Igreja-Estado: união ou separação?
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O ideal da civilização autenticamente cristã

Plinio Corrêa de Oliveira: “Uma alma em estado de graça está na posse, em grau maior ou menor, de todas as virtudes”
Ao nacionalismo que endeusa o Estado, ao humanismo que endeusa o homem, a concepção católica opõe o ideal da Civilização Cristã.

O que é a Civilização Católica? "É a estruturação de todas as relações humanas, de todas as instituições humanas, e do próprio Estado, segundo a doutrina católica".(18)

Plinio Corrêa de Oliveira explica que uma alma em estado de graça está na posse, em grau maior ou menor, de todas as virtudes. Iluminada pela fé, dispõe dos elementos para formar a única visão verdadeira do universo. Tal visão do universo, elaborada segundo a doutrina da Igreja, é o elemento fundamental da cultura católica. Esta última abrange todo o saber humano, reflete-se na arte e implica a afirmação de valores que impregnam todos os aspectos da existência.(19)

Uma ordem assim estabelecida corresponde ao reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo nos corações de seus fiéis e em toda a sociedade. Eis o mais alto sentido da devoção a Cristo Rei.

Essa ordem sacral não é vã utopia. Não só é realizável, mas realizou-se, como o testemunha Leão XIII na Encíclica Immortale Dei.

Idade Média, um apogeu da ordem sacral

Historicamente, talvez se possa dizer que essa ordem sacral começou a estabelecer-se na Europa a partir da conversão de Clóvis, Rei dos francos, em fins do séc. V,(20) arrastando consigo todo um povo guerreiro que, abrindo-se à influência da Igreja, favoreceu a cristianização não só das Gálias, como de toda uma vasta região da Europa.

Ao cabo de três séculos, Carlos Magno veio dar novo impulso a essa obra, posteriormente coroada com a formação do Sacro Império Romano Germânico. Surgiu assim o ideal da Cristandade, unindo um conjunto de Estados sob a observância da doutrina de Jesus Cristo Nosso Senhor.

Transposto um período de novas invasões bárbaras e de certa anarquia feudal, tal ordem cristã continuou a desabrochar até atingir a sua mais alta perfeição histórica no apogeu da era medieval (sécs. XII e XIII).

Deu-se então o feliz conúbio entre o sacerdócio e o império, a que se referiu Leão XIII. Sobre essa época, escrevem conceituados historiadores eclesiásticos: “O homem da Idade Média, cheio de espírito cristão, movia-se num ambiente de fé e de vida sobrenatural; sua existência neste mundo não tinha outro objetivo que o de realizar o Reino de Cristo; daí lhe parecer óbvio que seu Vigário (o Papa) interviesse em todos os atos da vida social e política. Não só o indivíduo, mas a sociedade enquanto tal devia ser governada de acordo com as normas da religião. Sua profunda mentalidade cristã não concebia a separação da Igreja e do Estado. Acima de todas as nações da Cristandade pairava a dupla autoridade do Papa e do Imperador, este como braço armado daquele”.(21)

Decadência do espírito católico medieval

Chamando os fiéis à sobriedade e à vigilância, São Pedro diz que o demônio, nosso adversário, está sempre ao nosso redor rugindo, procurando a quem devorar. É preciso resistir-lhe com a fortaleza da fé (cf. 1 Pe 5, 8-9). Em determinado momento faltou essa vigilância à sociedade medieval. E sua decadência tornou-se inexorável. Os vícios campearam nos palácios reais, nas feiras e ruas, nos parlamentos e universidades dos mais importantes centros europeus.

Na realidade, a concórdia entre Igreja e Estado já sofrera um abalo nos tempos gloriosos de São Gregório VII (Papa de 1073 a 1085), quando Henrique IV, sucessor de Carlos Magno enquanto cabeça do Sacro Império, rebelou-se contra o Papado a propósito das investiduras. O santo Pontífice dobrou-o no episódio de Canossa, mas nem por isso o Imperador deu-se por vencido.

Quando o homem se entrega ao orgulho e à sensualidade, a lei passa a ser ditada em função do seu prazer e do seu egoísmo. O absolutismo dos legistas, que se engalanavam com um conhecimento vaidoso do Direito Romano, encontrou em príncipes ambiciosos um eco favorável.(22)

São Luís IX, Rei de França — o Rei-cruzado contemporâneo de Santo Tomás de Aquino, de São Boaventura e de São Francisco de Assis —, certamente não imaginaria que seu neto Filipe IV, o Belo, viesse a ser o paradigma da revolta contra o Papado.

Bonifácio VIII publicou a Bula Unam Sanctam em 1302. Essa reafirmação contundente da superioridade do poder espiritual sobre o temporal não podia ser aceita pelos espíritos renascentistas, como Filipe IV da França, que mandou Guillaume Nogaret pressionar o Papa em Anagni. Nogaret o fez por meio de Sciarra Colonna. O resultado é conhecido: o Papa foi preso e humilhado em sua residência. A população da cidade libertou-o, mas o Pontífice morreu um mês depois, de desgosto.

Lutero: “Fora com Roma!” Em troca de vantagens pessoais, muitos príncipes alemães apoiaram o monge apóstata
A essa altura já estão em cena os atores do Humanismo renascentista, que iria triunfar por toda parte ao longo dos séculos XV e seguintes. Ora, a doutrina humanista tira Deus do centro das cogitações para aí colocar o homem. Contaminada a ordem temporal, seus efeitos logo se fizeram sentir na ordem espiritual, na qual penetrou igualmente o espírito renascentista, inclusive na corte de certos Papas. Condições suficientes para a irrupção de todos os abusos, de parte dos dois poderes.

Outro brado de revolta levanta-se contra o Papado da boca de Lutero: "Fora com Roma!" Em troca de vantagens pessoais, muitos príncipes alemães apoiaram o monge apóstata. Estabeleceu-se o princípio falso de que cada povo deve adotar a religião de seu príncipe. Alastrou-se pela Europa a revolta protestante e uma guerra de religião que ensangüentou o velho continente. Esses erros são precursores do atual laicismo, que mata nas almas o sentire cum Ecclesia.

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