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São Bernardo, Cantor da Virgem, Campeão da Ortodoxia e Pregador de Cruzadas

A 20 do corrente mês de agosto celebra a Santa Igreja o 800º aniversário da passagem ao Céu de São Bernardo de Claraval, o terno cantor da Santíssima Virgem, inspirado comentador do Cântico dos cânticos, ilustre mestre da vida espiritual, a quem, segundo Leão XIII, não podemos render honra demasiada, pois ilustrou com os esplendores de sua santidade e sabedoria não somente sua terra natal, a França, mas a Igreja Universal, fazendo toda a posteridade sua devedora.

"Nele, diz São Tomaz de Aquino, vemos cintilando as nove pedras preciosas de que fala o Profeta Ezequiel, pelas quais são significados os nove coros de Anjos, pois Bernardo possuía as virtudes e exercia as funções de todas as ordens angélicas. Sua boca era um cálice do mais puro ouro, todo cravejado de jóias, inebriando todo o mundo com o vinho de sua doçura". Segundo um seu biógrafo, "sua característica mais pronunciada era a unção, essa unção a um tempo suave e forte, doce e acre que matiza seu estilo inimitável, e que faz penetrar as idéias e sentimentos até o mais fundo da alma, impregnando-a de certo perfume celestial, à maneira por que o faz a graça divina. Daí o título de Doutor Melífluo com que é honrado desde o século XV".

Estamos diante de um homem formado inteira e exclusivamente sob a influência do Catolicismo, pois nasceu e viveu no apogeu da Idade Média, em uma época na qual a Santa Igreja conheceu o máximo prestígio de sua autoridade sobre os povos. Ao ensejo da passagem do oitavo centenário da morte de uma figura tão altamente representativa dessa gloriosa fase da Cristandade, queremos analisar alguns aspectos da personalidade e do modo de agir desse grande Santo, para demonstrar que, na essência, o que de mais importante ressalta em sua fisionomia moral e sua obra, longe de constituir um modo de ser e uma forma de santidade ultrapassada, é a seiva que alimenta a vida da Igreja em todos os tempos. O exemplo de São Bernardo, portanto, encerra preciosos ensinamentos, não de valor meramente históricos, mas de aplicação prática aos tumultuosos e infelizes tempos presentes. Podemos mesmo dizer que, nesta fase "pluralista" e dispersiva da Cristandade, o que mais lhe falta é aquele elemento de sacralidade que impregnou todo o apogeu da Idade Média e que o Abade de Claraval magistralmente espelha em toda a sua vida.

Consequências práticas do amor à Verdade

Com efeito, o que queremos acentuar entre as grandes virtudes de S. Bernardo é que ele "só uma coisa buscou, estudando e contemplando: o dirigir à suprema Verdade todos os raios de ciência que em todas as partes recolhia, mais movido e apoiado no amor do que na sutileza das opiniões humanas" (Pio XII na Carta Encíclica "Doctor Melifluus", de 24 de maio de 1953). Da Caridade, ou verdadeiro amor de Deus, decorre o dom da Sabedoria, entrelaçado intimamente ao dom do Entendimento, que faz frutificar em nós os germes da Verdade Infinita, objeto próprio da virtude da Fé.

Ora, ao contrário do relativismo, do opinionismo, do racionalismo hodierno, da aceitação, como fato consumado, das mensagens mais ou menos fracas dos semeadores de erros, em tudo São Bernardo manifesta seu alto espírito de Fé. A Fé, responde ele a uma das mais perniciosas afirmações de Abelardo, é, segundo a lição do Apóstolo, a substância das coisas que se esperam, a evidência das coisas que se não vêm (Heb. XI, 1). Notemos bem, a Fé é substância e não umas tantas fantasmagorias de conjeturas ociosas, que aceitamos se são de nosso agrado e feitio.

Dessa Fé profunda, dessa ardente Caridade, decorria em São Bernardo uma conseqüência manifestada de modo não menos vivaz, que era o horror ao erro e à maldade. Quem ama a Justiça, deve por força detestar a iniqüidade. E é justamente a falta do verdadeiro espírito de Fé, e também do amor de Deus, que embrutece e caleja os corações de muitos

(continua)