| PALAVRA DO SACERDOTE | (continuação)

Citando Santo Agostinho, o Catecismo da Igreja Católica (n° 797) ensina: “O que o nosso espírito, quer dizer, a nossa alma, é para os nossos membros, o Espírito Santo o é para os membros de Cristo, para o Corpo de Cristo, que é a Igreja”. De fato, como escreveu Pio XII, “Ele está todo na Cabeça, todo no Corpo, todo em cada um dos seus membros”, como “o princípio de toda ação vital e verdadeiramente salvífica em cada uma das diversas partes do Corpo”, fazendo da Igreja “o templo de Deus vivo” (2 Cor 6, 16).

A Igreja distingue tradicionalmente os dons do Espírito Santo dos carismas. Os dons são destinados a todos os fiéis para sustentar a sua vida moral, e o Catecismo os define como “disposições permanentes que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito Santo” (n° 1830). Já os carismas, dados apenas a alguns, “são graças do Espírito Santo que, direta ou indiretamente, têm uma utilidade eclesial, ordenados como são para a edificação da Igreja, o bem dos homens e as necessidades do mundo” (n° 799).

Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Esta enumeração provém do livro de Isaías (11, 2) ao falar do Messias, enquanto rebento saído do tronco de Jessé: “Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor do Senhor”. O texto menciona seis dons, mas o “temor de Deus”, citado duas vezes, foi traduzido por São Jerônimo na Vulgata latina como “piedade filial”.

O Espírito Santo nos santifica

O uso dessa lista de dons já é testemunhado no fim do século IV por Santo Ambrósio de Milão. No século IX, o antiquíssimo hino Veni Creator Spiritus dirige-se ao Espírito Santo como Tu septiformis munere, ou seja, “concessor dos sete dons”. Mas foi Santo Tomás de Aquino e a Escolástica que formalizaram essa lista, a qual foi adotada e mantida em todos os ritos do sacramento da Confirmação.

Pelos seus sete dons, que são disposições gravadas no mais fundo do coração antes mesmo de qualquer ato da nossa parte, o Espírito Santo nos santifica, transformando-nos à imagem e semelhança de Deus. Os Padres da Igreja os compararam às velas de um navio, que o fazem avançar velozmente sem que os marujos sejam obrigados a remar, dando à atividade humana uma plenitude que vai muito acima dela mesma.

São Gregório Magno destacou a progressão que se manifesta nessa série, vendo nesses “sete degraus” um itinerário de santidade: “O temor nos faz subir à piedade; a piedade nos conduz à ciência; a ciência colhe sua energia na fortaleza; a fortaleza nos leva ao conselho; o conselho nos faz progredir até o entendimento e o entendimento nos faz chegar à ponderação da sabedoria” (Homilias sobre Ezequiel, II, 7, 7).

Carismas concedidos pelo Espírito Santo

Quanto aos carismas, são “uma maravilhosa riqueza de graças para a vitalidade apostólica e para a santidade de todo o Corpo de Cristo” (Catecismo, n° 800). Para que a fé em Jesus Cristo e o Evangelho pudessem ser aceitos, a Igreja primitiva foi particularmente enriquecida de carismas, contendo o Novo Testamento várias listas desses dons gratuitos, a mais conhecida das quais é expressa na Primeira Epístola aos Coríntios: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas” (12, 7-10).

Evidentemente, São Paulo não quis fornecer nesses versículos uma enumeração completa dos carismas com que o Espírito Santo enriquece a vida sobrenatural da Igreja, porque no fim do mesmo capítulo dessa Epístola ele menciona vários outros. Também não pretende fazer uma classificação científica desses dons destinados ao benefício de terceiros.

Ao tratar do assunto, Santo Tomás de Aquino mostra que o Apóstolo divide corretamente os carismas (Summa I-II, q. 111, a. 4), porque alguns favorecem a perfeição do conhecimento (como a palavra de sabedoria e de ciência), outros visam à confirmação da doutrina (como curar as doenças ou fazer milagres e o dom de profecia), outros facilitam a comunicação (como os dons de falar e de interpretar línguas).

O dom da previsão de acontecimentos

O explicado acima nos permite responder à pergunta do nosso leitor sobre a possibilidade, segundo a doutrina católica, de um homem receber de Deus o dom de prever acontecimentos futuros. Sim, isso é certamente possível e se tem dado inúmeras vezes, não somente nos profetas do Antigo Testamento, que previram muitos acontecimentos do povo de Israel e anunciaram a vinda do Messias, dando detalhes sobre sua Paixão, como também na vida da Igreja ao longo dos séculos.

A respeito da profecia no Novo Testamento, o Cardeal Charles Journet afirma, no seu tratado A Igreja do Verbo Encarnado: “O dom de profecia passou de Cristo à sua Igreja de duas maneiras: em primeiro lugar sob uma forma regular e hierárquica, que teve como órgãos extraordinários os Apóstolos, e que têm hoje como órgãos ordinários os depositários da jurisdição permanente, ou seja, o Soberano Pontífice e os Bispos; e depois, sob uma forma milagrosa, passageira, esporádica, a profecia privada ou individual”. A primeira tem como missão conservar e explicitar o depósito da fé; e a segunda, de guiar a conduta dos homens.

A respeito da profecia privada, acrescenta o Cardeal Journet: “A Igreja [...] é também esclarecida sobre o estado do mundo e o movimento dos espíritos. Os mais lúcidos de seus filhos participarão desta sua miraculosa penetração. Eles saberão discernir, à luz divina, os sentimentos profundos de sua época, saberão diagnosticar os verdadeiros males e prescrever os verdadeiros remédios. [...] Com um instinto

(continua)

Pelo Sacramento da Confirmação o Espírito Santo nos santifica, transformando-nos à imagem e semelhança de Deus.

Descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos reunidos no Cenáculo com a Virgem Maria – Pentecostes – Jan Joest (1505-1508), Igreja de São Nicolau, Kalkar, Alemanha.