Catolicismo n° 811, julho de 2018
Revista Catolicismo
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"Movimentos marxistas e regimes de esquerda veem no Papa Francisco um ponto de apoio, pela simpatia que tem demonstrado em relação às reivindicações desses grupos ou governos"

(continuação)

Catolicismo — Muitos católicos manifestam estranheza ante o relacionamento do atual sucessor de São Pedro com os movimentos ditos "sociais", que agem segundo a doutrina comunista. O que seu estudo diz a respeito?

J. A. Ureta — Para a doutrina católica, o comunismo é "intrinsecamente perverso". O cardeal Joseph Ratzinger, que depois assumiu o trono pontifício como Bento XVI, qualificou-o como "vergonha de nosso tempo"; e no documento "Libertatis Nuntius", condenou a "Teologia da Libertação". Porém, os movimentos marxistas e regimes de esquerda do mundo inteiro veem no Papa Francisco um ponto de apoio, pela simpatia que tem demonstrado em relação às reivindicações desses grupos ou governos. Francisco I tem repetido que o comunismo roubou a bandeira do Cristianismo na luta a favor dos pobres, dando com isso a impressão de tratar-se de uma ideia bem-intencionada.

A geopolítica vaticana parece adotar um relacionamento privilegiado com os regimes da Venezuela, de Cuba e da China, que se inspiram no socialismo real. Cito em meu trabalho vários fatos em confirmação disso, e dentre eles menciono aqui apenas um. Em entrevista coletiva concedida logo após visitar o Vaticano, o ditador cubano Raul Castro declarou: "Leio todos os discursos do Papa. Se continuar assim, eu voltarei para a Igreja Católica, mesmo sendo membro do Partido Comunista". Simples manifestação com objetivo político? Ou será verdade que ele considera as posições do Papa próximas do comunismo?

O Papa Francisco tem-se defendido reiteradamente da acusação de ser comunista, com o argumento de que se limita a proteger os pobres contra as injustiças de que são vítimas. No entanto ele tem manifestado amizade por personalidades comunistas em diversas ocasiões, e parece julgar que o único erro do marxismo consiste em querer transformar a luta dos pobres em ideologia.

Para o atual pontífice o ideal cristão é o de uma sociedade sem classes sociais, motivo pelo qual "o sistema social e econômico é injusto na sua raiz", como ele afirma na Evangelii gaudium. "A desigualdade é a raiz dos males sociais", afirmou em outra ocasião. Ora, esse é o pressuposto das teses comunistas e destoa da doutrina social católica, a qual ensina que a raiz de todos os males (inclusive dos males sociais) é o pecado, e que a igualdade essencial dos homens — todos igualmente filhos de Deus e herdeiros do Céu — não se opõe à desigualdade acidental resultante de seus variados talentos, diligência, educação e condição.

Catolicismo — Temos recebido de nossos leitores, nestes cinco anos do Papa Francisco, muitas expressões de perplexidade com tantas mudanças no ensinamento perene da Igreja. Que conselho o senhor lhes daria, nesta triste situação de crise na Igreja?

J. A. Ureta — O que todos precisamos ter é fidelidade e confiança nos ensinamentos perenes da Igreja. Entre a morte e a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, fraquejou a fé de todos os que O seguiam, inclusive os apóstolos. Mas houve um coração privilegiado, cuja fé nunca sofreu o menor abalo. Foi aquele o momento em que no Coração sapiencial e imaculado de Maria se recolheu toda a fé da humanidade. Portanto, podemos e devemos confiar sempre em Nossa Senhora. Nós e os nossos leitores devemos pedir a Ela o fortalecimento da confiança, pois a Igreja recebeu de Nosso Senhor a promessa de que as potências do Inferno não prevalecerão. Daí a nossa certeza inabalável de que virá o reerguimento glorioso do Papado e da Igreja.

Desde a juventude nas fileiras do movimento católico, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, inspirador e principal colaborador de Catolicismo, foi um ardoroso paladino da Cátedra de Pedro, o que o levou mais tarde a coordenar o movimento em defesa dos três valores básicos da civilização cristã — Tradição, Família e Propriedade. Já na década de 1970, o Papado sofria o processo que o próprio Papa Paulo VI denominou autodemolição; e desde então essa decadência culposa não fez senão acentuar-se ainda mais. Porém o Prof. Plinio conservou sempre todo o respeito e veneração devidos às autoridades eclesiásticas, mesmo empenhado como estava numa atitude de resistência aos erros infiltrados na Santa Igreja. Sigamos o seu belíssimo exemplo, certos de que após esse tormentoso eclipse o Sol voltará a brilhar com todo o seu esplendor.

Nesta triste situação, não devemos limitar-nos à perplexidade seguida de orações fervorosas; também é nosso dever empreender uma lícita e necessária resistência, segundo o exemplo de São Paulo (Gal 2, 11). Não se trata de pôr em discussão a autoridade pontifícia, perante a qual nosso amor e nossa veneração devem estar em constante crescimento. O próprio amor ao Papado nos leva a resistir diante de gestos, declarações e estratégias político-pastorais discordantes do depositum fidei, discordantes da Tradição da Igreja. É verdade que nenhuma heresia pode ser ensinada infalivelmente pelos Papas, mas também é verdade que um Papa pode errar, quando ensina algo sem fazer uso do carisma da infalibilidade, ou ainda quando trata de um assunto não coberto por esse carisma. Nesse caso, por amor à verdade e à Igreja, podemos e devemos resistir. Todos os fiéis podem e devem resistir.

Assim, convido os leitores de Catolicismo a ler e aplicar à atual situação do Papado a Declaração de Resistência à Ostpolitik do Papa Paulo VI, que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira redigiu em abril de 1974: A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas — Para a TFP: omitir-se? ou resistir? [Nota da redação: Esse magistral documento encontra-se disponível neste link: https://ipco.org.br/a-mudanca-de-paradigma-do-papa-francisco-continuidade-ou-ruptura-na-missao-da-igreja/]

Catolicismo — De nossa parte, agradecemos os seus esclarecimentos; e também recomendamos a leitura do estudo que o senhor publicou sobre esses cinco anos do atual pontificado*.

J. A. Ureta — Agradeço a recomendação, e aproveito para fazer uma ressalva. Não sou um acadêmico, apenas tenho acompanhado com interesse os debates surgidos nas cinco últimas décadas no seio da Igreja Católica, complementando com pesquisas sobre alguns dos temas tratados aqui. Peço, portanto, alguma condescendência com as limitações do meu trabalho. 

Nota:

* O estudo A "mudança de paradigma" do Papa Francisco: continuidade ou ruptura na missão da Igreja? está sendo difundido pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e pode ser gratuitamente obtido no seguinte link: https://ipco.org.br/

LEGENDA:
Já na década de 1970, o Papado sofria o processo que o próprio Paulo VI [foto à dir.] denominou como autodemolição. À esq., Plinio Corrêa de Oliveira após uma missa pelas vítimas do comunismo celebrada na catedral de São Paulo, nos anos 70.



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