CARTA DO DIRETOR

Caro leitor,

No ano findo, manifestou-se claramente em quase todo o mundo um anseio da opinião pública por um retorno à ordem. É possível contarmos com esse mesmo anseio no ano que se inicia? Tornar-se-á ele ainda mais intenso? Ou haverá obstáculos para a sua plena aplicação?

No panorama nacional e internacional, opõe-se a essa grande apetência dos povos pela ordem própria à Civilização Cristã o empenho de altos dirigentes eclesiásticos e civis a favor de um estado de coisas no sentido contrário, descolando-se portanto da opinião pública.

Ao longo de 2018, muito se discutiu sobre um eventual rompimento interno na Santa Igreja, devido a uma política de relativização dos chamados “valores não negociáveis”. Um exemplo disso foi a assinatura de um pacto provisório do Vaticano com o governo comunista da China, o qual deixou perplexos os católicos do mundo inteiro; especialmente os católicos chineses, que continuam a sofrer na pele a perseguição perpetrada pelos agentes do comunismo. O Cardeal Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong-Kong, chegou a afirmar que os católicos chineses estavam sendo vendidos pelo Vaticano ao regime comunista.

Outro aspecto dessa relativização foi apresentado pelo Cardeal Walter Brandmüller, ao comentar a introdução do homossexualismo “de forma quase epidêmica no clero, inclusive na hierarquia”.

A oposição dos católicos a coisas desse gênero fortalece a cada dia a rejeição aos malefícios provocados na Igreja pelos princípios relativistas difundidos a partir do Concílio Vaticano II. A matéria principal desta edição faz um retrospecto dos fatos relacionados com essa relativização.

No tocante aos aspectos temporais, no Velho Continente falou-se muito de “desunião europeia”, quase tanto quanto de Europa Unida. Essa união passou a ser vista como um objetivo revolucionário para levar as nações a um agrupamento do tipo “Estados Unidos da Europa”, uma espécie de “República Universal”. Mas a cisão aberta a partir do “Brexit” causou uma rachadura no projeto pan-europeu, e se reforça ainda mais com a divisão entre os países que abrem suas fronteiras à imigração maometana e outros que as estão fechando, devido ao receio da invasão islâmica.

Em nosso Continente, o ano terminou sob a gravíssima ameaça do retorno da ambição expansionista de um governo russo, que faz recordar os perigos da antiga URSS. Basta lembrar que, no último mês, bombardeiros da Rússia de Putin aterrissaram na vizinha e infeliz Venezuela, dominada e empobrecida pelo comuno-bolivarianismo. Com a desfaçatez que lhe é peculiar, o ditador Nicolás Maduro pretendeu justificar esse fato com a ideia de proteger os venezuelanos contra maquinações dos EUA, que estariam tramando com governos anticomunistas — especialmente com o brasileiro recém-formado — um ataque a seu país...

Esses são apenas alguns dos temas tratados na matéria de capa da presente edição, cuja leitura proveitosa desejo aos diletos leitores.

Em Jesus e Maria,

Paulo Corrêa de Brito Filho

Diretor

PALAVRA DO SACERDOTE

Padre David Francisquini

Por ser “A Palavra do Sacerdote” uma das colunas mais apreciadas de Catolicismo, com o falecimento do saudoso Mons. José Luiz Marinho Villac a direção da revista pediu-me para continuar a responder às consultas feitas pelos assinantes, na sua maioria sobre temas religiosos.

Hesitei em aceitar, porque uma personalidade sacerdotal como a de Mons. Villac é insubstituível. Pela sua ciência de antigo professor de seminário e sua fidelidade ao ensinamento tradicional da Igreja, pelo seu tato de confessor de legiões de penitentes, pela prudência de sua direção espiritual, ele possuía uma influência que marcou muitos meios católicos no Brasil, a qual se prolongava de alguma maneira em seus artigos.

Deus, que ele tanto amava, o chamou a Si, e isso representou grande perda para a Igreja no Brasil, para os leitores de Catolicismo e para mim em particular. Pois foi Mons. Villac quem me atraiu para o Seminário Menor de Jacarezinho (PR), e lá me fez abeberar nas águas cristalinas da boa doutrina. Além dos estudos escolares e de Teologia, Catolicismo era lido diariamente durante o café da manhã até 1967, quando ele deixou a direção do Seminário. Depois disso ele obteve para os seminaristas uma assinatura desta publicação, o que nos possibilitou permanecer fiéis à orientação que nos tinha dado até então.

Em gratidão a tudo que ele fez por mim e por tantos outros sacerdotes e fiéis durante esses anos todos de convivência, amizade e apoio, eu não podia recusar o amável pedido, mesmo sabendo que minhas respostas não terão a mesma profundidade e clareza que tem distinguido até aqui “A Palavra do Sacerdote”.

Espero que, em compensação, o próprio Mons. Villac obtenha de Nossa Senhora para os leitores as graças que receberiam se as respostas tivessem sido escritas por ele.

Com essa explicação aos diletos leitores, passo a responder à primeira questão.

* * *

Pergunta — Gostaria de saber como a Igreja Católica vê a questão dos dons, por exemplo, o da percepção. Pode o homem ser capaz de “prever acontecimentos”?

Resposta — A pergunta do leitor levanta uma questão muito importante para a vida espiritual dos fiéis e para a vida institucional da Igreja, que é o papel do Espírito Santo e de seus dons e carismas.

(continua)

No vitral está escrito: “O Espírito Santo sopra onde quer”.