Junho de 2007
Na santa vida de Frei Galvão, milagres, curas e graças místicas
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Na santa vida de Frei Galvão, milagres, curas e graças místicas

O primeiro Santo nascido no Brasil, que heroicamente viveu e lutou em terras da Capitania de São Paulo, é um extraordinário “embaixador” de todos os brasileiros junto ao Trono de Deus. Neste artigo poderemos comprovar o quanto ele obteve de favores do Altíssimo para seus conterrâneos.

Armando Alexandre dos Santos

Multidão de fiéis dirige-se ao Mosteiro da Luz, em São Paulo, para venerar o túmulo de Frei Galvão
Em dezembro de 2006, os católicos de todo o Brasil receberam com grande júbilo a notícia de que, depois de um rigoroso processo corrido no Vaticano, no âmbito da Congregação das Causas dos Santos, havia sido oficialmente reconhecido um novo milagre atribuído à intercessão do Beato Antonio de Sant´Anna Galvão.

Estava assim satisfeito o último requisito para a canonização do santo fundador do Mosteiro da Luz. E, de fato, poucos dias depois a Santa Sé anunciou a solene canonização na cidade de São Paulo, no dia 11 de maio corrente, durante a visita de S.S. Bento XVI a nossa Pátria.

Frei Galvão nasceu em Guaratinguetá em 1739 e faleceu na capital paulista em 1822. É o primeiro brasileiro nato canonizado pela Igreja. Já muito antes dele foram canonizados os Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João del Castillo, jesuítas espanhóis martirizados no ano de 1628 em território que hoje pertence ao Brasil, mas que naquele tempo pertencia à Coroa espanhola. Em 1998 foi canonizada Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, italiana de nascimento mas residente no Brasil desde menina.

Frei Galvão, o primeiro Santo brasileiro

Os traços biográficos da vida santa de Frei Galvão já são bem conhecidos dos leitores de Catolicismo (vide edição de setembro/1998), e não há por que recordá-los novamente aqui. Mas, para celebrar condignamente o magno acontecimento, pareceu-nos oportuno tratar de um aspecto específico do apostolado que ele desenvolveu em numerosas localidades da então Capitania de São Paulo.

Frei Galvão foi um taumaturgo que realizava curas surpreendentes. Recebia também graças místicas extraordinárias que impressionavam muito os fiéis de seu tempo, e cuja lembrança, por via de tradição, chegou até nós.

Passamos a reproduzir de nosso livro Frei Galvão, o primeiro Santo brasileiro (1) alguns fatos que tiveram registro no seu Processo de Beatificação ou em outras biografias suas.

Penetrando os segredos dos corações

Relíquias do Santo - Museu Frei Galvão, Guaratinguetá (SP) – Foto: Luis Guillermo Arroyave

Era público e notório que, por privilégio divino, freqüentemente ele penetrava os segredos dos corações, como atestam inúmeros testemunhos da época.

A ex-escrava Lucrécia Cananéa de Deus, que tinha 10 anos quando Frei Galvão morreu, e que o via diariamente no Mosteiro da Luz, aonde acompanhava sua senhora que ia ouvir Missa, foi testemunha ocular de um caso desses, conforme depôs no Processo de Beatificação:

Certo dia Frei Galvão estava tocando o sino à porta do Recolhimento quando dois rapazes, que vinham à distância, comentaram entre si em tom de brincadeira:

— Lá está o maganão, à espera das fiéis.

Nunca, em toda a vida do Santo, pairou a menor dúvida sobre a castidade exímia dele, nunca ninguém ousou caluniá-lo a esse respeito. Foi apenas por desrespeitosa irreflexão que os rapazes procederam dessa forma.

Quando chegaram perto do religioso, este lhes pediu:

— Façam o favor de ver o que tenho nos olhos.

Eles examinaram com cuidado e não notaram nenhum argueiro, nenhum corpo estranho, e assim o disseram ao Santo.

Com ar severo, respondeu-lhes Frei Galvão:

— Pois assim também está limpo meu coração do que vocês vinham comentando entre si.

Os dois logo se deram conta de que estavam diante de um prodígio, pois era impossível ao Santo ouvir o que haviam dito baixinho e a grande distância. Pediram imediatamente perdão pelo que haviam feito.(2)

Em outra ocasião ele se encontrava na porta de uma casa de pessoas abastadas, esperando uma esmola para o Recolhimento da Luz. Duas pessoas o viram nessa hora, e a grande distância comentaram entre si:

— Até Frei Galvão adula os ricos...

Quando se aproximaram do religioso, este os repreendeu:

— Não estou adulando os ricos, estou esperando uma esmola para o convento.

Os culpados, evidentemente, ficaram confundidos e lhe pediram perdão pelo mau juízo.(3)

Conhecimento de fatos ocorridos em lugares distantes

Episódio engraçado, que mostra como o Santo tinha conhecimento até de certos fatos passados à distância, ocorreu com um negro de Itu que, estando doente, fizera a promessa de, uma vez curado, levar uma vara de frangos a Frei Galvão.

Desejando cumprir a promessa, amarrou numa vara doze frangos e se pôs a caminho de onde estava Frei Galvão.

Aconteceu que, no caminho, três dos frangos escaparam. Dois foram facilmente recuperados pelo homem, mas, por mais que este se esforçasse, não conseguia agarrar o terceiro, que era carijó. No afã de o prender, gritou:

— Pare aí, frango do diabo!

Na mesma hora o frango se atrapalhou na fuga, e foi fácil recuperá-lo.

Na hora de oferecer os frangos ao Santo, este os ia recebendo e agradecia um a um. Mas, quando chegou a vez do carijó, Frei Galvão disse que não o aceitava.

Ante o espanto do homem, explicou:

— Este, já o deste ao diabo.

Comenta pitorescamente Maristela (pseudônimo da Irmã Beatriz do Espírito Santo) que o negro, confuso, levou de volta o carijó, e que este por certo morreu de velho, porque ninguém quereria se alimentar com carne que Frei Galvão recusara por ter sido entregue ao demônio.(4)

Um dia, sendo Frei Galvão já bem idoso, tocou o sino do Recolhimento, convocando os fiéis para uma oração fora dos horários habituais. Explicou aos que acorreram que havia rebentado em Portugal uma Revolução, e pediu que todos rezassem.

Que revolução foi essa? Muito provavelmente a de 1820.(5)

Parecia também ter prodigioso conhecimento à distância de certas necessidades dos fiéis, levando a eles imediato socorro.

Uma jovem de São Paulo queria ingressar na vida religiosa, mas enfrentava inflexível oposição dos pais.

Um dia em que novamente lhe negaram a autorização para seguir a vocação, ela chorando se retirou ao seu quarto e rezou, pedindo a Deus que enviasse Frei Galvão em seu auxílio.

Inesperadamente chega Frei Galvão à casa e se apresenta aos pais da moça. Demonstrando estar ciente de tudo o que ocorrera, obteve licença para que ela ingressasse no Recolhimento da Luz.(6)

Em outra ocasião estavam as religiosas da Luz cantando o Ofício, quando perderam o tom. Por mais que se esforçassem, não conseguiam retomá-lo.

As normas não permitiam interromper o Ofício. Seria indispensável continuarem a rezá-lo de modo recitativo, não cantado.

Eis que, nesse momento, aparece entre as freiras Frei Galvão, que entoa novamente o salmo e somente se retira depois de terem todas acertado o tom e prosseguido sem dificuldades.

O curioso é que nenhuma das Irmãs soube explicar como Frei Galvão se encontrava dentro do convento, uma vez que a portaria estava fechada e a Irmã porteira estava, com as outras, no coro.(7)

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