Revista Catolicismo
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(continuação)

Voltando ao exemplo do gato. Volto de bom grado a ele, porque é um animal muito interessante, muito sugestivo e muito velhaco. E tem a vantagem de seus estados de animalidade serem muito matizados, ele muda continuamente en dégradé, sem saltos, como numa espécie de opala. Inspira também um certo medo, porque pode ter mudanças muito súbitas e muito variáveis.

Há gatos que são a própria imagem do raffinement. Sedosos, peludos, movem-se com elegância, fazem poses. Outros são a própria imagem do carinho, brinquedinhos vivos, que brincam de modo encantador. Gatinhos bebendo juntos de uma mesma tigela com leite, por exemplo, podem fazer coisas encantadoras.

Uma proeza felina que enraivece a dona, é quando ele consegue enfiar a pata pela porta da gaiola, agarra o passarinho e se banqueteia com uma refeição requintada. Cunharam até essa expressão bem achada, para a cara de fingido arrependimento quando alguém é apanhado em flagrante delito: cara de gato que comeu passarinho. Quem nunca viu a cena, pode facilmente imaginá-la.

Outra é a do gato que sobe no aquário e fica observando os movimentos do peixinho. Quando ele está numa posição conveniente, o gato mete rapidamente a pata e joga o nadador para fora da água, depois dá um salto felino e o apanha. Há em Paris uma Rue du Chat-qui-Pêche (Rua do gato que pesca), em memória de um gato que sobressaiu-se nessa habilidade no rio Sena, e era espetáculo gratuito para muitos, a ponto de merecer essa homenagem da municipalidade.

Por que Deus criou o gato com todas essas diversidades? Funcionaria igualmente bem o mundo, se não houvesse gatos? Evidentemente, Deus criou o gato para os homens, mas o que lucram os homens com a existência do gato? Ele distrai o homem, e também lhe serve de exemplo. Ora o encanta, ora o frustra. Por mais mansinho e apreciador de carinho, de repente lhe mete uma unhada.

O gato deixa no homem certo pesar de não existir o gato ideal: interessante como o gato ruim e encantador como o gato bom; vivo como o gato de goteira e sedoso como o gato criado sobre a almofada vermelha de uma marquesa; gatinho de brinquedo para distrair, mas nunca agredindo nem arranhando, nunca pregando má surpresa; capaz de arranhar e pregar má surpresa aos inimigos do homem, que são os ratos da casa. Na verdade o homem desejaria um gato duplo: tigrinho para o rato e brinquedinho para ele, pressupondo-se também a condição de não incluir peixinhos e passarinhos na sua dieta, nem derrubar louças frágeis.

* * *

Em todos esses estados de espírito que o contato com o gato proporciona, não estaria o homem sonhando com o Paraíso perdido? Não fica propenso a sentimentos de bondade? De outro lado, não fica propenso a sentimentos de prudência? E junto com a virtude da prudência, não exercita também a virtude da bondade, da caridade, da mansidão? Mais ainda a virtude da fortaleza, quando o gato atrapalha e o homem sai em sua perseguição? Não recebe do gato uma lição de vigilância, quando o vê levantar as orelhas e começar a olhá-lo? Nessa situação, o homem não se sente um bobo em face do gato? O reboliço que os gatos fazem dentro de um “saco de gatos” pode lembrar muito bem a consciência acusadora do pecador...

Essas mil lições que o gato proporciona ao homem simbolizam mil aspectos da realidade, com seu lado ruim decorrente do pecado original, mas com seu lado bom que tem fundamento em Deus. O sedoso e macio do gato simbolizam de algum modo as delícias do convívio divino. O interessante e o novo que há no gato simbolizam de algum modo o que há de inesgotável e sempre surpreendente para nós em Deus: sempre o mesmo, mas motor imóvel, causando todas as coisas e fazendo coisas que nos deixam continuamente surpresos, encantados e tranquilamente habituados a algo que não muda nunca. E assim, subindo até o mais alto ponto, elevamo-nos a Deus.



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