"O coração do sábio está onde há tristeza"
Plinio Corrêa de Oliveira
Quando Nosso Senhor nasceu, uma luz brilhou no céu, despertando os pastores adormecidos, nas cercanias de Belém. Foi por uma estrela, que os Magos encontraram o caminho que os conduziu ao berço do Menino-Deus. E, desde então, por ocasião das festas de Natal, de Ano Bom e Reis, a piedade dos fiéis, ao evocar comovida os primeiros acontecimentos da existência terrena do Senhor, se detém sempre na consideração daquele firmamento noturno do Oriente, esplendidamente iluminado por uma claridade providencial.
Infelizmente, nestes dias sombrios, a palavra Oriente desperta com obstinação, em nossa mente preocupada e exausta, uma deplorável associação de imagens. E pensamos na Rússia e nos países de além cortina de ferro, cheios de prisões em que gemem nossos irmãos na Fé, de arsenais e casernas prontos a se abrirem para a próxima guerra mundial. Daí, passamos a divagar sobre os "sputniks", e vemos em espírito um firmamento no qual se divisam, em lugar da estrela de Belém, dois satélites que proclamam orgulhosamente o poderio do moderno anti-Cristo.
Bem sabemos - e ai de nós se não tivéssemos a consolação de o saber - que as claridades espirituais do Natal e da Epifania jamais serão obnubiladas pelos triunfos vistosos, mas falsos e efêmeros, dos homens ou do demônio. Não resta dúvida de que, meditando aos pés do Presépio, encontraremos alento para todas as fadigas e força para todas as lutas. Por isto mesmo, comecemos este primeiro artigo do ano ajoelhando-nos em espírito, ante Nossa Senhora e São José, e a ambos implorando sua inapreciável intercessão junto ao Esperado das Nações. Peçamos que Ele nos dê aquele coração contrito e humilhado, que Deus não rejeita ( Sl. 50, 19 ). Peçamos que nos conceda o espírito de oração e penitência dos anacoretas, a coragem dos cruzados e dos missionários, a argúcia e a santa pertinácia dos confessores, para servir a causa da Igreja. Peçamos que nos favoreça com um senso católico inquebrantável, agudo, puríssimo, para considerar à luz da doutrina da Igreja os fatos que ocorrem em nossos dias. E, isto posto, passemos à análise da situação em que o mundo se encontra, neste voltar de página, entre 1957 e 1958.
Num “meeting”, um filho do falecido Presidente Roosevelt, terminada sua oração, recolhe os aplausos da assistência. No outro clichê ( ver abaixo ) um atleta pletórico, se apresenta com uma jovem, inebriada da glória de seu herói. - Em ambos os casos, o mesmo riso, largo, desanuviado, radioso, que certo gênero de pessoas usa hoje em dia para tudo. Sinal lamentável de insensatez: “O coração do sábio está onde se acha a tristeza, e o coração do insensato onde se encontra a alegria”, diz a Escritura ( Eclese. 7,5 ).
Alguém - Joseph de Maistre, se não me engano - disse com muito espírito que a Áustria, a França, a Inglaterra, a Espanha eram nações que tinham exércitos. A Prússia, pelo contrário, era um exército que tinha uma nação.
Parafraseando, poder-se-ia dizer que os países do Ocidente tem partidos políticos. A Rússia de hoje não é um país que tem partidos: é um partido que tem um país.
Em outros termos, um grupo de sectários absolutamente fanáticos se apoderou de um imenso Estado, sujeitou-o, pelo terror, a uma escravidão horrível, e em seguida passou a sugar todos os seus recursos, para montar uma máquina científica, de subversão e agressão, voltada contra todo o universo. Não é de maravilhar que, aplicando todos os seus recursos nestes dois únicos pontos, a Rússia soviética neles obtenha resultados superiores aos de outros povos, que empregam seus meios em mil outros campos: arte, cultura, saúde pública, etc.
Assim, só papalvos - a trivialidade da coisa exige a trivialidade do vocábulo - podem inferir dos sucessos russos que o regime comunista é mais eficiente que o nosso.
Isto dito, acrescentemos que os sucessos soviéticos são imensos: quase todo o mundo amarelo, quase todo o mundo árabe está em seu raio de ação. É inútil fechar os olhos a esta realidade. Nas vastidões africanas que vão do Congo ao Cabo, notam-se movimentos estranhos, que revelam que também ali a hipnose soviética já começou. Claro está que a serpente não se apresenta desde logo a esses povos da Ásia e da África com a fronte marcada pela estrela vermelha. Ela disfarça seus propósitos cantando loas ao crescente do Islã, à cultura milenar da raça amarela, ou apiedando-se do infortúnio, de imemorial origem, da raça negra. Neste cântico - e não fosse serpente! - ela também põe algo de verdadeiro e bom. O mal, na primeira fase, não está tanto na letra como na música. Nos tons e entretons desta campanha, ela sabe despertar tendências, ressentimentos, sonhos loucos que depois não se deterão mais, e cujo dinamismo próprio e natural leva ao comunismo. O pérfido réptil aparenta não querer
(continua)