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Irlanda: NÃO ao Tratado de Lisboa

53,4 % x 46,6% -- A rejeição do povo irlandês a esse Tratado representou o repúdio à Constituição Européia, que pretende dissolver soberanias e impor aberrações como aborto e “casamento” homossexual

Luis Dufaur

O resultado do referendo irlandês

Os líderes da União Européia (UE) planejaram impor a qualquer custo a Constituição Européia. Eles sabiam que os povos europeus não engoliriam o vinho tóxico, e excogitaram um engodo na tentativa de camuflar o veneno.

Primeiro: prometeram algo diferente da famigerada Constituição Européia. Chamaram-no de Tratado de Lisboa e o qualificaram de “mini-tratado”. O euro-deputado dinamarquês de centro-esquerda Jens-Peter Bonde, autor de dezenas de livros explicativos dos tratados da UE, mostrou o significado do “mini”: 8.500 palavras a mais do que a já torrencial Constituição Européia, mas reduziu-se o espaço entre as linhas. Resultado: 62 páginas a menos!(1) Eis o significado do “mini”! Ainda assim, preenche 274 páginas na versão oficial em português! Ele copia 80% da recusada Constituição, mas faz velhacos cortes de pontos polêmicos que, a rigor, poderão ser reintroduzidos em futuros acordos pontuais da UE.

Segundo: a redação bateu recordes de ilegibilidade. As 274 páginas contêm uma lista de emendas a serem feitas em 3.000 páginas de tratados anteriores. Fica assim vetado o entendimento do texto. Segundo Bonde, a UE interditou toda edição que permita uma leitura corrida, antes que os 27 países membros o aprovem! Aprovação às cegas, no estilo soviético ou chinês. Uma fraude!

Terceiro: decidiram que os eleitorados não seriam consultados. O Tratado seria ratificado às pressas, em conchavos parlamentares. A macro-mídia garantiria a desinformação popular.

O “SIM” com todas as cartas na mão


O Tratado deparava-se entretanto com um obstáculo incontornável. Há anos, a Suprema Corte de Justiça da Irlanda estatuiu que toda modificação relevante da Constituição do país deveria ser referendada por consulta popular. O rolo compressor da “democrática” UE tinha que passar por essa via. E começou a tremer. Deveria consultar o simples cidadão irlandês, a voz do povo, soberano das democracias...

Mas a UE tinha suas cartadas.

Primeira: torrentes de dinheiro injetadas na Irlanda nos últimos anos: 40 bilhões de euros só em créditos e subsídios. Num país de 4,2 milhões de habitantes, é uma pirâmide de ouro.

Segunda: a grande mídia, o governo e a quase totalidade dos partidos, do empresariado, dos sindicatos e das grandes associações apoiavam o Tratado.

Terceira: a lei eleitoral para os referendos engessou os donativos para publicidade superior a 170 euros. Nenhum particular ou pessoa jurídica podia doar mais de 6.300 euros. Para os simpatizantes do “NÃO”, isto equivalia a ficar quase sem meios, enquanto os do “SIM”, donos da mídia e no comando dos órgãos mencionados, ficavam com o monopólio da propaganda.

Quarta: na católica Irlanda, a voz do episcopado é determinante. Era claro que os católicos, face a um tratado ininteligível, tenderiam a seguir seus conselhos. Ora, segundo a BBC, os bispos não assumiram uma posição pública a favor do Tratado, mas sugeriam aos fiéis que o aprovassem.(2)

Palavra certa para resolver a questão de consciência

Gerry O’Mahony e sua esposa Maire

O casal considerado como o mais idoso de Dublin -- os simpáticos e corajosos Gerry O'Mahony, 90 anos, e sua mulher Maire, 96 -- lançaram uma cruzada de orações para que o Tratado não passasse. Ó surpresa! O arcebispo de Dublin mandou retirar dos pórticos das igrejas todo pedido de oração neste sentido. Os grupos de orações sofreram a proibição, mas a TV católica mundial ETWN, dos EUA, continuou promovendo a cruzada.(3)

Grupos pró-vida denunciaram o aborto introduzido pelo Tratado. Outros verberaram seu caráter antinacional. Todos eles, via de regra, apresentaram argumentos consistentes e lógicos. Entretanto, faltava uma voz católica que respondesse à questão de consciência levantada pelo referendo: pode-se sancionar um texto tão anticatólico?

Nessa questão, destacou-se a Irish Society for Christian Civilisation (ISCC), associação católica que atua na difusão da Mensagem de Fátima. Ela elaborou um cuidadoso estudo intitulado “9 razões pelas quais um católico consciencioso deve recusar o Tratado de Lisboa”.(4) O estudo, com 5.000 exemplares, foi entregue aos bispos irlandeses e enviado a todos os párocos da Irlanda, a religiosos e religiosas, estas muitos numerosas no país.

A seguir, a ISCC publicou no mensário “Alive!” um resumo do estudo, com o título Sou católico: posso aprovar um Tratado que viola princípios cristãos inegociáveis?”. A tiragem é de 325.000 exemplares, distribuída gratuitamente nas paróquias de todo o país. A campanha foi completada com banners, links patrocinados e comunicados de imprensa para a mídia, também por sites e blogs dos opositores ao tratado.

Materialmente os recursos foram exíguos, face ao moloch do establishment e da mídia pelo “SIM”, mas o gesto da destemida ISCC conquistou a confiança dos católicos. Nenhum bispo manifestou qualquer discordância em relação ao documento. A impossibilidade moral de um “SIM” católico ficou proclamada. Assim, entende-se que o “Diário Econômico” de Portugal estampasse as manchetes: Nem a Igreja dá a cara pelo Tratado de Lisboa -- O arcebispo de Dublin apóia o Tratado de Lisboa, mas não aceita fazer campanha pelo ‘Sim’”.(5)

Derradeira tentativa do esquerdismo católico

Tendo ficado bem esclarecida a questão de consciência dos católicos, notou-se uma mudança nas preferências do eleitorado. Os indecisos começaram a se definir, e as sondagens a prognosticar a vitória do “NÃO”. A previsão de participação popular cresceu -- 53%, bem mais do que o esperado.

Nessas circunstâncias, o “Irish Catholic”, jornal próximo à Conferência Episcopal, dedicou matéria de capa e várias páginas incitando os católicos a votarem “SIM”. Afirmava que o Tratado favoreceria a Religião, e para isso explorava algumas de suas passagens enganosas.

A contradição do “Irish Catholic” em relação à verdade dos fatos e à doutrina católica foi gritante. A ISCC respondeu com um comunicado, pondo os “pingos nos is”. O “Irish Catholic” negou-se rispidamente a publicá-lo. Porém, seus sofismas pouco impressionaram os fiéis. A melhor parte do eleitorado católico confiou mais na ISCC do que no esquerdismo do “Irish Catholic”.

A vitória do “NÃO” foi incontestável. E também a derrota do europeísmo anticristão, anti-europeu e endossado pelo progressismo.

Toda a Europa engajou-se no referendo irlandês


O referendo galvanizou todo o continente europeu. Comentários dos leitores de grandes jornais da França e da Inglaterra tornaram isso patente.

Eis algumas opiniões de assinantes do “Le Monde”, de Paris: “Como querem que os irlandeses dêem uma resposta circunstanciada a um tratado que jamais puderam conhecer?”; “Os povos recusaram a Constituição de 2005, os governantes lhes apresentaram a mesma coisa com um pouco de cosmético em 2008, sem lhes pedir uma opinião. Felizmente, os irlandeses tiveram a chance de repelir esta palhaçada vergonhosa”; “Eu já ouço as rolhas de champagne estourando em toda Europa...”.

Não só franceses escreveram para os jornais de Paris. “Forza Irlanda!”, registrou um italiano; “A UE está pondo de lado o poder democrático do povo da Europa. Eles o estão mantendo deliberadamente desinformado, porque sabem que o povo não vota por eles!”, comentou um neozelandês; “Congratulações grandes e efusivas da parte da Espanha! O povo da Irlanda era nossa última esperança. Obrigado por dizer NÃO a este tratado antidemocrático! Não nos foi dado o direito ao referendum, portanto dependíamos de vós”, acrescentou um espanhol; “Grandes notícias para os irlandeses e todos os europeus. Obrigado, Irlanda!”, externou um alemão; “Melhor é que 3 milhões de cidadãos irlandeses falem por 500 milhões de europeus, do que um pequeno número de ministros dos países membros”, observou um americano. “Que vergonha os governantes da Polônia terem votado tão ligeiramente SIM. Foi sorte que vocês nos salvaram. Não precisamos de marxistas na Europa Central para nos guiar desde o berço até o túmulo. Precisamos menos de UE e mais liberdade”, deplorou uma polonesa.

Ingleses revoltados pelo menosprezo do governo e da UE

Os britânicos sentiram-se intimamente concernidos pelo referendo irlandês. Eis o que comentaram alguns diários como o “Times” de Londres: “Ótimo pelos irlandeses. Agora podemos esperar cair fora juntos da UE”; “Ouçam bem, políticos britânicos: vosso trabalho é jogar no sentido que o eleitorado vos pede, e NÃO embaralhar as cartas para enganá-lo”; “Os irlandeses nos salvaram da constituição introduzida pela porta dos fundos e deram a mesma resposta que o povo inglês daria”; “A UE está virando um monstro antidemocrático que visa impor um governo centralizado. Eu já fui um fã da UE, agora sou inimigo de morte e acredito que a Inglaterra tem que cair fora. Por que nosso governo entrega nossa soberania a burocratas sem rosto?”; “Agora os marxistas estão passando mal. Graças a Deus”; “Se se consultasse a todos os povos europeus, a resposta seria unânime pelo NÃO a um tratado indigesto e sem alma”.

Os leitores do “Le Figaro” de Paris não foram menos enfáticos: “Europeístas de toda espécie, exilai-vos... deixai a França e ide a Bruxelas, onde sereis pagos gordamente elaborando leis ineptas e ditatoriais”; “Chega de Tratado, chega de Turquia. Obrigado, irlandeses”; “Irlanda liberal recusa a União Soviética da Europa!”; “Nós NÃO QUEREMOS esta Europa tecnocrática e opressora que nos tira a liberdade, a soberania, que só é boa para deglutir bilhões em impostos. Há Estado demais na França, e ainda mais em Bruxelas. NIET!”; “Uma Torre de Babel dirigida por tecnocratas apátridas e manipuladores. [...] Dezenas de milhões de europeus compartilham vosso sentimento, e eu sinto-me feliz de estar em sintonia hoje com essa imensa maioria silenciosa”.

Partidários da UE revelam espírito ditatorial


A ocasião deu azo para os simpatizantes da UE e do péssimo Tratado revelarem seu temperamento ditatorial. Assim, entre muitos outros, alguns europeístas escreveram: “O voto popular é um horror. O que é que pretendem ser e saber essas pessoas do povo, para opinar em questões importantes! Os povos da Europa são bons apenas para ver futebol”.

E ainda: “Devolvam o dinheiro! A Irlanda deveria reembolsar as ajudas que a Europa lhe deu durante anos!”; “foi uma jornada triste. O ‘povo’ não quer Europa. Ele não quer evoluir. Ele não entendeu nada”; “É preciso banir os referendos das Constituições”.

* * *

Os líderes da UE entregaram-se de imediato à tarefa de forjar novo artifício para atingir sua meta. Ou seja, a construção de uma República Universal a partir das ruínas da Cristandade européia, em virulenta oposição à moral católica. O que farão agora?

Uma coisa é certa: os povos europeus não os acompanham. Por isso, como escreveu um internauta: “Não lhes resta senão driblar a vontade do povo”. Quer dizer, desrespeitar com alguma velhacaria a vontade da Irlanda. Em nome da democracia, é claro! Rotunda e contraditoriamente, aliás.

Notas:

1. http://hiddenireland.wordpress.com/2008/05/28/vote-no-to-lisbon/.

2 http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/northern_ireland/7450602.stm.

3. “Evening Herald”, 9-6-08.

4. http://www.say-no2lisbon.blogspot.com/.

5. “Diário Econômico”, Lisboa, 12-6-08.

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