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PALAVRA DO SACERDOTE

Monsenhor José Luiz Villac

Pergunta — Numa reunião, o diácono de nossa paróquia disse que dentro de poucos anos a Igreja aceitará sacerdotes casados. No começo, como exceção à regra geral da Igreja latina (para isso teria sido convocado, segundo ele, o Sínodo dos bispos da região amazônica); e mais tarde, como uma opção pessoal para todos os candidatos ao sacerdócio. Como alguns participantes estranharam essas afirmações, ele se justificou dizendo que o celibato sacerdotal é uma questão puramente disciplinar e não teológica, que foi imposto à Igreja latina somente a partir do século XII, por causa da influência dos monges, muito numerosos na época; e em todo caso, nunca vigorou nas igrejas de rito oriental, que permaneceram fiéis aos costumes da Igreja primitiva. E concluiu dizendo que essa discussão sobre o celibato é perda de tempo, porque a queda das vocações e a carência de sacerdotes vão obrigar a Igreja a mudar de disciplina. Confesso que fiquei muito confuso, e gostaria de conhecer a opinião do senhor.

Resposta — Compreendo o embaraço do consulente diante dessa apresentação simplista e falseada do celibato sacerdotal e dos erros históricos crassos que pretendem a sua justificação. Para retificá-la, é preciso repassar aos leitores alguns elementos essenciais do sacerdócio católico, e depois explicar a ligação deste com a continência carnal, exigida dos ministros do altar desde o início da Igreja, assim como o ulterior aprimoramento da disciplina do celibato na Igreja do Ocidente.

O primeiro elemento a ser considerado é que na religião católica, diferentemente da religião judaica do Antigo Testamento e de todas as falsas religiões anteriores ou posteriores ao cristianismo, o sacerdote não é apenas aquele que preside os ritos religiosos ou que oferece o sacrifício a Deus em nome do povo — a ordenação sacerdotal eleva quem a recebe a uma união orgânica sobrenatural com Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa união habilita o sacerdote católico a participar nas funções sacerdotais do Redentor, agindo in persona Christi. Ou seja, na celebração da missa ou na confissão, ele por assim dizer empresta os seus lábios e as suas mãos a Jesus, que é o Sacerdote eterno, o Mediador entre o Céu e a Terra, entre o Pai e o gênero humano, e de cujo sacerdócio único o presbítero participa.

Diz Paulo VI na sua encíclica Sacerdotalis cœlibatus: “Em plena harmonia com esta missão [de Mediador de um Testamento Novo, mais excelente], Cristo manteve-se toda a vida no estado de virgindade, o que significa a sua dedicação total ao serviço de Deus e dos homens”. Donde “o nexo profundo em Cristo, entre virgindade e sacerdócio”, nexo que “se reflete também naqueles que têm a sorte de participar da dignidade e da missão do Mediador e Sacerdote eterno”; de modo que “essa participação será tanto mais perfeita quanto mais o ministro sagrado estiver livre dos vínculos da carne e do sangue” (n° 21).

A partir dessa perspectiva teológica da identificação do sacerdote com Cristo (“agimos como embaixadores de Cristo”, afirma São Paulo em 2 Cor 5), conclui-se que, contrariamente ao afirmado pelo diácono da paróquia do consulente, a temática do celibato eclesiástico não é mera questão disciplinar. Pelo contrário, há um liame ontológico entre sacerdócio e celibato eclesiástico, o qual foi ressaltado na exortação pós-sinodal Pastores dabo vobis, de S. S. João Paulo II: “Não se deve considerar o celibato sacerdotal como simples norma jurídica, nem como condição meramente exterior para ser admitido à ordenação, mas antes como valor profundamente conexo com a Ordenação sacra, que configura a Cristo Bom Pastor e Esposo da Igreja” (n° 50).

Obrigação de abster-se do comércio carnal

Para sermos mais precisos, deveríamos de preferência falar do liame ontológico que há entre o serviço do altar e a continência carnal, a qual foi sempre exigida dos ministros do altar (inclusive dos diáconos), já desde os primórdios da Igreja. É falso dizer que a disciplina do celibato sacerdotal foi imposta pelo Segundo Concílio de Latrão, em 1139. O que este fez foi apenas declarar solenemente que não só eram ilícitos, mas também inválidos os casamentos contraídos pelos clérigos que receberam as ordens maiores (diáconos, sacerdotes e bispos), assim como os casamentos dos religiosos que fizeram voto de castidade. Declarou inválido o que sempre tinha sido proibido. Esta nova sanção apenas confirmou uma obrigação, existente havia muitos séculos, mantida primeiro como regra transmitida oralmente, e mais tarde fixada como lei escrita.

O primeiro cânon relativo à continência dos clérigos é do Concílio de Elvira, na primeira década do século IV, logo após a Igreja sair das catacumbas pelo Edito de Milão, do ano 313. As perseguições tinham favorecido abusos e a inobservância da disciplina eclesiástica, pelo que os bispos e sacerdotes da Igreja da Espanha reuniram-se nas cercanias de Granada para colocar sob um regulamento comum a parte ocidental do Império Romano.

O Cânon 33 do Concílio contém a primeira lei sobre o celibato, sob a rubrica Sobre os bispos e ministros [do altar], que devem ser continentes com suas esposas. Nela se encontra o seguinte texto dispositivo: “[O Concílio] está de acordo sobre a proibição total, válida para

(continua)

LEGENDAS:
- Ordenação clandestina nas catacumbas – Etienne Azambre, século XIX. - Coleção Particular (França).
- Ordenação sacerdotal nos Estados Unidos.



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