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FUNDADA pelos reis partas à margem do Tigre, no atual território do Iraque, Ktesifon foi no século II de nossa era, sob o domínio romano, uma das maiores cidades do mundo. Nosso clichê mostra as ruínas do imenso palácio de tijolos construído no século VI por Cosrois. — A capital do Iraque, Bagdá, também situada à margem do Tigre foi fundada pelo Califa Al-Mansur. Atingindo seu apogeu no século IX sob, Harun-Al-Rachid, foi sede dos califas até sua destruição pelos mongóis em 1258. Na segunda gravura, um "bazar", rua coberta e ladeada de lojas de mercadores. Vê-se ao fundo, o portal de uma mesquita.

FATOS ESQUECIDOS...

Sergio Brotero Lefevre

Estes primeiros sessenta anos do século XX viram a queda de muitos Reis: a monarquia foi substituída pela república na Rússia, Alemanha, Áustria, Hungria, Itália, Espanha, Portugal, Romênia, Bulgária, Iugoslávia, Servia, Albânia, Montenegro, Turquia, Tunísia, Egito, Iraque, China, Mongólia e, de certa maneira, na Índia e no Paquistão. Mas, paradoxalmente, o homem contemporâneo criou um grande número de novas realezas, de efêmera duração: a realeza do rádio, do cinema, da televisão, da beleza física, do futebol, do petróleo, do sabão, do ferro-velho e muitas outras. E, assim como na Idade Média o Imperador do Sacro Império exercia sua suserania sobre vários reinos, as realezas atuais estão subordinadas a um único Império: o da Propaganda.

Um conhecido escritor francês, detentor de um grande prêmio da "Fondation Nationale des Sciences Politiques", Jacques Driencourt, qualifica a nossa época como a Idade da Propaganda. Respiramos uma atmosfera artificial, irreal e ilusória. Nossa vida é caden-ciada pelas vagas sucessivas de informações. As vociferações excitadas, as exclamações repetidas, os apelos repisados, as manchetes berrantes, as fotografias sensacionais agridem nossos ouvidos e nossos olhos. Os alto-falantes, os rádios, os jornais, os cartazes, os cinemas, os televisores atormentam nosso dia, em casa, no trabalho ou na rua, perturbando o nosso espírito com ordens, afirmações, insinuações, denuncias, revelações e acusa-ções. Somos incessantemente objeto de solicitações que nos aturdem.

Apesar de tudo, o homem moderno não tem consciência dessa situação, tão habituado está a ela. Quem hoje viveria sem jornal, sem radio, sem televisão ou cinema? Quase todos nós negaremos enfaticamente se alguém ousar afirmar que somos dirigidos pela propaganda. Estamos persuadidos de que somos cidadãos livres de países perfeitamente democráticos, num mundo que caminha a passos largos para a democracia universal (cf. Jacques Driencourt, "La propagande, nouvelle force politique", Librairie Armand Colin, 1950).

Ninguém se dá conta de sua própria ignorância dos negócios públicos. A imprensa, escrita ou falada, tornou-se praticamente a única fonte de informações do homem contemporâneo. Analisando as notícias que dela recebemos, verificaremos que, dos inumeráveis acontecimentos que se sucedem no mundo, a imprensa escolhe alguns, os manipula, os dramatiza e os impõe à atenção dos povos e de seus dirigentes. Ela não só fabrica as notícias — quando não as adultera — como por vezes também influencia e até determina os fatos a serem noticiados. O Presidente dos Estados Unidos, por exemplo, ao dar uma entrevista coletiva, em regra não visa dizer o que pensa sobre um assunto, mas sim o que crê dever dizer naquele momento para que os jornalistas tirem conclusões oportunas e úteis à política do governo. E são informações que passaram por todo esse processo que vão servir de base para as decisões dos estadistas, para os votos dos parlamentares e, frequentemente, para o nosso próprio juízo a respeito do que acontece no país em que vivemos ou no mundo.

A irrealidade do século XX provém de que a "realidade" na qual acreditamos cada manhã é feita pelos jornais, agencias telegráficas e estações de rádio e, em geral, não é feita senão por eles. Não há dúvida de que as notícias falsas quase sempre são desmentidas pelos órgãos ou agencias rivais. Mas não é a veracidade das informações que está em questão, senão a seleção delas, o modo de apresentá-las, e o fato de que algumas são omitidas ou "esquecidas". A notícia verdadeira torna-se falsa apenas pelo destaque excessivo ou insuficiente que recebe na paginação dos jornais.

Em junho de 1958, comentando a fusão de duas agencias telegráficas norte-americanas, o deputado Wright Patman, democrático do Tennessee, dizia que até aquele momento as notícias passavam pelo crivo editorial de três agencias, e com a fusão diminuíam as possibilidades "de que a informação exata chegasse ao público em geral". Causa inquietação considerar que, com isso, "os delitos da alta finança, as questões que afetam a economia do homem comum, as manipulações do governo em proveito de grupos poderosos, as lutas pelo domínio da mente, e qualquer espécie de fatos que não agradem às classes dirigentes se tornarão menos noticiados do que têm sido até agora" (cf. "Diário Carioca", 9 de junho de 1958). Mas, acrescentamos nós, será que a mera existência de mais uma agencia de telegramas resolveria o problema?

As informações sobre política internacional correm um risco ainda maior de serem "esquecidas", porque não interessam diretamente ao homem da rua. Aliás, os próprios diretores de jornais norte-americanos - por exemplo - julgam que a imprensa do seu país não fornece aos leitores uma imagem fiel do que se passa no exterior, e deploram que as notícias internacionais "sejam rebaixadas ao nível das informações locais", o que cria a idéia "de um mundo irreal pertencente ao passado". As agencias, dizem eles, transmitem despachos enfadonhos e estéreis porque não se interessam pelos povos estrangeiros (cf. "Le Monde", 16-17 de novembro de 1958).

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S.A.I.R. o Arquiduque Oto de Habsburgo-Lorena, Chefe da Casa Imperial da Áustria, e representante histórico das nobres tradições dos Imperadores do Sacro Império, analisou recentemente, com sua reconhecida proficiência, um desses fatos que foram "esquecidos" pela imprensa: o massacre de Bagdá. Seu artigo, publicado na França, intitula-se "Em três dias os mortos foram esquecidos", e diz: "As vítimas do massacre de Bagdá são pouco conhecidas do grande público do Ocidente. É, portanto, fácil às agências de informação, que têm sempre a tendência de poupar aqueles que exercem o mando, difamá-las. Quanto aos assassinos, estão atualmente no poder. São tratados como o governo do país, emanação da vontade popular... Houve um tempo, não muito distante, em que a eliminação violenta de um governo legítimo e legal suscitava a reprovação geral. No início deste século ainda, o decoro internacional impedia o reconhecimento imediato de governos nascidos de golpes de Estado tão sangrentos.

Quando os Karageorgevitch conquistaram

(continua)