POR QUE NOSSA SENHORA CHORA?

Segredo de confissão ameaçado

Paulo Henrique Américo de Araújo

Sacerdotes na Austrália “dispostos a ir para a prisão” antes que violar o segredo de confissão.

Nos últimos meses, notícias de abusos sexuais de membros do clero ganharam mais uma vez grande destaque na mídia. As evidências existem, embora sejam habitualmente acompanhadas de exageros da imprensa. Escândalos como os noticiados causam indignação e tristeza em todos os católicos verdadeiros, mas sobretudo no coração materno de Nossa Senhora.

Nesses momentos em que o público se manifesta estarrecido com o noticiário, os propagadores de falsas soluções surgem e se arvoram em defensores da moral infantil e juvenil, repetindo a velha cantilena de que a Santa Igreja deve mudar suas instituições e disciplinas. O celibato sacerdotal e a organização hierárquica da Igreja tornam-se os alvos preferidos de tais detratores e fabricantes de falsas soluções.

Curiosamente, a mídia anticatólica passou a pontificar contra os abusos sexuais de membros do clero. Mas é público e notório que ela há muito tempo se destaca como a maior promotora da perversão sexual de crianças, jovens e adultos. Basta ver o amplo espaço que dedica à imoralidade na TV, no cinema, na internet; à educação sexual e ensino da ideologia de gênero nas escolas; à pornografia e incentivo a desvios sexuais em todos os veículos de publicidade. Sendo essa mídia a grande propagadora dos erros morais, com que direito esbraveja contra os que praticaram esses mesmos erros? Deveriam entender ainda que uma consequência inevitável da propaganda que fazem da imoralidade e liberalização dos costumes é a penetração dessa imoralidade nos próprios seminários, minando na base a tradicional exigência da castidade e pureza dos costumes no clero. Tudo isso, dói também dizê-lo, com a conivência ou cumplicidade de altos Prelados.

A solução para a crise moral do clero não se encontra na desconstrução dos costumes e instituições católicas milenares, mas na retomada vigorosa deles. Acrescente-se a necessidade de frisar a noção do pecado, do bem e do mal. Sem isso, será inócua qualquer medida para encontrar, denunciar e punir os eventuais culpados de abusos sexuais dentro da Igreja.

Diante desse quadro, bem se podem aplicar as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira em uma meditação da Via Sacra publicada em Catolicismo (março/1951): “Quantos são os que realmente veem o pecado e procuram apontá-lo, denunciá-lo, combatê-lo, disputar-lhe passo a passo o terreno, erguer contra ele toda uma cruzada de ideias, de atos, de viva força se necessário for? Quantos são capazes de desfraldar o estandarte da ortodoxia absoluta e sem jaça, nos próprios lugares onde campeia a impiedade ou a piedade falsa? Quantos são os que vivem em união com a Igreja este momento, que é trágico como trágica foi a Paixão, este momento crucial da História, em que a humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo?”

Inviolabilidade do segredo da confissão

Entretanto, a atual ofensiva contra a Igreja aproveita-se dos escândalos sexuais para avançar ainda mais na sua obra destruidora. Pretende inclusive quebrar o sigilo do sacramento da confissão. Em junho deste ano, o território de Camberra, na Austrália, aprovou uma lei que obriga os sacerdotes católicos a revelar à polícia o segredo de confissão, quando algum fiel declarar pecados em matéria de abusos de menores. A norma passará a vigorar a partir de 31 de março de 2019.1

No momento, o alcance dessa lei anticatólica é regional, mas já se cogita a sua ampliação para a esfera nacional. A informação é de Sandro Magister: “O primeiro-ministro de New South Wales, um dos estados que constituem a federação australiana, já requereu que a lei seja discutida e sancionada em âmbito federal, tornando-a válida para todo o país”.2

O clero católico, como é seu dever, reagiu com firmeza. O Pe. Michael Whelan, pároco de Saint Patrick, em Sydney, esclareceu que o Estado não pode constranger os sacerdotes católicos a praticar o mais grave dos crimes. E acrescentou que ele e outros sacerdotes estão “dispostos antes a ir para a prisão” do que violar o segredo de confissão.

A Fraternidade Australiana do Clero Católico (Australian Confraternity of Catholic Clergy – ACCC), associação privada de sacerdotes, afirmou que o segredo sacramental “não é meramente uma questão de direito canônico, mas de Lei Divina, a qual a Igreja não tem poder para dispensar. Nenhum sacerdote está obrigado a cumprir qualquer lei humana que procure solapar a confidencialidade absoluta da confissão”.3

É importante lembrar a firmeza com que a Igreja trata o sigilo da confissão. O cânon 984 do Código de Direito Canônico proíbe terminantemente ao confessor fazer uso de qualquer informação ouvida na confissão. O cânon 1388 pune o confessor que “viole diretamente o sigilo sacramental, com excomunhão latæ sententiæ [automática]

(continua)