| PALAVRA DO SACERDOTE | (continuação)

sobrenatural e infalível, irão direto ao alvo. O recuo dos séculos manifestará a justeza de sua visão”. E cita, entre esses profetas do Novo Testamento, não somente grandes luminares da Igreja, como Santo Agostinho e Santo Tomás, mas também Santa Teresa e Santa Joana d’Arc. Todos eles, segundo o teólogo suíço, “viam numa espécie de clarão profético a marcha dos tempos e a orientação que era preciso dar às almas”.

É preciso também citar o caso dos que recebem revelações de Deus ou de Nossa Senhora sobre o futuro do mundo, como aconteceu nas aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, ou ainda sobre a crise no clero e na Igreja, como o segredo confiado a Maximino e Melânia em La Salette. A Igreja não obriga a crer nessas mensagens do Céu, mas uma vez que as aparições que as cercaram tenham recebido sua aprovação como manifestação sobrenatural, seria extremamente imprudente não acreditar nelas e não seguir o que aconselham, a saber: a conversão, a penitência e a oração em reparação pelos pecados do mundo.

Falsos profetas, adivinhos, espertalhões

Tudo o que acima fica explicado, com base no ensino tradicional da Igreja, corresponde aos conhecimentos e à conduta que o fiel católico deve ter ao lidar com católicos e pessoas bem intencionadas. No entanto há outras categorias de pessoas situadas muito longe de tudo isso, em relação às quais devemos ter os olhos bem abertos, evitando qualquer contato desnecessário. Contra esses Nosso Senhor nos advertiu: “Guardai-vos dos falsos profetas” (Mt 7, 15).

Dentro dessa imensa categoria se incluem adivinhos, médiuns, cartomantes, “profetas”, fundadores de seitas e igrejolas, gurus, videntes, astrólogos, iluminados, umbandistas e muitos outros. A gama de velhacos e espertalhões é enorme, quase tão grande quanto a dos ingênuos e tolos que afluem em multidões para consultá-los, aplaudi-los, apoiá-los, segui-los, pois o número dos tolos é infinito — stultorum numerus infinitus est.

Contra tais profissionais do misticismo fraudulento, o conselho mais acertado é mantê-los tão longe quanto possível. Não só para evitar ser enganado, mas também para distanciar-se da ação do demônio, cuja influência está presente ao lado deles, tornando-se perigosa e funesta especialmente no embate dos que têm convicções fracas ou mal fundamentadas. A todo custo devemos afastar de nós a influência do demônio, e um meio seguro e necessário para isso é manter-nos longe de quem a exerce através de convites e seduções mentirosas. 

Santa Joana d’Arc e outros santos “viam numa espécie de clarão profético a marcha dos tempos e a orientação que era preciso dar às almas” – Santa Joana D’Arc diante de Orleans – Jules Eugène Lenepveu (1819–1898). O Panteão, Paris.

FOTO EM FOCO

Ó Arte, quantos crimes se cometem em teu nome!

Texto H. L. Venturi

Madame Roland entregara sua alma à Revolução, cujos reveses a conduziram à guilhotina. Pouco antes do suplício, ela exclamou: “Ó Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”. Expressava assim a mentalidade da Gironda, que ela encarnava. Era novembro de 1793, quando a Revolução Francesa desvairada se empenhava em exterminar a nobreza e a aristocracia. Muitos fatos simbólicos se sucederam então, dos quais os mais marcantes e dolorosos foram as mortes do Rei Luís XVI e da Rainha Maria Antonieta sob a implacável lâmina da guilhotina.

O ódio da Revolução não se contentou em aniquilar os reis, cumpria extinguir também quaisquer manifestações de realeza e desigualdade. Palácios foram saqueados, e alguns deles incinerados. Invadido Versalhes, a ralé revolucionária destroçou e roubou desse palácio tudo quanto pôde. Alguns bandidos reconheciam o valor intrínseco das peças, e levaram os pertences da Rainha – sapatos, tapeçarias, quadros, vestidos –, guardando-os para serem reapresentados quando amainasse a tempestade revolucionária após declinar o auge do terror.

Com o passar do tempo vieram épocas menos perigosas, e os objetos reais foram vendidos e revendidos, circulando de mão em mão como verdadeiras relíquias. Hoje, depois de muitas reviravoltas, compõem o importante acervo do Museu de Versalhes. Mais de duzentos anos após o sacrifício dos reis e da nobreza, milhões de pessoas visitam anualmente o cenário onde a França vê refletidos gloriosos séculos de sua história milenar. Alguns chegam a visitá-lo como se fossem peregrinos.

Danton, Marat, Robespierre et caterva seguiram o mesmo caminho do patíbulo através do qual seu ódio revolucionário conduzira tantos franceses de mérito. Ter-se-á extinto com a execução deles o ódio que os consumia? Tudo indica que não, como veremos a seguir com um exemplo significativo cheio de simbolismos.

Na fotografia, dois sapatos gigantes ocupam o centro da Galerie des Glaces (Galeria dos Espelhos), um dos salões mais majestosos de Versalhes. São peças ilustrativas de uma exposição de “arte”, que assim conspurca salões, quartos, jardins, e até a capela, invadidos por obras que parecem resultar do trabalho aloucado de novas ralés modernas. Diante dessa monstruosidade “artística”, uma pergunta razoável se impõe, embora pareça supérflua: É necessário haver derramamento de sangue para que algo seja qualificado de odiento, de violento, ou mesmo de satânico?

Na Revolução Francesa perpetraram-se crimes em nome da liberdade, agressões culturais insultantes à razão, tudo reproduzido em fotos como esta, cujo conteúdo intencional, chocante, demolidor, o prezado leitor é convidado a analisar, entender e execrar com veemência.

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