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Internacional

Estados Unidos, país conservador

Avaliando os “dez mandamentos” americanos, para se entender o conservadorismo nos EUA e o “consenso americano” que mantém o país unido e no mesmo rumo

John Horvat
Vice-presidente da TFP americana

Os Estados Unidos são habitualmente encarados pelos estrangeiros de acordo com uma perspectiva hollywoodiana, daí a surpresa que muitos visitantes demonstram ao deparar com um país diferente do que conhecem através do cinema. Os próprios americanos tendem a tomar essa imagem como verdadeira, e não se conscientizam da amplitude do nosso conservadorismo.

No entanto, o país é conservador e reage fortemente contra práticas revolucionárias de há muito admitidas em outros países. Até os candidatos mais esquerdistas têm de reconhecê-lo e adaptar sua mensagem a essa realidade.

Uma nação conservadora

As posições muito marcadas entre os pro-vida e os pro-aborto obrigam a polícia a acompanhar as manifestações para evitar confrontos
Exemplo característico é o caso do aborto. A imprensa conservadora informou recentemente que, no estado de South Dakota, foi fechada a última clínica abortista, tornando-se o primeiro estado a prescindir delas. O mais impressionante é que tais clínicas estão sendo fechadas continuamente. A Planned Parenthood, por exemplo, desde 1995 vem fechando filiais a um ritmo de uma por mês, atingindo hoje o menor número desde 1987.(1) Semanas antes da olimpíada de Pequim, o Congresso americano aprovou por 419 votos contra 1 uma advertência ao governo chinês, a fim de encerrar a brutal campanha de abortos obrigatórios.

Existe de fato um verdadeiro oceano de pensamento conservador em todo o país, e quem não tem suas posições bem definidas corre o risco de desorientar-se. Tanto é possível imobilizar-se nas águas estagnadas de um tradicionalismo acomodado quanto aventurar-se na maré montante de um mutável livre arbítrio.

Para se compreender o conservadorismo americano, vamos delinear o caminho histórico no qual ele se formou. Nesta exposição tomamos como base os comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o que ele denominou “consenso americano”, uma espécie de adesivo espiritual que mantém o país unido. Trata-se de um acordo geral de índole histórica, com o qual nos comprometemos a fim de avançar e manter o país no rumo.

Origens do conservadorismo

Imediatamente após a guerra de independência, houve uma crise de caráter religioso. Não havia uma seita protestante com maioria indiscutível, e também não se podia contar com orientação vinda da Europa.
Esse consenso formou-se enquanto o país surgia como tal. Imediatamente após a guerra de independência, houve uma crise de caráter religioso. Não havia uma seita protestante com maioria indiscutível, e também não se podia contar com orientação vinda da Europa. As igrejas protestantes estavam desorganizadas, cada uma vivendo para si.

A guerra de independência lançou as colônias americanas num caos religioso. As estruturas eclesiais e a moralidade se encontravam desmanteladas pelos seis anos de guerra, e a própria religião estava ameaçada pela irreligião, pelo espírito “livre-pensador” difundido pelos franceses seguidores de Voltaire e Rousseau.

Essa situação poderia rapidamente degenerar numa total imoralidade e irreligiosidade, e a nação teve de adotar uma defesa contra a irreligiosidade. Optou por um tipo de consenso religioso. Não se tratava da união entre o Estado e uma igreja específica, o que era proibido pela Constituição, mas sim da união política do Estado acompanhada de um acordo não escrito de consenso religioso.

Por meio desse consenso, os americanos prosseguiriam com um conjunto de normas de ação, pelas quais certas coisas contra Deus eram proibidas. O Estado conservou uma certa reverência a um deus indefinido no qual acreditava. Um código moral cristão consensual, frouxamente baseado nos Dez Mandamentos, foi adotado pelo Estado e pelas suas leis. Daí se poderem encontrar, por exemplo, numerosos documentos e leis impregnados a tal ponto dos Dez Mandamentos, que a separação é quase impossível.(2) Esse consenso tornou-se o regulador da nossa moralidade, o adesivo espiritual que nos mantém unidos.

Uma nação cristã

O pintor Norman Rockwell representa muito bem, neste quadro, a marcante tendência religiosa do povo norte-americano
Como conseqüência, o Estado americano não adota nenhuma religião ou seita especificamente, mas seria grosseiramente exagerado tomá-lo como não-religioso. Na prática, quando não através de lei, a religião oficial dos Estados Unidos é esse consenso ecumênico geral. Como esse consenso foi cristão, a nação é vagamente cristã.

Se alguém cultua algum tipo de deus, de preferência cristão, participa desse consenso que mantém a religiosidade, o patriotismo e o respeito à família. E participa do consenso quem vagamente respeita a lei de Deus, como uma espécie de seguro para garantir a ordem pública.

Escritores e sociólogos americanos têm comentado o singular relacionamento do americano com a religião. Samuel Huntington, no livro American Politics, observou que os americanos conferem à nação e à sua cultura “muitos dos atributos e funções de uma igreja”.

Mesmo hoje, em meio à guerra cultural que tenta destruir as convicções religiosas e morais, amplas fileiras do público americano aderiram e continuam aderindo a esse vago consenso.

Uma nação religiosa

As conseqüências práticas dessa atitude são muito importantes, bem evidentes no clima político. Pois, quando a maioria de um país atinge o consenso de que todos devem cultuar algum tipo de deus, essa nação se torna muito religiosa. E ninguém hoje nega, embora não saiba explicar, o fato de que os americanos são muito religiosos. Os ateus são raros.

A devoção religiosa distingue os Estados Unidos dos seus aliados mais próximos. Embora essa vaga profissão religiosa esteja longe de uma única Igreja verdadeira, esse país religioso é um obstáculo à investida secularista mundial contra a própria idéia de religião.

Uma nação moralista

A segunda conseqüência do consenso americano é o aparecimento de uma ampla parcela da população que respeita um código moral fracamente baseado nos Dez Mandamentos, ainda que o faça apenas a bem da ordem pública. Por isso, o país tende a ser moralista no bom sentido da palavra, a transformar os assuntos em problemas morais, avaliando-os em termos de certo-errado.

Os problemas morais objeto do Decálogo são exatamente os que polarizam hoje o país. Esses americanos que professam inquestionável crença em Deus e nas leis de Deus são muito mais dispostos a associar a fé com a política do que nos outros países. Fazem coalizões em matéria de aborto, oração nas escolas, combatem a pornografia, a homossexualidade. É o único país desenvolvido em que grandes movimentos de protesto abordam temas morais. Temas que não se evanescem, mas ano após ano ocupam a agenda legislativa.

A diferença fundamental entre o movimento conservador na Europa e o dos Estados Unidos é exatamente essa nossa visão moralista. Enquanto na Europa os conservadores destacam os aspectos econômicos e políticos, a opinião pública americana se apega à convicção de que os Mandamentos devem ser obedecidos, e que a desgraça deve atingir quem os transgride.

Uma nação conservadora

A TFP americana atua em conjunto com o movimento conservador, incentivando a oposição ao aborto, ao “casamento” homossexual, à blasfêmia, etc., temas que polarizam a nação
Não estamos afirmando que no país não há pecado, nem mesmo que se praticam zelosamente os Mandamentos. Pecado e imoralidade são abundantes, mas a simples existência desse apego à lei moral é um constante apelo a reconhecê-la e retornar a ela, que visita nossa consciência para reerguê-la. Num mundo em que a moral desaparece rapidamente, os que se apegam aos Dez Mandamentos são um obstáculo conservador. Por isso, ainda que muitos americanos se recusem a admiti-lo, o nosso país é conservador.

Embora esse consenso moral seja deficiente, ele constitui um obstáculo à Revolução, tal como a define o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em “Revolução e Contra-Revolução”. Atenta a isso, a TFP americana atua em conjunto com o movimento conservador, sustentando a idéia de um conservadorismo cultural focado nos assuntos que atraem o grande número de “americanos dez mandamentos”. Atuações que incentivam a oposição ao aborto, ao “casamento” homossexual, à blasfêmia, à queima da bandeira nacional, ao evolucionismo e a tantas outras manifestações da Revolução, são temas que polarizam a nação.

No clima amargo da atual revolução cultural, esses assuntos ocupam o centro do cenário entre os eleitores que se orientam por princípios, e eles constituem obstáculos ao resvalamento do país rumo à imoralidade.

Como católicos, unimo-nos a outros americanos para defender nosso amado país, que, no cenário internacional, constitui esse obstáculo. Mas rezamos também para ter a coragem de proclamar sempre um patriotismo verdadeiro, autêntico e santo, pois ansiamos que nosso país se transforme de mero obstáculo à Revolução em uma nação autenticamente contra-revolucionária.

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Notas:

1. http://www.all.org/article.php?=10890.

2. O livro Os Dez Mandamentos e Sua Influência na Lei Americana, de William J. Federer, é uma exaustiva compilação de textos mostrando como cada um dos Mandamentos influiu no desenvolvimento das leis americanas.

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