VIDAS DE SANTOS

São Francisco de Sales

Bispo de Genebra, Confessor e Doutor da Igreja, fundador de Ordens religiosas e diretor de incontáveis almas. Animado de profundo amor de Deus, dotado de bondade e suavidade excepcionais no trato, sólida cultura e ortodoxia.

Plinio Corrêa de Oliveira

“Legionário”, 23 de janeiro de 1938, Nº 280

Apontando-nos os santos como exemplo, a Igreja Católica destrói, sem argumentar, a pretensa ignorância e humildade de condição dos que seguem os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Encontramos de fato, entre eles, muitos que se dedicaram durante a vida a misteres mais humildes, e que muitas vezes desdenharam a instrução para cultivarem apenas a verdadeira sabedoria, que é o amor de Deus. Porém, ao lado deles e em não menor número, se acham reis, rainhas, nobres e sábios, relembrando quotidianamente, e com a força irrecusável dos fatos, que para seguir Nosso Senhor Jesus Cristo nada mais se exige do que a boa vontade [a respeito, vide p. 25].

A condição social e a ciência são, separadamente, os dois obstáculos que os incrédulos julgam existir para a difusão da Igreja. E a Igreja responde-lhes com a vida de um São Francisco de Sales (1567–1622), que aliava à nobreza de sua família uma ciência invulgar, adquirida com brilhantismo nos melhores colégios de França.

São Francisco foi enviado pelo pai a Paris para estudar. Sua mãe, no entanto, que temia pela virtude do filho assim abandonado numa grande cidade, despediu-se dele recomendando-lhe insistentemente a frequência aos Sacramentos, afirmando preferir vê-lo morto a saber que um dia tivesse cometido um pecado mortal.

São Francisco progrediu rapidamente nos estudos, fazendo-se admirado pelos professores e colegas; não só pela sua inteligência, como pela virtude que conseguia manter no meio de tantos perigos, recebendo frequentemente os Sacramentos.

Amor de Deus, sem esperar recompensa

Nosso Senhor desejava, no entanto, grandes coisas de São Francisco, e por isso submeteu-o a uma aridez completa, com a ideia de que estava predestinado ao inferno, de nada lhe valendo todo o esforço empregado para se salvar. Obcecado por essa ideia, um dia ele se ajoelhou aos pés de Nossa Senhora, e entre lágrimas rezou a oração de São Bernardo (o “Lembrai-vos”), acrescentando-lhe: “Ó minha Senhora e Rainha, sede minha intercessora junto de vosso Filho, perante o qual não me atrevo a comparecer. Queridíssima Mãe, se eu tiver a infelicidade de não amar a Deus no outro mundo, alcançai-me a graça de amá-lo o mais possível enquanto aqui estou!”.

Desde esse dia cessou completamente a tentação. Nossa Senhora ouvira a oração belíssima de quem se entregava completamente à sua vontade, a ponto de não titubear em amar a Deus e servi-Lo neste mundo sem nenhuma recompensa no outro.

Grande conversor de hereges

Terminados os estudos, São Francisco foi ordenado apesar da oposição do pai, e o Papa nomeou-o Bispo Auxiliar de Genebra, que era o centro da heresia calvinista. Desdobrou-se em atividades, procurando por todas as formas destruir a heresia. Trouxe de volta para o seio da Igreja Católica 72 mil calvinistas.

Quando a diocese passou para suas mãos, pela morte do Bispo de Genebra, visitou-a inteira a pé, exortando os fiéis à perseverança e procurando mostrar aos hereges os seus erros. Por vinte anos dirigiu-a, apesar das ciladas que armavam os calvinistas para retirar do seu caminho quem, apenas com a palavra, a mansidão e o exemplo, abria tantos claros em suas fileiras.

Aos 56 anos entregou a Deus sua alma, e 23 anos depois o Papa Alexandre VII inseriu o seu nome no catálogo dos santos. Em 1933 foi declarado Doutor da Igreja e Padroeiro da imprensa e dos jornalistas.

Pecaminosa cumplicidade da imprensa

São Francisco de Sales foi durante a vida um verdadeiro lutador da Igreja contra a heresia, e hoje em dia a imprensa católica tem também a obrigação de empreender o mesmo combate, pois o mundo se abisma cada vez mais na heresia e na dissolução dos costumes, com a cumplicidade da chamada imprensa neutra.

Só a imprensa católica se oporá a essa onda; e só o espírito de sacrifício, que animava o Bispo de Genebra a combater a heresia calvinista em sua própria sede, poderá fazê-la vencer a indiferença que a cerca. O combate à imprensa neutra deve ser eficiente, pois ela esconde atrás de sua suposta neutralidade um verdadeiro ódio à Igreja de Nosso Senhor.

Que São Francisco de Sales interceda junto a Nosso Senhor, conseguindo d’Ele a graça sem a qual nada poderá ser feito, e dando a todos os jornalistas católicos o espírito de sacrifício necessário para sua obra.

(continua)

Retrato do Papa Alexandre VII – Giovanni Battista Gaulli, séc. XVII. Walters Art Museum, Baltimore (EUA).