Revista Catolicismo
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(continuação)

desejamos outra coisa. Há um combate interior, que nos leva a contradições, e às vezes fazemos uma coisa, depois mudamos e fazemos outra. O animal, nesse ponto, é superior ao homem.

* * *

Quando eu era pequeno, ia ao Jardim da Luz em São Paulo, onde havia um lago artificial com cisnes, e gostava de vê-los nadando. A maioria eram cisnes brancos, e um ou outro preto. Eu ficava encantado de ver a decisão suave, mas sem nenhuma forma de hesitação, com que um cisne tomava rumo na água, aparentemente sem motivo. Algumas vezes seguia em frente, outras vezes dava uma volta, nadava sem rumo aparente pelo meio do lago, mas nunca tontamente. Seguro de si, olhando o lago com aquele pescoção alto e a superioridade de cisne, flutuando como quem não se molha, mas regozijando-se do contato com a água.

Eu não conhecia ainda a doutrina do pecado original, e me perguntava: por que não sou assim? Por que não tenho essa segurança que tem o cisne, essa lisura no viver? Não seria melhor que eu tivesse nascido cisne?

Eu percebia que o cisne não tinha luta interior. Mesmo quando fazia alguma coisa sem razão aparente, a decisão era determinada por algo do seu instinto. Não havia luta interior, e durante muito tempo ele tornou-se para mim o próprio símbolo da falta de hesitação e da ausência de dúvida interior. Parecia haver um acordo implícito do cisne com as águas — elas nunca tentavam contra ele, nem ele contra elas. Deslizando sobre aquelas águas, ele parecia orná-las, e elas nunca se moviam de modo a contrariá-lo. O cisne ficava seco, com a toalete perfeita para o dia inteiro. Agradava-me enormemente contemplá-lo.

Essa divisão — ora querendo uma coisa, ora outra — nos joga tão baixo que parece representar uma vergonha. No entanto, isso nos coloca muito acima dos cisnes e dos outros animais, representa de fato uma vantagem. Nós somos capazes de nos conhecer a nós mesmos e de conhecer os outros. Somos capazes de conhecer o mundo externo. Nosso intelecto nos torna capazes de conhecer a Deus. Nós compreendemos. O simples fato de compreendermos a nossa alteridade — que cada um de nós é eu, e não o outro — o fato de cada um poder dizer “sou eu” é uma superioridade fabulosa. Somos inteligentes, conhecemos a Deus e o mundo externo, conhecemo-nos, sabemos quem somos. Também por isso o homem é o rei da criação. Um rei que cambaleia e que cai, se não abrir os olhos e se não rezar muito. Rei cego, mas que tem em sua fronte um diadema, uma coroa.

* * *

O que move o homem a agir nas várias situações? Move-o um modo de conhecimento animal que há em si, em face da realidade exterior. Exemplifico com as características deste nosso grupo de pessoas conhecidas. Meus olhos os veem, a todos e a cada um, e essa função de meus olhos é puramente animal. No entanto, a ela se somam imediatamente mil memórias, recordações sobre o nosso relacionamento anterior: as razões pelas quais estamos juntos; as metas que tenho, ao aceder em estar junto dos conhecidos; as facilidades e dificuldades que tenho na obtenção dessas metas. Portanto, levam-me a avaliar o que devo dizer e como devo dizer, para a obtenção dessas metas. Entra aí uma pirâmide de dados que foram intermediados pelo corpo e estão na inteligência, são armazenados na inteligência.

O corpo tem seu papel, e bem maior do que muitos imaginam. Se meu corpo fosse outro — se, por assim dizer, minha animalidade fosse outra — eu veria as pessoas como estou vendo, mas ressaltaria algumas coisas e outras não, reagiria de modo diferente em relação a umas coisas e outras. Portanto, o mesmo quadro que estou vendo agora, para mim teria relevos e cores diferentes. Cada homem é assim, à maneira de um tapete que, colocado junto à luz, toma reflexos variados. Nenhum homem tem, em face das coisas que vê, uma atitude inteiramente idêntica à de outro homem.

Embora sendo do mundo animal, devido às nossas inteligências nós somos capazes de julgar. Se algo não for conforme à Lei de Deus, conforme à verdade que minha inteligência percebe, sou capaz de reprimir o que é ruim e aceitar o que é bom, e até de desenvolver o que é bom. Portanto, minha alma continua a rainha, mesmo em águas convulsas. A batalha e a dificuldade são diferentes de uma pessoa para outra, e cada um pode também compreender a Deus de um modo ou de outro.

(continua)



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