha de Portugal atendeu ao apelo de Mem de Sá e enviou-lhe um substituto, D. Luís Fernandes de Vasconcelos. Com ele embarcaram para o Brasil o Pe. Inácio de Azevedo e trinta e nove jesuítas. A frota era de seis navios. Em 15 de julho de 1570 foram assaltados por corsários franceses que, apresando o navio em que estavam os religiosos, lançou-os todos ao mar. Tornaram-se eles os Quarenta Mártires do Brasil.

D. Luís escapou e voltou ao reino. Quando regressava ao Brasil, sua nau foi novamente assaltada por corsários, e ele morreu com a espada na mão. Mem de Sá passou assim 14 anos no Brasil. Faleceu na Bahia em 2 de março de 1572, sendo enterrado na igreja nova do colégio dos jesuítas, que ajudara a construir.

_____________

Notas:

1. Padre José de Anchieta, De Gestis Mendi de Saa (Feitos de Mem de Sá), Ministério da Educação e Cultura, São Paulo, 1970.

2. Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, História Geral do Brasil antes de sua separação e independência de Portugal, Edições Melhoramentos, São Paulo, p. 299.

3. Pedro Calmon, História do Brasil, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963, p. 270.

4. Carta a Tomé de Souza, 1559, apud Varnhagen, op. cit., p. 300.

5. Beato Anchieta, op. cit.

6. In Pedro Calmon, op. cit., p. 278.

7. Carta de 1º de junho de 1558, apud Varnhagen, op. cit., p. 301.

8. Pedro Calmon, op. cit., p. 284.

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