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Memória

Da misericórdia nervosa da Ação Católica ao nudismo de hoje

Uma relativização da doutrina católica levou muitos a aceitarem como normal o que a Igreja sempre condenou. Daí a indagação de Plinio Corrêa de Oliveira: “Quem ainda é católico na Igreja Católica?”

  • Juan Gonzalo Larraín Campbell

Plinio Corrêa de Oliveira (no centro), junto a amigos na época do lançamento do livro Em Defesa da Ação Católica. Da esq. para a dir.: Dr. José Fernando de Camargo, Dr. Adolpho Lindenberg, Prof. Fernando Furquim de Almeida e Dr. José Carlos Castilho de Andrade.
A
aceitação da mais crua pornografia na TV, nos jornais, revistas, cinemas, teatros, internet; a generalização do biquíni nas praias, piscinas etc.; o uso habitual de “traje” de duas peças separadas; a prática habitual do controle da natalidade e a matança de milhões de inocentes, por meio do aborto; a legalização do divórcio e das uniões homossexuais –– são fatos, entre muitos outros, à vista de qualquer pessoa na vida cotidiana, que levantam algumas perguntas: Como, desde quando e por que se difundiu de tal maneira a imoralidade entre os católicos, que constituem a grande maioria dos brasileiros?

Parte da resposta a estas perguntas, procuraremos dá-la neste artigo, publicando denúncias e advertências que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira fez aos meios católicos há 62 anos, em seu livro Em Defesa da Ação Católica.

Mudança de mentalidade através da Ação Católica

São Pio X
Até a década de 30 a Igreja apresentava no conjunto de sua Hierarquia, encabeçada pelo Santo Padre, assim como na totalidade de seus ensinamentos, uma posição monoliticamente anticomunista e defensora da moral e dos bons costumes, o que constituía o obstáculo mais importante que o comunismo –– a III Revolução, depois do protestantismo e da Revolução Francesa –– encontrava diante de si em seu desígnio de conquistar o maior número possível de adeptos. Para que os católicos apertassem a mão que os comunistas lhes estendiam, e para que se abrissem à imoralidade do século, era necessário operar-se uma modificação na mentalidade dos fiéis.

Esta manobra de modificação teve seu mais dinâmico centro de irradiação nos setores mais influentes do movimento Ação Católica, cujos principais elementos eram continuadores da heresia modernista, condenada em 1907 por São Pio X.

Plinio Corrêa de Oliveira discerniu em sua origem os métodos e os erros que renasciam, mostrando que estes constituíam um sistema de pensamento e ação. Unificou-os e denunciou-os em seu livro Em Defesa da Ação Católica, editado em 1943, prevendo as ­­­­conseqüências que a difusão de tais erros trariam para a Igreja e a Cristandade.

Já anos antes da publicação dessa obra, vinha ele advertindo os leitores do “Legionário” — órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo, do qual era diretor — sobre a deformação que se estava operando em certos meios católicos. Consistia ela na introdução de uma mentalidade emocional e dulçorosa, que ardilosamente ia colocando de lado a fé e a razão, substituindo-as por sentimentos humanos de natureza laica e filantrópica, que não consideravam a existência do mal.

Chegava-se assim a uma deformação completa de certos princípios católicos dos mais sagrados.

Nervosismo misericordioso e misericórdia nervosa

Procissão no Rio de Janeiro, em 1931: o pujante movimiento católico influenciava possantemente a sociedade.
Uma das características dessa mentalidade, que estava na origem do progressismo, era o erro liberal de que todos os homens são bons. Daí decorria uma complacência sentimental ilimitada em relação aos inimigos da Igreja, destituída de qualquer fundamento. Complacência esta que, por outro lado, continha em si um ódio implacável aos católicos que defendiam a Igreja contra seus adversários.

Esse estado de espírito foi constantemente denunciado pelo Prof. Plinio. Em 1941, por exemplo, ao comentar uma brochura aparentemente impressa nos Estados Unidos, na qual se asseverava que o catolicismo, o nazismo e o comunismo eram solidários na obra de destruição da democracia, ele escreveu:

“Mas como é possível que semelhante disparate encontre campo na opinião pública? Como há ainda quem tenha a audácia de afirmar que a Igreja, que tão duramente luta contra o nazismo e o comunismo, é aliada de um e de outro?

“A culpa, em boa parte, cabe aos católicos de meias tintas, aos católicos expostos a acessos de nervosismo misericordioso, ou misericórdia nervosa, que os enche de inexplicáveis ternuras, finas suscetibilidades, agudo espírito de fraternidade com todos os inimigos da Igreja. Se um católico ataca um adversário da Igreja, contra quem se indignam tais indivíduos? Contra o adversário da Igreja? Não, contra o católico. Mais os irrita um possível excesso contra os adversários, do que os notórios excessos dos adversários contra a Igreja”.(1)

A injustiça contida na deformação romântica da misericórdia é desvendada mais uma vez no mesmo artigo:

“Isto equivale a ter mais pena de Malco do que de Nosso Senhor. Ter pena de Malco é bom, Nosso Senhor nos deu disto exemplo. Mas chorar sobre a orelha de Malco e irritar-se contra São Pedro, a ponto de perder qualquer presença de espírito para pensar nos sofrimentos de Nosso Senhor e na infâmia de Judas, não será evidente desacerto?"(2)

Igualitarismo e liberalismo na Ação Católica

Era nos setores mais dinâmicos da Ação Católica que se difundiam os erros que estamos assinalando.

Tais setores eram animados por um profundo espírito igualitário e liberal, que não tolerava nem a organização fundamentalmente hierárquica da Igreja, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu, nem a separação e a luta entre o espírito católico e o espírito do mundo.

Enquanto igualitários, inculcavam a diminuição ou eliminação da distância que separa o religioso do leigo. Desejando equiparar todas as crenças, derrubavam as barreiras que diferenciam o católico do herege.

Enquanto liberais, tendiam a destruir a muralha existente entre a moral católica e a impureza reinante no mundo, dando livre curso às paixões, pela rejeição sistemática da ascese e das práticas religiosas tradicionais.

Neste artigo nos limitaremos a expor denúncias que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira fez sobre este último ponto em seu livro Em Defesa da Ação Católica, e que hoje verificamos confirmadas pelos fatos.

Concessões ilimitadas em matéria de modas

A nova tática apostólica da Ação Católica parecia basear-se no respeito humano. De fato, como conseqüência da tendência dela a adaptar-se ao mundo, a firmeza dos princípios se ia diluindo paulatinamente, diminuindo também a coragem para defendê-los, dando lugar a um espírito de concessões ilimitadas em matéria de costumes:

"Sob pretexto de romper com a rotina, falou-se em ‘apostolado de infiltração’. A necessidade deste apostolado é premente. Não obstante, nada autoriza a que, sob o rótulo desta verdade, posta como as outras em franco delírio, se faça uma condenação radical de todos os processos de apostolado desassombrados e de viseira erguida. Dir-se-ia que o respeito humano, que nos leva a calar a verdade, a adocicá-la, a fugir de qualquer luta e de qualquer discussão, passou a ser a fonte inspiradora de uma nova estratégia apostólica, a única a ter curso oficial na A.C., segundo os desejos de certos círculos. A par disto, começou a formar-se um espírito de concessão ilimitada diante do surto das novas modas e novos costumes. Isto se disfarçou, aliás, sob o pretexto de uma obrigação grave de fazer apostolado nos ambientes cuja freqüência a Teologia Moral declara vedada a qualquer católico que não queira decair da dignidade sobrenatural que lhe foi conferida pelo Batismo".(3)

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