Igreja-Estado: união ou separação?
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A deusa razão em Notre-Dame de Paris

Os republicanos laicistas franceses afixam nas igrejas confiscadas o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”
No clima descrito acima, claro que se haviam deteriorado as condições para um perfeito entendimento entre Igreja e Estado. Mesmo assim, o regime da união entre os dois poderes ainda irá perdurar na maioria dos países católicos até o fim do Ancien Régime, até que o tufão da Revolução Francesa tentasse impor a Constituição Civil do Clero, violando brutalmente os direitos da Igreja.

É bem conhecido o episódio da exibição de uma mulher de má vida, nua, na catedral de Notre-Dame de Paris, representando a deusa razão para ser adorada enquanto tal. O racionalismo, o iluminismo, como igualmente o espírito de dúvida cartesiano, estão na raiz filosófica do protestantismo e da Revolução Francesa. Todos encontram-se perfeitamente involucrados no laicismo agnóstico que impôs a separação entre Igreja e Estado.

Depois da perseguição religiosa que ensangüentou a França durante o Terror, a Revolução mudou de tática para uma nova metamorfose. Com Napoleão, "a Revolução em botas" chegou a uma composição com a Igreja mediante uma concordata. Mas voltou à carga no tempo de Napoleão III e especialmente na III República, com as características do anticlericalismo furibundo que perdurou até a I Guerra Mundial, iniciada em 1914.

O povo indignado tenta evitar que o governo se aposse dos bens da igreja de Riaillé, na França
A lei de 1905 desencadeou nova perseguição religiosa. As notas de 20 francos da época traziam a frase "Deus proteja a França". Um decreto de 7 de janeiro de 1907 mandou substituí-la pelo lema da Revolução Francesa: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Não é por mero espírito burocrático, portanto, que os republicanos laicistas franceses afixam nas igrejas confiscadas aos católicos esse mesmo lema. É por ódio à Igreja católica, à sua doutrina e ao seu Divino Fundador.

Ao expor o regime ideal da união entre a Igreja e o Estado, não queremos significar que, na prática, ele deva ser adotado necessariamente em nossos dias. Numa época em que a Igreja, infiltrada pelas correntes progressistas, se encontra no que muitos consideram ser a maior crise de sua história, e na qual os Estados estão corroídos por toda sorte de venenos revolucionários do mundo moderno, tal união, em vez de produzir bons frutos, poderia constituir-se em fonte de erros e injustiças ainda maiores que os atuais — poderia ser “pior a emenda do que o soneto”.

O triunfo do Imaculado Coração de Maria, previsto em Fátima, é de molde a modificar substancialmente essa situação. Até lá, peçamos a Maria Santíssima que nos proteja contra novas investidas do laicismo anticatólico; que Ela proteja maternalmente o Brasil de modo muito particular, como também as demais nações ameaçadas pelo mesmo adversário.

E-mail do autor: w-gabriel@catolicismo.com.br

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Notas:

1. Citado pelo Cardeal Alfredo Ottaviani em seu artigo Deveres do Estado católico para com a Religião, in Catolicismo nº 33, set. de 1953.

2. Episcopado Italiano, Il Laicismo – Pastoral coletiva dirigida ao Clero da Itália em 25 de março de 1960; Catolicismo nº 116, agosto de 1960, reproduz os principais tópicos desse documento.

3. Cf. Encíclica Quas Primas, de 11-12-1925, nº 13.

4. Mons. Angelo Dell'Aqua, citado por Plinio Corrêa de Oliveira, in Revolução e Contra-Revolução, Catolicismo nº 100, abril de 1959, Introdução.

5. Homilia feita na Basílica de São Pedro, em 2-10-2005, por ocasião da abertura da XI Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.

6. Cf. Plinio Corrêa de Oliveira, A Cruzada do século XX, in Catolicismo nº 1, janeiro de 1951.

7. Cf. Luigi Taparelli D'Azeglio, SJ, Saggio Teoretico di Diritto Naturale, Ed. La Civiltà Cattolica, Roma, 1949, vol. I, nº 730 ss.

8. Idem, nº 734. Os destaques são da Redação.

9. Cf. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Parte I, VII, 2, B.

10. Silvio Antoniano, Dell'educazione cristiana dei figliuoli, I, apud Pio XI, Encíclica Divini Illius Magistri, de 31-12-1929, Bonne Presse, Paris, 1962, pp. 23 e s.

11. Santo Agostinho, Epist. CXXXVIII, 15 PL XXXIII 532, apud Pio XI, Encíclica Divini Illius Magistri, ibidem, pp. 22 e s.

12. "Observa a ordem e ela te preservará".

13. A conhecida expressão é de Paulo VI, na Alocução Resistite fortes in fide, de 29 de junho de 1972.

14. Card. A. Ottaviani, Deveres do Estado católico para com a Religião, in Catolicismo nº 33, set. / 1953.

15. Idem, ibidem.

16 Pio XII, Encíclica Summi Pontificatus, de 20 de outubro de 1939.

17. Idem.

18. Cf. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Parte I, cap. 7, 2, B, Artpress, S. Paulo, 4ª ed. 1998, p. 59.

19. Idem.

20. Considera-se o ano 496 como o mais provável da conversão de Clóvis. Ver Godefroid Kurth, Clovis, ed. de la Saine/Tallandier, Paris, 1978, p. 285.

21. Pe. Ricardo Garcia Villoslada, S.J., B. Llorca e outros, Historia de la Iglesia Católica, BAC, Madrid, 1953, T. II, p. 683.

22. Cf. Plinio Corrêa de Oliveira, op. cit., Parte I, cap. 3, 5ª, p. 27.



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