| NOBREZA E SANTIDADE... | (continuação)

perseguições. Dos milhares que nos primeiros séculos da Igreja verteram seu sangue para testemunhar a Fé, só nos chegaram algumas centenas de nomes, ora através das atas dos tribunais — redigidas pelos pagãos, que transcreviam os processos verbais — ora através dos relatos feitos por testemunhas oculares dos martírios.

Além de não existirem documentos deste gênero a respeito de todos os mártires, muitas destas atas — cuja leitura inflamava a alma dos primeiros cristãos e lhes dava o exemplo para suportar novas tribulações — foram destruídas durante diversas perseguições, sobretudo a de Diocleciano.4 Torna-se assim impossível conhecer todos os mártires que foram objeto de culto pelos fiéis nos primeiros séculos da Igreja.

Com o fim das perseguições, e ainda durante muito tempo, os santos foram venerados por grupos restritos de fiéis, sem uma investigação prévia e sem um julgamento da autoridade eclesiástica. Depois, com o aumento da participação da autoridade na organização das comunidades católicas, cresceu também o papel desta na escolha dos que deviam receber culto. Os Bispos passaram a permitir o estabelecimento de um determinado culto, e muitas vezes o ratificaram a pedido dos fiéis, fazendo a elevação e transladação das relíquias de um novo santo.

Só no fim do primeiro milênio o Papa passou a intervir, de vez em quando, na consagração oficial de um santo. Com efeito, à medida que o poder dos Pontífices Romanos se ia afirmando, e que os contatos com os mesmos se tornavam mais frequentes, os Bispos passaram a solicitar aos Papas a confirmação dos cultos, ocorrendo isso pela primeira vez em 993.

Mais tarde, em 1234, pelas Decretais tornou-se necessário o recurso à Santa Sé, e o direito de canonização ficou reservado ao Pontífice. Entretanto, no período que medeia entre estas datas, muitos Bispos continuaram a proceder às transladações de relíquias e à confirmação de culto, segundo os antigos costumes.

A partir de 1234, pouco a pouco, os processos para a determinação do culto a um santo tornaram-se cada vez mais aperfeiçoados. Desde o final do século XIII a decisão pontifícia baseia-se numa instrução prévia, levada a cabo por um colégio de três cardeais especialmente encarregado desta tarefa. E assim permaneceu até 1588, quando as causas foram confiadas à Congregação dos Ritos, instituída no ano anterior pelo Papa Sixto V.

No século XVII esta evolução atingiu o seu termo. Urbano VIII, em 1634, com o Breve Cœlestis Jerusalem Cives, estabeleceu as normas para a canonização de uma pessoa, que essencialmente permanecem as mesmas até os nossos dias.

Tendo em vista os Servos de Deus, que por tolerância receberam culto público depois do pontificado de Alexandre III, as Constituições de Urbano VIII previam a confirmação de culto ou canonização equipolente, “sentença pela qual o Soberano Pontífice ordena honrar como Santo, na Igreja universal, um Servo de Deus para o qual não se introduziu um processo regular, mas que desde tempo imemorial se acha na posse de um culto público”.5 Esse procedimento foi válido também para casos semelhantes ocorridos após as Constituições de Urbano VIII.

Dificuldade em determinar a origem social de um santo

Assim, a partir de 993 — data da primeira canonização papal — é possível estabelecer uma lista dos santos definidos pela Santa Sé. Esta lista, entretanto, ainda não é completa, faltam documentos de períodos extensos. Além disso, a lista não contém todos os santos, pois entre 993 e 1234, como já se disse, os Bispos continuaram a ratificar o culto. Por isso muitos indivíduos foram objeto de um culto público independentemente de uma intervenção de Roma, que era solicitada muitas vezes — mas nem sempre — alguns séculos depois. Somente a partir do início do século XVI pode-se estar certo de que a lista de santos e bem-aventurados (distinção consagrada pela legislação de Urbano VIII) não contém lacunas.6

Além da dificuldade para estabelecer uma lista completa dos santos, outra era saber quais deles pertenceram à nobreza. Com efeito, nem sempre é fácil estabelecer com certeza a origem nobre de uma pessoa. A própria elaboração do conceito de nobreza foi progressiva e sumamente orgânica, condicionado às características dos diversos povos e lugares, por vezes dificultando determinar quem pertencia ao estamento da nobreza. Há também a dificuldade de determinar com precisão os antepassados de uma pessoa. Isso levou, leva e continuará a levar muitos a dedicarem longos períodos à investigação das origens genealógicas de personagens diversos. Todos esses empecilhos tornam difícil determinar a origem social de alguns santos.

Tendo em vista estas dificuldades, tratava-se de escolher fontes de pesquisa tão completas quanto possível, mas ao mesmo tempo inteiramente fidedignas, para elaborar uma estatística aproximativa do número de nobres no rol dos santos.

Optou-se então pelo Index ac Status Causarum,7 uma publicação oficial da Congregação para a Causa dos Santos, sucessora da antiga Congregação dos Ritos. Trata-se de uma “edição extraordinária e amplíssima, feita para comemorar o IV Centenário da Congregação, incluindo todas as causas a ela apresentadas desde 1588 até 1988, e também as mais antigas conservadas no arquivo secreto vaticano”.

A obra inclui ainda vários apêndices, dos quais três interessam mais especialmente. No primeiro são enunciadas as confirmações de culto a partir do Index ac Status Causarum redigido em 1975 pelo Pe. Beaudoin, acrescentados alguns nomes e subtraídos outros de bem-aventurados que posteriormente foram incluídos no catálogo dos santos. No segundo apêndice enumeram-se apenas os que foram beatificados a partir da instituição da Sagrada Congregação dos Ritos e ainda

(continua)

Processos de canonização ordenados entre 1198 e 1431 (71 casos)

Nobres 62,0%

Classe Média 15,5%

Povo 8,4%

Origem social desconhecida 14,1%

Santos canonizados por um Papa da Idade Média (35 casos)

Nobres 60,0%

Classe Média 17,1%

Povo 8,6%

Origem social desconhecida 14,3%

Processos de canonização ordenados entre 1198 e 1431 (71 casos)

Nobres 62,0%

Classe Média 15,5%

Povo 8,4%

Origem social desconhecida 14,1%

Santos canonizados por um Papa da Idade Média (35 casos)

Nobres 60,0%

Classe Média 17,1%

Povo 8,6%

Origem social desconhecida 14,3%

Altar dos Reis – Catedral de Puebla, no México. Seu nome se deve a que nele se encontram imagens de reis e rainhas canonizados. Entre eles São Luís IX da França, Santa Isabel da Hungria, Santo Eduardo da Inglaterra, São Fernando III de Castela, Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, e Margarida, Rainha da Escócia.