| EM 2018, O FILHO PRÓDIGO... | (continuação)

lamentavam que ele não tivesse podido ir até onde fizera crer. As reformas que aboliriam a moral tradicional estavam inacabadas e não conquistavam o espírito das maiorias católicas. Os fiéis influenciados pelo clero não aceitavam o acolhimento pleno e igualitário na Igreja de LGBTs, divorciados, abortistas e protestantes. Havia forte restrição aos movimentos sociais comuno-anárquicos, ao anticapitalismo engajado, ao ecologismo e ao comuno-indigenismo utópicos. A abertura das portas da Europa ao Islã o indispunha com a maioria dos povos europeus. A beligerância contra católicos e evangélicos que elegeram Donald Trump nos EUA resultava num tiro pela culatra.

No campo diplomático, os braços estendidos por Francisco à Rússia de um Putin saudoso da era soviética, e à China de um Xi Jinping erigido em semideus do olimpo marxista onde reina Mao Tsé-Tung, imprimiram uma virada de 180º na diplomacia vaticana. Essa virada, tida como a maior da história da Igreja, abandonava o mundo cristão, causaria grandes danos aos católicos perseguidos, e só seria ignorada pelo cinismo pró-comunista de certas elites ocidentais. Ao receber em junho uma delegação do Patriarcado de Moscou, apoiador da invasão da Ucrânia, o Pontífice endossou as posições políticas e disciplinares dessa igreja cismática a respeito da religião na Rússia, e “condenou com palavras muito ásperas as posições [patrióticas e religiosas] da Igreja greco-católica ucraniana”.5

O Papa em “via de rachar a Igreja”?

As críticas eclesiásticas à aplicação do ideário do Pacto das Catacumbas (assinado secretamente durante o Concílio Vaticano II) foram tão numerosas e profundas, que o Cardeal holandês Willem Eijk chegou a afirmar que o atual Pontífice “está em via de rachar a Igreja”.6 Esta afirmação parece confirmada pela atitude do Cardeal Jozef De Kesel, Primaz da Bélgica, que entreabriu as portas para o “casamento” homossexual7 e fechou institutos religiosos considerados conservadores.

Um bispo brasileiro — “profundo conhecedor da realidade”, segundo a Revista IHU on-line,8 e engajado nas reformas do Pontífice — confidenciou em tom deprimido: “Não conheço um único seminarista que goste dele. A aceitação é ridícula. Nula, praticamente”. Simultaneamente, “vários sacerdotes jovens voltavam a usar a batina, cuja recusa foi todo um símbolo do cristianismo pós-conciliar. O Papa Francisco, em sentido contrário, comemorou o fim dessa veste sacral como o fim de mais uma mera moda. ‘Acabou essa moda, graças a Deus’, disse em discurso para jesuítas”.9

A visita pontifícia ao Chile e ao Peru expôs a profundidade da rachadura aberta. Recebido por escasso número de fiéis, o Pontífice começou sua visita ao Chile elogiando10 o bispo que logo depois condenaria. O drama desfechou na renúncia maciça do episcopado chileno às suas respectivas dioceses, consumada no Vaticano a pedido do Papa, após a leitura de um relatório reservado de 2.400 páginas, que envolvia a totalidade do episcopado numa galáxia pouco evidenciada de abusos sexuais impunes. A “operación limpieza” deveria durar poucas semanas, confirmando bispos da “linha Francisco”.11 No final do ano, alguns bispos e sacerdotes estavam reduzidos ao estado leigo, vacantes a maioria das dioceses, e o país desprovido de hierarquia eclesiástica nas sedes episcopais.

A caminho da utopia comuno-tribalista?

No Peru, o Papa Francisco acenou para aquilo em que acredita ver o futuro da Igreja: a vida indígena na selva, dotada de uma mística ecológica de inspiração pagã e desprovida dos “vícios” do capitalismo, do “clericalismo”, além de outros “vícios” execrados por ele na Igreja tradicional. Essa visão deverá ser confirmada no Sínodo sobre a Amazônia, previsto para outubro de 2019, no qual poderão ser admitidos “sacerdotes” alternativos ou substitutos, desde padres casados na região até pajés, gurus ou xamãs. O “modelo” poderia servir depois para toda a Igreja.

O germe de um verdadeiro “cisma” foi apontado também pelo Cardeal Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong, antes e depois da assinatura do “acordo provisório” entre Pequim e a Santa Sé. No referido acordo estaria sendo aceita uma igreja que, apesar de chamar-se católica e chinesa, foi fundada e é dirigida pelo Partido Comunista.12 Para o Cardeal Zen, o acordo seria “uma rendição, uma venda, um suicídio”.13 Entretanto, o “pacto provisório” foi assinado assim mesmo. Um de seus primeiros frutos foi o “desaparecimento” do bispo de Wenzhou, Mons. Shao Zhumin,14 e de quatro outros sacerdotes de Hebei nas garras da polícia.15 O regime também multiplicou a demolição de igrejas, imagens, cruzes e túmulos cristãos, alegando estar cumprindo o tratado aprovado pelo Papa!

“Acompanhamento” do adultério e do sacrilégio

Em matéria moral dogmática, o Prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, apontou ao longo do ano que a “mudança de paradigma” promovida pelo atual Pontificado — que assimila os “critérios da sociedade moderna” — constitui uma corrupção da Igreja. Seria comparável à Reforma protestante, e sob seus efeitos o “cristianismo se converte em algo completamente diferente”. Exemplo típico é a distribuição da Eucaristia a divorciados recasados e a pessoas sem condições de se aproximarem do sacerdote para recebê-la,16 configurando na prática um sacrilégio maciço. Também afirmou que a “homofobia não existe, e esconde uma tentativa de domínio totalitário” feita pelo lobby homossexual.17 Deixou também claro que os fiéis não são obrigados a adotar as teorias ecologistas do Papa, pois não é matéria religiosa sobre a qual a Igreja tenha missão.18

Numerosos cardeais, conferências episcopais e bispos de diversos países puseram em prática a doutrina condenada pelo cardeal alemão e por muitos outros hierarcas da Igreja. Entendem que cada diocese ou país pode aplicar doutrina e prática moral que sejam do

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O Papa Francisco no Palácio de La Moneda durante sua visita ao Chile.

Para o Cardeal Zen, o acordo com Pequim seria “uma rendição, uma venda, um suicídio”.