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Nos Estados Unidos, modernidade ajusta-se à tradição

A mídia, a propaganda e Hollywood difundiram largamente pelo mundo, e de modo especial no Brasil, a imagem de uns Estados Unidos maciçamente igualitários, ponta-de-lança do espírito revolucionário; entretanto, debaixo dessa crosta igualitária e revolucionária, a vida social e cultural norte-americana é uma realidade complexa, variegada, na qual representam importante papel a tradição e a hierarquia.

Leo Horvat


A Europa, cercada de novos perigos surgidos do mundo pós-Cortina-de-Ferro e profundamente corroí da por todos os germens de deterioração. moral vê renascer neste início de século e de milênio anseio~ de reatamento histórico e cultural com seu rico patrimônio proveniente da Civilização Cristã e Idade Média.

A mais lídima expressão desses anseios de incontáveis europeus está consubstanciada no livro Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana (*), do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que, ao apresentar a .única da saída possível para a terrível crise de nossos dIas, fá-~o a peça-chave esse movimento máXimo de reação à Imobilidade, ao entreguismo e ao caos.

Dir-se-ia entretanto à primeira vista que não se dá o mesmo .despertar nos Estados Unidos, pais onde títulos de nobreza e distinções aristocráticas não existem e no qual as diferenciações sociais se definem apenas no pragmático tribunal do todo-poderoso dólar.

Com efeito, as raízes do mito norte-americano são profundas e exaltam a idéia de que ser de classe alta nos Estados Unidos é tornar-se um riquíssimo self-made man (homem que se fez por si), com gostos e maneiras democráticas, sem qualquer apreço a tradições familiares ou distinções culturais. Embora todo mito tenha vida longa, poucos parecem ter assumido tantos predicados de imortalidade quanto esse.

Tal noção tomou-se generalizada na consciência pública por influência de autores como o nobre francês Alex de Tocqueville, em sua famosa obra Democracia na América. Mais tarde, Hollywood espalhou pelo mundo todo as mesmas idéias.

Embora a riqueza seja um componente necessário para se adquirir status social nos Estados Unidos, numerosos estudos sociológicos deixam claro, como se verá, que ela só não basta, nesse pais, para que uma pessoa atinja os píncaros da distinção social.

Durante muito tempo os sociólogos simplesmente ignoraram a existência de elites tradicionais nos Estados Unidos. Hoje, porém, as próprias bases desse mito estão sendo questionadas. William Domhoff, por exemplo, chega à conclusão .de que a sociedade norte-americana é hierárquica e que "os estudiosos acabaram com o mito de uma sociedade sem classes. A estrutura social da América é formada por camadas que se imbricam umas nas outras até chegarmos ao nível mais alto" (1).

Por outro lado, em seus estudos o sociólogo Lloyd Wamer demonstra que o status social nos Estados Unidos não provém da plutocracia: "[Constata-se} a presença de um sistema de classes bem definido. Em seu cimo encontra-se. uma aristocracia de berço e fortuna... [a classe das velhas famílias] ... cuja linhagem tem participado, por muitas gerações, de um estilo de vida característico da classe alta .... As novas famílias .... aspiram ao status de Velha Família, se não para si mesmas, ao menos para seus filhos" (2).

Na ausência de títulos de nobreza, a dignidade do status de "Velha Família" manifesta-se em várias cidades ou Estados por expressões de uso corrente que celebram a tradição e continuidade familiares, tais como Proper San Franciscans, Genteel Charlestonians, First Families of Virginia, Proper Philadelphians, Boston Brahmins, Knickerbockers de Nova York, etc. Muitas dessas famílias mantêm suas mansões ancestrais. Em 1981, das 37 mansões históricas do vale do Rio Hudson registradas pela Liga de Preservação de Nova York, 22 continuavam em mãos das' famílias originais. Muitas das mais famosas mansões do sul do país pertencem às mesmas famílias há várias gerações.

As elites na sociedade norte-americana


Sociólogos norte-americanos admitem hoje o fato, apontado por Pio XII, de que "as desigualdades sociais, mesmo aquelas relacionadas com o berço, são inevitáveis" (3), e que portanto toda sociedade é hierárquica. Reconhecem ainda que a estratificação social é algo natural e inerente a toda sociedade, ao que a norte-americana não pode subtrair-se; e que esta, embora não use títulos de nobreza como a européia, não é menos hierárquica do que aquela. Assim sendo, estudam eles a História dos Estados Unidos e a sociedade norte-americana do ponto de vista das elites e de seu papel dominante em dirigir o curso dos acontecimentos e dar o tom à vida nacional.

Assim, os sociólogos Prewitt e Stone declaram: "A história norte-americana é apresentada de modo popular em [livros de] textos e discursos de políticos como se a participação das massas ... tivesse sido de grande significado político. . ... Apesar da popularidade dessa interpretação da história americana, muitos estudiosos ... têm chegado a conclusões bem diversas. .... Produziu-se suficiente número de estudos pondo em séria dúvida a visão convencional da história americana e convencido o leitor de que a participação popular nas decisões políticas tem sido geralmente de pouca importância" (4).

Outros estudos mostram que é a classe alta que lidera a moda, patrocina a cultura e as artes, dirige os trabalhos de caridade e apóia os serviços de assistência social, mantendo assim a estabilidade de todo o edifício social (5). O papel diretivo das elites é muitas vezes imponderável. Pelo próprio estilo de consumir e o hábito de se vestir, influenciam elas o gosto do grande público (6).

Elites tradicionais nos Estados Unidos, hoje: uma realidade picante, viva e saudável

Os sociólogos mostram que a posição de uma pessoa na hierarquia social norte-americana depende de muitos fatores, alguns bem definidos e outros imponderáveis. O termo status social é usado para designar situações próprias à classe alta. "O status social de uma pessoa é a posição que seus contemporâneos lhe atribuem na sociedade", explica Joseph Fichter (7).

Entre os vários fatores que conferem status social nos Estados Unidos, os sociólogos incluem: riqueza, linhagem de família, grau de instrução, pertencença a clubes, profissão e grau de autoridade. Richard Coleman e Lee Rainwater narram nos seguintes termos os múltiplos elementos que delineiam o status social: "Ao descreverem como classificam na sociedade as pessoas que conhecem, e como se classificam a si mesmos, os norte-americanos referem-se não somente à renda da pessoa, mas também à renda mais grau de educação mais profissão." Eles se reportam a uma combinação de "padrões morais, historia familiar, participação na comunidade, qualidades sociais, maneira de falar e aparência física .... dos 'quais poucos podem ou têm sido medidos em estudos quantitativos sobre fatores que influenciam o status. A estes chamamos de pontos mais finos do status social" (8).

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