Heroica resistência...

Representação de Nuremberg poucos anos antes da apostasia, quase geral, nas garras da heresia luterana.

(continuação)

de 1525 houve na cidade contínuos debates entre os que aderiram à nova doutrina e alguns religiosos e sacerdotes ainda fiéis. O Conselho anunciou então a intenção de retirar das irmãs o atendimento espiritual proporcionado por esses sacerdotes, substituindo-os por pastores da nova religião. Diz a Irmã Caridade: “Desde esse dia fomos privadas da confissão, da comunhão e de todos os sacramentos, inclusive em perigo de morte”.

A priora e suas freiras foram obrigadas a aceitar os pregadores do Conselho local, mas rechaçaram seus confessores, preferindo privar-se dos Sacramentos a ceder aos erros. Nesse sentido, ela declarou ao Conselho: “O Conselho recordará certamente que temos sempre obedecido nas coisas temporais. Mas, no que diz respeito às nossas almas, obedecemos apenas à nossa consciência”.

As religiosas foram então submetidas a um verdadeiro massacre moral. Os pregadores usavam com frequência um tom extremamente agressivo. As freiras ouviram 111 pregações dessas, mas mantiveram-se inabaláveis. Por fim, o Conselho desistiu de enviar novos delegados.

As ameaças chegaram enfim às privações econômicas. Na Semana Santa de 1525, relata a Irmã Caridade: “Quando o curador viu que nunca chegaria a vencer minha resistência, mudou de tema e falou-me de um levantamento de camponeses que tinham se rebelado, em número muito considerável, para saquear os conventos e expulsar ou condenar à morte todos os religiosos e as religiosas; que no convento daquela cidade não deveria permanecer uma só clarissa; que faríamos bem em refletir e não dar motivo a um grande massacre”.

Enquanto isso, a situação em Nuremberg só piorava. Um dia depois da Páscoa, todo culto católico foi proibido. Começaram as apostasias, primeiro dos agostinianos, “que eram a fonte de todas as desgraças”, depois dos carmelitas, dos cartuxos. Todos abandonavam seus hábitos, não cantavam mais o Ofício Divino, e rezavam os ofícios de acordo com sua fantasia subjetiva. Muitos se casavam.

Em clima de tão geral apostasia, as pressões sobre as clarissas chegaram ao auge. Diariamente eram ameaçadas de serem tiradas à força do mosteiro, cujo claustro deveria ser demolido até os fundamentos. Relata a Irmã Caridade: “Nós nos convertemos para todos, grandes e pequenos, em objeto de desprezo. [...] Somos objeto de maior desprezo que as mulheres públicas, as quais nos dizem que valemos verdadeiramente menos do que elas. [...] Não querem que ninguém chame mais nossos conventos de ‘claustros’, mas de hospícios, nem que as irmãs se chamem ‘cônegas’; que a abadessa e a priora devem ser chamadas de ‘diretoras’, e não deve existir distinção alguma entre os clérigos e os leigos”.

Resistência e o prêmio pela fidelidade

A situação chegou a tal ponto, que em 1525 a Irmã Caridade reuniu as religiosas no capítulo e pediu o parecer delas sobre a conduta a seguir: “Encontrei-as todas com o mesmo sentimento, e me responderam que nunca iriam deixar-se converter à nova doutrina por meio do sofrimento; que nunca se separariam da Santa Igreja; e que não conseguiriam arrastá-las para fora da vida monástica. Recusaram a direção dos sacerdotes apóstatas, preferindo ficar longo tempo sem confissão e privadas da Sagrada Comunhão. [...] Escrevi a súplica, [...] que a comunidade aprovou por unanimidade depois de ouvir a leitura. Cada uma pediu para assinar; nós todas queríamos participar da responsabilidade na desgraça que pudesse advir para nós”.

Essas lídimas seguidoras de Cristo permaneciam assim firmes na Fé. E de tal maneira, que o próprio Felipe Melanchton, número dois de Lutero, chegou a visitá-las pessoalmente, para tentar convencê-las. Mas nada conseguiu, e saiu admirado pela firmeza da abadessa.

A vida continuou para elas, sempre na mesma resistência, até que em 1532 a Irmã Caridade recebeu no Céu o prêmio de sua fidelidade a Cristo. Foi sucedida por sua irmã Clara, e depois pela sobrinha Catarina. Desde o início o Conselho havia proibido as clarissas de receber noviças, e as religiosas iam morrendo sem deixar sucessoras. A última delas, Irmã Felicidade, faleceu aos 91 anos em 1591. O Conselho da cidade tomou então posse do convento dessas heroicas resistentes da Santa Igreja.

Assim desapareceram aquelas 60 filhas de Santa Clara, que haviam afirmado: “Sofreremos aquilo que Deus queira nos enviar. É melhor sofrer por causa do mal do que consentir em fazer o mal”.

Fonte: https://www.religionenlibertad.com

A resistência da Irmã Caridade e suas companheiras obrigou o próprio Felipe Melanchton, número dois de Lutero, a visitá-las pessoalmente para tentar convencê-las.
(Felipe Melanchton – Lucas Cranach, o Velho, séc. XVI. Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.)

Retrato de mulher, do pintor Albert Dürer, não assinado: os especialistas julgam que representa a Irmã Caridade Pirckheimer.

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