Igreja-Estado: união ou separação?
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As obras da Igreja são um auxílio para o Estado

Por amor de Deus, as ordens religiosas cuidavam de tarefas por vezes as mais repugnantes e humildes
Transpondo isso para termos modernos, se fosse oficialmente adotada pelo Estado a verdadeira doutrina da Igreja — não nos referimos, evidentemente, ao progressismo que infesta largos setores eclesiásticos — teríamos um país onde bastaria um número reduzido de policiais e de prisões para manter a ordem pública. Os impostos seriam muito mais suaves, porque a corrupção seria rara. A justiça se faria com muito mais eficiência e as autoridades civis se imporiam com maior respeito.

Serva ordinem et ordo servabit te,(12) diz um ditado latino. Se as almas estiverem em ordem, tudo correrá melhor e o país progredirá a passos largos. Compreende-se assim como possam atingir um alto grau de civilização povos que se desenvolvam nessas condições, como ocorreu na Europa cristã. É para essa situação, acrescida de grande esplendor, que parece apontar a Mensagem de Fátima quando nos fala do futuro triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Havia antes da crise que se manifestou na Igreja após o Concílio Vaticano II — ainda as há, mas em número reduzido — numerosas ordens, congregações e associações religiosas cujo fim específico era promover o apostolado junto aos doentes, em asilos, casas ou hospitais. Os camilianos, por exemplo. O número de institutos femininos dedicados às obras hospitalares era enorme. Os religiosos e freiras que se dedicavam a esse apostolado não estavam filiados a sindicatos, não faziam greve, não tinham problemas de horários. Eles não tratavam apenas o corpo do doente, mas também, e com maior atenção, a alma. Não trabalhavam por um bom salário nem esperavam qualquer recompensa nesta vida. Por amor de Deus, cuidavam de tarefas por vezes as mais repugnantes e humildes. Por isso tais entidades eram muito mais eficientes do que qualquer instituto de previdência social ou serviço médico estatal de nossos dias, nos quais freqüentemente se encontram a burocracia que faz corpo mole e tudo emperra, o desleixo dos funcionários, a ganância dos que querem galgar cargos nas repartições públicas.

Ainda um exemplo, no campo da educação. Por Direito natural, a educação de uma criança cabe em primeiro lugar aos pais, à família, e só supletivamente à sociedade civil. Mas o homem tem uma alma, e a Igreja é a guardiã da ordem sobrenatural. Ela tem a missão de ensinar a todos os povos e de batizá-los (cfr. Mt 28, 18-20). Por isso a educação é tarefa também da Igreja, sobretudo no que diz respeito ao ensino religioso nos países católicos.

Quantas ordens e congregações religiosas se imolaram na tarefa da educação e do ensino entre povos por vezes primitivos? O número é incontável. Basta lembrar, a título de exemplo, as caravelas portuguesas que fundearam na costa do Brasil em 1500, abordando a Terra de Santa Cruz em nome da Ordem de Cristo. Elas já traziam em seu bojo missionários franciscanos. Os filhos de São Francisco, de Santo Inácio, de São Bento, de São Domingos e da Ordem de Nossa Senhora do Carmo estiveram presentes em toda a epopéia da evangelização das Américas. Colégios jesuítas, salesianos, maristas e tantos mais são até hoje estabelecimentos de ensino insignes. Não constituiu isso uma preciosa ajuda à sociedade temporal, que os detentores do poder estatal deviam oficialmente reconhecer?

Essa descrição, contudo, arranca do fundo do coração um gemido de dor. Depois que o progressismo invadiu a Igreja, e nela penetrou a "fumaça de Satanás",(13) “padres de passeatas” filomarxistas e freiras de mini-saia ou calças compridas consideram "paternalistas", "assistencialistas" e inúteis as obras de caridade. Só lhes interessa a revolução social. Pode-se ainda chamar de católicos os que assim atiram lama na túnica imaculada da Esposa de Cristo, como tantos eclesiásticos envolvidos em escândalos?

O Estado tem obrigação de prestar culto a Deus

Muitos consideram que tornou-se anacrônico o regime de união entre Igreja e Estado, mesmo em nações de maioria católica. Para estes, o Cardeal Alfredo Ottaviani, Prefeito do Santo Ofício (atual Congregação para a Doutrina da Fé) no pontificado de Pio XII, afirmava em 1953: "Se existe verdade certa e indiscutível entre os princípios gerais de Direito público eclesiástico, é a do dever dos governantes, em um Estado composto na quase totalidade de católicos e, conseqüentemente e coerentemente, regido por católicos, de informar a legislação em sentido católico. O que importa em três conseqüências imediatas:

1) a profissão social e não somente privada da Religião do povo;

2) a inspiração cristã da legislação;

3) a defesa do patrimônio religioso do povo contra qualquer assalto de quem pretendesse arrebatar-lhe o tesouro da fé e da paz religiosa".(14)

"O Estado tem o dever de professar também socialmente a sua Religião", acrescenta o Purpurado. E fundamenta: "Os homens, unidos socialmente, não estão menos sujeitos a Deus do que como particulares, e a sociedade civil, não menos do que os indivíduos, está obrigada para com Deus ‘que a reuniu, por cuja vontade ela se conserva, de cuja beneficência ela recebe a inumerável abundância de bens de que está dotada’ (Leão XIII, Enc. Immortale Dei)”.(15)

O Cardeal aduz o ensinamento de Pio XII no mesmo sentido, condenando "o erro contido naquelas concepções que não duvidam em desligar a autoridade civil de toda a dependência ao Ser supremo, causa primeira e senhor absoluto tanto do homem quanto da sociedade, bem como de todo o vínculo de lei transcendente derivada de Deus como de sua fonte primária".(16)

Pio XII mostra que, "renegada de tal modo a autoridade de Deus e o império de Sua lei, o poder civil, por conseqüência inelutável, tende a atribuir a si mesmo a autonomia absoluta que só compete ao Supremo Fautor, e a substituir-se ao Onipotente, erigindo o Estado ou a coletividade em fim último da vida e critério supremo da ordem moral e jurídica".(17)

Esse endeusamento do Estado só pode, evidentemente, produzir a derrocada da própria sociedade. Foi o que ocorreu com os regimes totalitários — o nazismo e o comunismo, principais exemplos — que levaram populações inteiras às ruínas da guerra e da escravidão.

Os inimigos da Igreja, tão prontos a criticar o poder temporal de alguns pontífices da Renascença, esquecem-se metodicamente da fácil propensão à tirania dos Estados laicos, inclusive em nossos dias.

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