CARTA DO DIRETOR

Caro leitor,

Em nossos dias impregnados de materialismo e ateísmo, procura-se evitar a lembrança da morte, embora seja ela a única coisa que nos acontecerá com absoluta certeza. Causa-nos temor recordar essa verdade, a ponto de muitos evitarem passar pelo cemitério até mesmo por ocasião de algum enterro, e outros procuram eliminar os aspectos trágicos, pungentes e tristes da morte. Chega-se ao extremo de tornar festivos os ambientes dos funerais, parecidos a lugares para encontros sociais mundanos.

Contrapondo-se a essa tendência materialista, a Santa Igreja nos faz lembrar de uma vida eterna após a morte. Incentiva-nos a meditar os “novíssimos do homem” — morte, juízo final, céu e inferno — e aconselha: “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás (Ecl. 7, 40). Como mãe, a Igreja associa-se às nossas lágrimas e consola nossas dores na perda de um ente querido. Também nos incentiva a tributar todo respeito aos mortos, participar de funerais, sepultar dignamente os cadáveres, visitar as famílias enlutadas, rezar, oferecer sacrifícios e assistir à Missa em sufrágio das almas dos falecidos, para que sejam libertadas das penas do Purgatório e conduzidas ao Céu. No dia de Finados, é especialmente louvável recordar as almas dos fiéis defuntos, de modo particular de nossos parentes e conhecidos, rezar por eles e visitar seus restos mortais nos cemitérios.

Para que nossos leitores possam medir quanto o mundo moderno se encontra distante de uma atitude varonil e católica perante o luto e a morte, reproduzimos nesta edição um conjunto de oportunas considerações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o luto — os costumes tradicionais, as honras fúnebres, as manifestações e a concepção cristã de luto — e como esses valores vão sendo esquecidos e abandonados, devido ao conceito materialista de viver como se nunca fôssemos morrer. Como Jesus nos advertiu, a morte virá de repente, como um ladrão, oculto e de noite (I Tes. 5, 2).

Desejando aos prezados leitores uma proveitosa leitura, peço à Sagrada Família, Jesus, Maria e José, que nos conceda a todos a graça de uma boa morte. E peço também que aumente em nós a esperança da ressurreição, conforme nos ensina e reafirmamos no Símbolo dos Apóstolos: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém”.

Em Jesus e Maria,

Paulo Corrêa de Brito Filho

Diretor

PALAVRA DO SACERDOTE

Monsenhor José Luiz Villac

Pergunta — Encontro-me sem luz e sem forças. Tenho sofrido por maus pensamentos ou dúvidas contra a fé, mas fico sem saber se consenti ou não neles. Procuro tirar isso a limpo, e começo a analisar a minha própria consciência, mas aí as dúvidas contra a fé voltam. E então fico achando que pequei, ao colocar-me em ocasião de pecado por essa introspecção. Assim, vou ficando cada vez mais atormentada e sem conseguir sair desse círculo vicioso. Desde já agradeço um conselho.

Resposta — A consulente parece estar sofrendo de uma doença espiritual muito perniciosa para o avanço na santificação, cujo nome é escrúpulo. Para boa compreensão dos motivos que tornam o escrúpulo doentio, é preciso antes desenvolver algumas noções básicas sobre a consciência moral.

No seu sentido próprio, a consciência é um julgamento que a razão prática faz sobre a bondade ou culpabilidade de determinada ação. Como a vida é complexa, a consciência pode ser certa, provável ou duvidosa, do ponto de vista da segurança desse julgamento num caso concreto. A consciência certa pronuncia seu julgamento sem temor de se enganar. A consciência provável emite um juízo ancorado num motivo sério, mas com temor fundado de poder eventualmente estar enganada. A consciência duvidosa evita pronunciar-se, porque hesita, e a hesitação pode ser por dúvida quanto à moralidade da ação em si mesma, ou então por dúvida quanto à situação diante da qual se está.

A moral ordena que a consciência certa deve sempre ser seguida, ou seja, deve-se praticar uma ação quando a consciência a aprova, e também recusar uma ação quando a consciência a proíbe. Quando a consciência tem a certeza de algo, mas objetivamente essa certeza não confere com a realidade, ainda assim deve ser seguida. Por exemplo, uma pessoa pode crer com segurança que no dia de hoje a abstinência

(continua)

Na maioria das vezes, o escrúpulo tem uma causa natural. Seja por falta de sadias recreações e de convívio com outras pessoas, seja por esgotamento físico ou psicológico temporário, seja ainda por uma disposição temperamental durável, tendente à melancolia.